farmar aura

Hoje recebi um elogio.

Não foi um daqueles elogios tradicionais, fáceis de interpretar, como “a professora explica muito bem”, “gosto das suas aulas” ou “obrigada por não ter mandado TPC”.

Foi uma coisa muito mais séria.

Uma aluna olhou para mim e disse:

— A professora é bué descolada e sabe farmar aura.

Confesso: fiquei orgulhosa.

Não percebi imediatamente todos os detalhes técnicos da distinção, mas reconheci o tom. Era bom. Muito bom, até. E há momentos em que um adulto precisa de ter inteligência emocional suficiente para não estragar um elogio juvenil com perguntas.

Por isso, não disse nada. Limitei-me a sorrir e a fazer um pequeno aceno de cabeça, como quem farma aura desde 1970 e troca o excedente nos mercados internacionais.

Por dentro, porém, estava em festa.

Anos de estudo. Duas licenciaturas. Um mestrado. Um doutoramento em curso. Formações, conferências, artigos, investigações, incontáveis horas a preparar aulas e a corrigir trabalhos. Tudo isto para chegar à verdadeira consagração profissional:

bué descolada e certificada na arte intensiva de farmar aura.

Não sei quantos pontos ganhei. Não tive coragem de perguntar. Tive medo de que a pergunta me fizesse perder imediatamente metade.

A aura, pelo que percebo, é uma espécie de prestígio invisível que os jovens atribuem às pessoas. Não consta do currículo, não entra na avaliação de desempenho e, infelizmente, ainda não conta para a progressão na carreira. Mas devia.

Imagino a grelha:

  • Publicações científicas: 10 pontos.
  • Participação em congressos: 5 pontos.
  • Projetos de investigação: 8 pontos.
  • Conseguir usar uma expressão juvenil sem provocar vergonha alheia: 700 pontos de aura.

O problema é que esta fortuna pode desaparecer a qualquer momento. A economia da aura é extremamente instável.

Um dia somos descolados. No dia seguinte, dizemos “olá, malta jovem!” ao entrar na sala e entramos em falência.

Basta usar um emoji errado, tentar reproduzir uma dança do TikTok ou dizer “isso é bué cringe” com entusiasmo excessivo para vermos anos de reputação destruídos diante dos nossos olhos.

Por isso, decidi não abusar.

Não vou chegar amanhã à aula de óculos escuros e anunciar:

— Bom dia, pessoal. Hoje estamos todos slay. Abram o manual na página 42, no cap.

A tentação existe, evidentemente. Mas desconfio de que o verdadeiro segredo para farmar aura é não parecer que estamos desesperadamente a tentar farmá-la.

É como o amor dos gatos: aproxima-se quando fingimos que não queremos nada com ele.

Talvez ser descolada seja simplesmente não me ter esquecido de como era estar do outro lado da sala.

Lembrar-me de que, antes de serem alunos, são pessoas. Pessoas com dias bons, dias maus, medos que disfarçam, sonhos que ainda não sabem explicar e tragédias imensas que, vistas pelos adultos, parecem pequenas, mas que ocupam naquele momento o tamanho inteiro do mundo.

Talvez se farme aura quando se explica outra vez sem fazer alguém sentir-se incapaz. Quando se percebe um silêncio. Quando se ri com eles, sem se rir deles. Quando se permite que uma aula tenha rigor sem precisar de ter solenidade. Quando se consegue falar de Matemática, da vida, de memes, de exames e de desgostos amorosos — às vezes durante os mesmos cinquenta minutos.

Os jovens percebem muito mais do que dizem.

Percebem quem gosta verdadeiramente deles. Percebem quem os escuta apenas para responder e quem os escuta para compreender. Percebem quem entra numa sala para exercer autoridade e quem entra para construir alguma coisa com eles.

Talvez a aura venha daí.

Sei que amanhã tudo pode mudar. Posso marcar um TPC difícil, pedir silêncio, mandar guardar os telemóveis ou cometer o gravíssimo erro de dizer:

— Esta matéria é bué fácil.

E lá se vão os meus pontos de aura, um por um, diante de um par de olhos indignados.

A aura docente é uma cultura sazonal. Exige paciência, resistência e uma grande capacidade para sobreviver às pragas. Sobretudo àquela frase devastadora:

— Mas eu não sei fazer isto.

Mesmo quando explicámos. Três vezes. Com exemplos. Com cores. E provavelmente com uma pequena representação teatral.

Ainda assim, hoje não quero pensar nos riscos do mercado.

Hoje quero apenas desfrutar deste momento.

Uma aluna disse-me que sou bué descolada e que sei farmar aura.

Já recebi elogios muito bonitos ao longo da vida. Alguns comoveram-me, outros deram-me confiança, outros ainda ficaram guardados naquele lugar onde conservamos as palavras que nos ajudam nos dias mais difíceis.

Mas este tem uma categoria própria.

Porque ser considerada descolada por uma adolescente é uma distinção rara. Quase tão rara como um adolescente admitir que os pais tinham razão. Não se pede, não se compra e não se obtém por equivalência académica.

É atribuída sem aviso e pode ser retirada sem direito a recurso.

Por isso, hoje caminho um pouco mais direita. Talvez até com uma discreta energia de personagem principal.

Não contem a ninguém, mas estou a pensar acrescentar ao currículo:

Competências adicionais: comunicação intergeracional, gestão de ambientes educativos e farming avançado de aura.

Sem exagerar, claro está, porque afinal, também não quero parecer delulu.

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