Duas semanas já lá vão
Disseram-me um dia que o tempo é uma convenção dos homens, uma invenção geométrica para dar ordem ao caos. Agora sei que é mentira. O tempo é um bicho elástico, feito de uma matéria moldável que estica ou encolhe conforme a distância de quem amamos.
As duas semanas passaram. Duas semanas cabem em catorze páginas de um diário, em duas folhas de calendário arrancadas sem pressa. Dito assim, parece matemática exata. Mas a verdade é que já passou metade do tempo e a outra metade pesa na casa como se o silêncio tivesse decidido mudar-se para as divisões que ela deixou vazias.
A saudade, agora, já não é aquela vertigem antecipada que escrevi antes de ela partir. É uma presença física. Sinto falta da minha filha, mas também da amiga que partilha os dias comigo, da companheira de todas as horas que desarma a solenidade da vida com um riso inesperado. Sinto falta do eco dos passos dela, das palavras soltas na cozinha, da cumplicidade que nos dispensa de dar explicações ao mundo.
No entanto, há uma disciplina secreta no amor de uma mãe.
Quando o ecrã do telefone se ilumina e a voz dela me chega da Roménia, o meu coração faz uma ginástica invisível. Ela fala-me de hospitais, de neurocirurgia, de ruas que aprendeu a habitar e de um entusiasmo que lhe transborda transatlântico na voz. Está feliz. Está a viver tanto, a acumular tanto mundo dentro de si, que eu recolho a minha própria falta para os cantos mais escuros da boca. Não lhe falo da saudade imensa que me morde os dias. Não lhe digo que a casa está demasiado silenciosa. Silencio o meu vazio para não beliscar, nem por um segundo, a pureza da sua alegria. Engolir a nossa carência é, talvez, o ato mais radical de generosidade que uma mãe pode exercer.
Ser mãe é aprender esta estranha engenharia: a de criar seres independentes. Passamos a vida a proteger o voo, a testar a resistência das asas, esquecendo-nos, por vezes, de que a função principal da asa é a partida. Dar asas não é apenas um exercício de desapego; é a nossa missão mais bonita e violenta. É deixá-los ir, livres como o vento, com a confiança absoluta de que o mundo é deles, mas sabendo — com uma certeza granítica — que eles têm para onde voltar. Sempre. O nosso amor não é uma gaiola; é um porto de abrigo com a luz sempre acesa na janela.
Metade do calendário já foi cumprido. A minha azulinha continua a descobrir os caminhos misteriosos do cérebro e do mundo. E eu, por cá, continuo a aprender a misteriosa geografia de um coração que, mesmo estando longe, consegue amar em absoluto silêncio para deixar o outro voar.
PB
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