Dia1
Saímos de Fátima de manhã cedo, levando na bagageira roupa suficiente para alguns dias, água, mapas, medicamentos para todas as doenças conhecidas e algumas ainda por descobrir, pequenas expectativas e aquele cansaço acumulado que não cabe em nenhuma mala.
Somos três no carro: o nosso filho e nós.
Mas, na verdade, fomos sempre quatro.
A nossa filha mais nova não vem connosco. Está na Roménia, a fazer o seu estágio em neurocirurgia, a viver uma aventura que é só dela, longe de casa e dos nossos olhos atentos. Ainda assim, ocupou um lugar invisível entre nós. Há ausências que não deixam lugares vazios; instalam-se em todos os lugares ao mesmo tempo.
O pai e o filho vão alternando na condução. Existe entre eles a cumplicidade própria de quem partilha a estrada, o volante e aquela linguagem discreta que tantas vezes se estabelece entre pais e filhos. Comentam o caminho, as ultrapassagens, os carros e a direção a seguir. Um conduz, o outro observa, aconselha ou brinca, e eu vou vendo os dois com a ternura silenciosa de quem percebe que o tempo passou sem pedir licença.
Antes, era o pai quem levava o filho.
Agora, também é o filho quem nos leva a nós.
Talvez os filhos cresçam assim: um dia damos-lhes a mão para atravessarem a rua e, muito tempo depois, entregamos-lhes o volante e fingimos uma tranquilidade absoluta enquanto verificamos discretamente a velocidade.
Seguimos em direção a Espanha sem demasiada pressa. Durante o resto do ano vivemos sujeitos aos horários, aos compromissos, às listas de tarefas e à sensação permanente de estarmos atrasados para alguma coisa. Nas férias, o relógio perde autoridade. Continua a marcar as horas, porque é teimoso, mas já ninguém lhe obedece com o mesmo medo.
Podemos parar onde quisermos, demorar-nos diante de uma paisagem, mudar de ideias, beber um café sem consultar o tempo ou escolher uma estrada apenas porque parece mais bonita. Não há urgência. E talvez a liberdade seja precisamente isto: podermos escolher o ritmo dos nossos próprios passos, mesmo quando viajamos de carro.
De vez em quando, falamos da nossa filha. Perguntamo-nos o que estará a fazer, se dormiu bem, se está a gostar do estágio, se se sente feliz na Roménia. Queremos saber se comeu, se tem companhia, se está a adaptar-se e, sobretudo, se o mundo a trata com delicadeza.
Os pais fazem perguntas que parecem pequenas, mas transportam o tamanho inteiro do amor.
Falamos com ela durante o dia. A voz atravessa os quilómetros e entra no carro como se se sentasse connosco. Conta-nos um pouco dos seus dias, das novidades, do estágio e da vida que está a construir tão longe de casa. Há tecnologias que servem para aproximar continentes, embora o amor continue a ser a verdadeira rede sem fios: tem uma cobertura impressionante, mas por vezes sofre de excesso de chamadas por parte das mães.
Depois de desligarmos, continuamos a falar dela. Recordamos coisas que diria, lugares de que gostaria e situações em que faria determinada piada. É como se, pronunciando o seu nome várias vezes ao longo do dia, conseguíssemos diminuir a distância.
Talvez seja isso que fazemos quando alguém nos faz falta: reconstruímos essa pessoa com palavras, para que a ausência não ocupe tanto espaço.
Atravessamos a fronteira quase sem perceber. As fronteiras são invenções curiosas. Nos mapas aparecem como linhas firmes, muito convencidas de que sabem onde termina um país e começa outro. A paisagem, porém, não lhes obedece. As árvores não apresentam documentos, os pássaros desconhecem alfândegas e o céu recusa-se a ter nacionalidade.
Do outro lado, a estrada continua a ser estrada. Ainda assim, sentimos aquele pequeno entusiasmo de entrar noutro país, de ler placas escritas numa língua diferente, embora próxima, e de perceber que a rotina ficou alguns quilómetros para trás.
Ciudad Rodrigo recebe-nos com as suas muralhas, a pedra antiga e a serenidade própria dos lugares que sobreviveram a muitos séculos. Caminhamos pelas ruas estreitas, observamos a catedral, as praças, os edifícios antigos e as casas que parecem guardar histórias dentro das paredes. Há cidades que se visitam e outras que se escutam. Ciudad Rodrigo pertence à segunda espécie.
As muralhas rodeiam a cidade como braços antigos, protegendo não apenas os edifícios, mas também tudo aquilo que ali aconteceu e já ninguém sabe contar. Gosto de cidades antigas porque colocam os nossos problemas na escala certa. Diante de uma muralha que atravessou guerras, invernos e séculos, uma preocupação de segunda-feira perde alguma importância.
Talvez também se viaje por isso: para mudar a perspetiva e perceber que existe sempre uma paisagem maior do que aquilo que nos inquieta.
Passeamos sem pressa, conversamos, rimos e tiramos fotografias. Há entre nós a intimidade que se constrói ao longo de muitos anos: frases que não precisam de ser terminadas, piadas que apenas nós os três compreendemos e silêncios confortáveis que não exigem explicação. A cumplicidade talvez seja isso: podermos estar em silêncio ao lado de alguém sem sentirmos que falta conversa.
Mesmo sendo três, a nossa filha continua presente. Ao vermos uma loja, perguntamo-nos se gostaria de alguma coisa. Diante de uma paisagem, imaginamos o comentário que faria. Quando nos sentamos, existe por instantes a memória de uma cadeira que não está ocupada.
Não é uma tristeza pesada. É uma saudade doce, dessas que nascem quando sabemos que alguém está longe porque está a crescer.
Os filhos têm de partir para construírem o seu próprio mundo, mas deixam sempre uma parte deles em casa. E nós, pais, aprendemos a viver com essa estranha contradição: queremos que voem e sentimos a falta deles assim que levantam as asas. Somos fabricantes de asas com uma secreta preferência por ninhos.
Deixamos Ciudad Rodrigo e seguimos para Salamanca. O pai e o filho voltam a alternar na condução e a estrada estende-se diante de nós como uma frase cujo final ainda desconhecemos. O horizonte parece recuar sempre um pouco, talvez porque a função dos horizontes seja convencer-nos a continuar.
Dentro do carro, falamos de tudo e de nada. As melhores conversas de família começam muitas vezes numa placa da estrada, passam por uma memória antiga, desviam-se para uma história absurda e terminam numa gargalhada cuja origem já ninguém recorda.
Ao aproximarmo-nos de Salamanca, a luz começa a mudar. A cidade parece feita de uma pedra que aprendeu a guardar o sol. As fachadas douradas devolvem a luz como se quisessem impedir o dia de terminar.
Chegamos à Plaza Mayor e deixamo-nos ficar. As praças são as salas de estar das cidades. As pessoas caminham, conversam, bebem, observam e esperam. As crianças correm, as famílias encontram-se, os turistas levantam os olhos e, durante alguns instantes, todos parecem pertencer ao mesmo lugar.
Salamanca carrega o peso da História, mas não parece cansada. A universidade, as catedrais, a Casa das Conchas, as ruas antigas e a pedra dourada convivem com estudantes, famílias e vozes vindas de muitos lugares. As cidades antigas conhecem um segredo que os seres humanos demoram a aprender: é possível envelhecer sem deixar de estar vivo.
Caminhamos pelas ruas e continuamos a levar a nossa filha connosco. Enviamos fotografias, fazemos comentários e guardamos histórias para lhe contar. Ela viaja nas nossas perguntas e naquilo que imaginamos que diria se estivesse ao nosso lado.
Ao fim do dia, chegamos ao lugar onde vamos dormir. Retiramos as malas do carro, descansamos os pés e voltamos a falar com ela. Queremos ouvir a sua voz, saber como correu o dia e perceber, pelas palavras e pelos silêncios, se está bem.
Não existe descanso completo para um pai ou uma mãe enquanto não sabem que os filhos estão seguros. Podemos estar num hotel confortável, diante de uma cidade belíssima, mas uma parte de nós continua em vigilância, algures entre a Roménia e o coração.
A nossa filha está longe, mas fez parte deste primeiro dia. A sua ausência é uma espécie de fio invisível que liga Salamanca à Roménia. E penso que uma família não é um conjunto de pessoas que estão sempre no mesmo lugar. Uma família é um conjunto de pessoas que continuam ligadas, mesmo quando o mundo as distribui por mapas diferentes.
Saímos de Fátima, atravessamos a fronteira, caminhamos pelas ruas antigas de Ciudad Rodrigo e chegamos a Salamanca. O pai e o filho dividem a estrada e nós os três juntos dividimos conversas, risos, silêncios e paisagens.
Talvez a felicidade seja feita exatamente destas coisas pequenas: uma estrada aberta, o pai e o filho a conduzirem, a mãe a guardar tudo dentro dos olhos, três pessoas dentro de um carro e uma quarta dentro de todos os pensamentos.
Há viagens que se medem em quilómetros.
Outras medem-se pelas pessoas que levamos connosco, mesmo quando ficaram do outro lado da Europa.
Hoje éramos três no carro.
Mas, durante toda a viagem, fomos quatro.
Boa noite.
Até amanhã.





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