Livros e fatias de bolo de chocolate

Antes de ser professora, já dava aulas às bonecas.

As bonecas eram alunas exemplares. Nunca chegavam atrasadas, não se esqueciam dos trabalhos de casa e ouviam todas as explicações com uma serenidade que raramente voltei a encontrar numa sala de aula.

Também nunca faziam perguntas, o que, pensando melhor, talvez não fosse assim tão bom.

Eu escrevia num quadro de giz, inventava exercícios e explicava a matéria com a solenidade de quem tinha uma missão importante. Naquele tempo, ainda não sabia que viria a ser professora, ou talvez soubesse, às vezes as crianças saibam muitas coisas antes de aprenderem a explicá-las.

O futuro começa frequentemente como uma brincadeira.

Eu tinha uma imaginação que nunca aprendeu a andar devagar. Construía países dentro do quarto, criava personagens e mudava o destino das histórias. Se alguém estava triste, inventava-lhe uma saída. Se alguém se perdia, desenhava-lhe um caminho. Se o mundo acabava, começava outro.

A imaginação foi a minha primeira forma de liberdade.

Lia muito.

Lia como quem escava uma passagem secreta para fora de casa. Os livros abriam buracos nas paredes e, através deles, eu entrava noutros lugares.

Encontrava crianças perdidas, mulheres corajosas, animais que falavam e criaturas impossíveis. Conhecia países onde nunca tinha estado e pessoas que sentiam coisas parecidas com as minhas, embora tivessem vivido noutros séculos ou do outro lado do mundo.

Os livros ensinaram-me que a solidão podia ser habitada e talvez por isso, tenha começado a ler tão cedo. Sempre me fascinou essa ideia maravilhosa de juntar pequenos símbolos e com eles formar palavras e sons.

Depois de aprender a ler aprendi a escrever e comecei a escrever histórias.

Escrevia para organizar aquilo que, dentro de mim, não tinha ordem nenhuma. No papel, os meus medos podiam ser vencidos, os mortos regressavam e as pessoas encontravam sempre as palavras que, na vida verdadeira, lhes chegavam tarde demais.

Talvez tenha começado a escrever porque a realidade me parecia um primeiro rascunho com demasiados erros.

Nas minhas histórias, eu podia sempre corrigir o mundo.

Por isso quando cheguei à escola já estava muito adiantada e aprendia tudo com enorme facilidade o que me fez sempre adorar esse tempo em que aprendia muitas coisas novas e onde fiz as minhas primeiras amigas. A escola era assim um lugar onde eu podia conversar, rir e fazer parte de alguma coisa. Durante algumas horas, deixava de ser a menina que brincava sozinha e passava a pertencer a um pequeno país feito de carteiras, cadernos, recreios e segredos.

E depois havia a professora Graciete. A professora Graciete era uma mulher extraordinária, muito à frente do seu tempo e que tinha sempre um abraço para nos dar, como se quisesse ensinar-nos que também se pode educar com os braços.

Gostava de mim sem reservas e mostrava-o. Dizia-me para nunca deixar de estudar. Achava-me inteligente e percebia, como ninguém, o meu amor por duas áreas tão diferentes e opostas, mas para mim tão complementares: a Matemática e a Língua Portuguesa.

Eu amava as duas porque cada uma prometia uma coisa diferente.

A Matemática prometia que alguns problemas tinham solução.

A Língua Portuguesa avisava-me de que nem todos tinham.

Uma oferecia-me o rigor dos números; a outra, a liberdade das palavras. Entre ambas fui aprendendo que uma vida pode ser exata e inexplicável ao mesmo tempo.

Gostava de encontrar a resposta certa, mas também gostava de descobrir que uma palavra podia ter vários sentidos. Sentia-me em casa tanto entre equações como entre metáforas.

Talvez o paradoxo tenha começado aí.

Uma parte de mim queria demonstrar tudo. A outra sabia que as coisas mais importantes nunca cabem inteiramente numa demonstração.

Quando tinha a melhor nota a Matemática ou a Português, a professora Graciete oferecia-me livros e fatias de bolo de chocolate.

Ainda hoje penso que aquele era um sistema de avaliação quase perfeito.

Havia conhecimento, afeto, literatura e chocolate. A escola nunca voltou a inventar nada tão completo.

Eu recebia o livro como quem recebe uma nova porta e a fatia de bolo como quem recebe a confirmação de que o esforço também podia ter sabor.

Talvez tenha sido ali que aprendi que ensinar não é apenas transmitir conhecimento. É olhar para uma criança e reconhecer nela uma possibilidade que ainda ninguém viu.

A professora Graciete viu em mim alguma coisa antes de eu conseguir vê-la.

Viu a inteligência, mas viu também a curiosidade, a imaginação e aquela fome de aprender que não se alimentava apenas de bolo de chocolate.

Quando me dizia para nunca deixar de estudar, não me estava apenas a aconselhar. Estava a oferecer-me uma imagem de futuro.

Anos depois, tornei-me professora e a verdade é que ainda não deixei de estudar.

Talvez uma parte da minha vida de professora tenha nascido nas aulas dadas às bonecas, a outra nos livros, e outra, talvez a mais importante, nasceu nos abraços da professora Graciete.

Porque aquilo que um professor nos dá nem sempre aparece num certificado.

Por vezes, fica na maneira como entramos numa sala. Na forma como olhamos para um aluno que duvida de si. Na atenção que prestamos ao que ele ainda não consegue dizer. Na certeza de que uma palavra de confiança, oferecida no momento certo, pode alterar o rumo de uma vida.

Hoje sei que algumas crianças chegam à escola carregando silêncios que ninguém vê.

Talvez por isso tente reconhecer nelas aquilo que a professora Graciete reconheceu em mim.

Uma possibilidade.

Uma inteligência ainda insegura.

Uma voz à espera de autorização para existir.

Também ofereço livros e fatias de bolo de chocolate sempre que alguém tem a melhor nota, mas também ofereço abraços e reconhecimento. No fundo tento oferecer aquilo que recebi: a confiança, o reconhecimento, a certeza de que estudar pode abrir portas onde antes havia apenas paredes.

Continuo a ler e continuo a escrever.

Continuo a amar os números e as palavras. Continuo a acreditar que a Matemática organiza uma parte do mundo e que a literatura salva a parte que não aceita ser organizada.

E continuo a pensar na professora Graciete.

Talvez ela nunca tenha sabido tudo o que deixou em mim. Os professores raramente assistem à colheita completa daquilo que semeiam.

Mas, sempre que entro na minha sala para ensinar matemática, levo comigo alguma coisa dela.

Um abraço antigo. Um livro. Uma frase de confiança.

E, algures na mão, uma fatia de bolo de chocolate.

PB

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