Encolher para caber

Em criança diziam que eu falava muito. Diziam que nunca me calava, que tinha bichos carpinteiros e que era irrequieta.

Durante muito tempo imaginei os bichos carpinteiros como pequenos animais a correrem dentro de mim. Uns viviam nas pernas, outros nas mãos e os mais indisciplinados instalavam-se na cabeça.

Talvez fossem apenas pensamentos com pernas, incapazes de ficar sentados.

Eu fazia perguntas. Inventava histórias. Falava com as bonecas, com as pessoas e, provavelmente, com o próprio ar quando mais ninguém estava disponível.

Não era apenas uma criança faladora. Era uma criança cheia e intensa: Cheia de palavras, de ideias, de medos, de mundos e de uma energia que ainda não tinha aprendido a pedir licença, e intensa no que sentia e no modo como amava.

Mas, como todas as crianças, eu queria ser a menina boa de quem todos gostavam e as meninas boazinhas não incomodavam, não falavam demasiado e não faziam muitas perguntas. Sentavam-se direitas, esperavam pela sua vez e sabiam guardar dentro delas aquilo que não cabia na paciência dos adultos.

Por isso, comecei cedo a aprender a passar despercebida.

Primeiro baixei a voz.

Depois guardei algumas perguntas.

Mais tarde, recolhi os braços, as pernas e até os pensamentos para ocupar menos espaço.

Uma pessoa pode encolher-se sem mudar de tamanho, sabem? Basta começar a pedir desculpa antes de falar. Basta observar o rosto dos outros enquanto conta uma história e interromper-se ao primeiro sinal de cansaço. Basta aprender a engolir o entusiasmo antes que alguém o confunda com excesso de barulho.

Com o tempo e a prática fui ficando especialista nisso.

Aprendi a dobrar-me como uma folha de papel para caber nos lugares que me davam.

Convenci-me de que o silêncio era uma forma de delicadeza e de que, para não incomodar, uma pessoa devia tornar-se pequena.

Passei muitos anos a tentar não ser demasiado: demasiado faladora, demasiado inquieta, demasiado sensível, demasiado intensa e demasiado viva.

O problema é que ninguém consegue cortar apenas aquilo que sobra.

Quando uma criança diminui o barulho, pode diminuir também a alegria. Quando guarda as perguntas, pode começar a desconfiar da própria curiosidade. Quando aprende a esconder o entusiasmo, talvez acabe por esconder partes inteiras de si.

Com o tempo e o silêncio comecei a desenvolver um medo que não sabia explicar.

Talvez tivesse medo de perder as pessoas que mais amava. Talvez temesse a solidão em que crescia. Talvez receasse aquilo que ainda não tinha acontecido ou a pessoa em que me podia tornar sem querer.

Era um medo sem rosto e, por isso, parecia ter todos os rostos.

Como não sabia dar-lhe um nome, guardava-o nas histórias. Nos livros, os monstros tinham forma e as florestas tinham uma saída. Na vida verdadeira, nem sempre sabemos de onde vem a sombra, por isso fui aprendendo também a esconder o medo com a mesma habilidade com que escondia as palavras.

Havia, no entanto, alguns lugares onde eu não precisava de me encolher.

Com as minhas amigas, podia rir e falar sem vigiar cada gesto.

Com a minha professora Graciete, eu podia ser curiosa, inquieta e inteira.

Com os meus avós maternos, podia encher a casa.

Para eles, eu nunca fazia barulho.

— És vida e alegria, dizia a professora Graciete.

— És uma casa cheia, dizia a minha avó.

— És tão divertida, diziam as minhas amigas.

Talvez o amor seja isto: alguém olhar para aquilo que os outros consideram excesso e reconhecer abundância.

E talvez uma parte importante da nossa vida dependa das pessoas que nos traduzem corretamente.

Há quem olhe para uma criança intensa e veja incómodo.

Há quem olhe para a mesma criança e veja vida.

Há quem ouça barulho e há quem reconheça uma casa cheia.

Durante muitos anos levei comigo a criança que se encolheu. Ela continuou a medir as palavras, a observar os rostos e a pedir desculpa por ocupar espaço.

Mesmo depois de adulta, havia momentos em que voltava a dobrar-me. Não fisicamente, mas por dentro.

Encolhia a opinião para evitar conflitos. Diminuía uma conquista para não parecer vaidosa. Continha a alegria para não ser excessiva. Guardava a tristeza para não pesar na vida dos outros.

A criança que aprende a desaparecer torna-se muitas vezes uma adulta competente na arte de parecer sempre bem.

Mas a verdade é que aquilo que escondemos não deixa simplesmente de existir. Fica ali à espera e à espreita.

As palavras esperam. As perguntas esperam. A raiva, a tristeza, a alegria e o entusiasmo esperam. Por vezes, podem passar anos sentados numa sala interior, esquecidos, mas um dia acordamos e percebermos que nunca deixaram de estar lá.

Hoje tento regressar a essa criança.

Não para lhe dizer que os adultos estavam errados ou para transformar a infância num tribunal, mas para lhe pegar na mão e dizer que não precisa mais de se tornar tão pequena.

Que ser intensa não era um defeito.

Que a inquietação não era falta de valor.

Que a sensibilidade não era uma fraqueza e que os pensamentos com pernas talvez só precisassem de espaço para correr.

Quero olhá-la nos olhos e dizer-lhe que ela não era demasiado intensa, que talvez alguns lugares é que fossem demasiado estreitos para o que ela sentia.

Ainda hoje continuo a aprender a ocupar o meu lugar sem pedir desculpa. Nem sempre consigo. Há hábitos que crescem connosco e se agarram às paredes interiores do nosso coração como heras antigas.

Mas agora reconheço-os. Sei que não era irrequieta, nem tinha bichos carpinteiros, nem tinha nenhum defeito de fabrico, eu era apenas e tão somente uma criança alegre e feliz.

Quando começo a baixar demasiado a minha voz ou quando sinto que devo esconder uma alegria, procuro de novo aquela menina e dou-lhe a mão.

Quando peço desculpa por sentir, falar ou existir intensamente, sento-me ao lado dela e repito-lhe aquilo que disseram as pessoas que verdadeiramente a souberam amar: Não precisas de te encolher para caber na dimensão imposta pelos outros. Está na altura de aprenderes a ver o teu verdadeiro tamanho.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Quando a Inveja Fala Mais Alto: Ética, Educação e o Silêncio do Mérito

Carta aberta aos meus alunos

10 anos depois