Dia 6 - A última página da viagem
Acordamos no Cerca Design House com a sensação confortável de não termos de entrar imediatamente no carro.
Depois de vários dias a mudar de quarto, abrir malas, fechar malas, consultar mapas e atravessar cidades, o corpo parece receber com gratidão a notícia de que a manhã não tem muralhas para subir nem quilómetros urgentes para cumprir.
Há dias de viagem que começam com uma estrada.
Este começa com uma piscina.
O Cerca Design House tem aquela tranquilidade dos lugares que parecem falar mais baixo para não perturbar o descanso. A antiga casa de pedra, o branco das paredes, o jardim e a Serra da Gardunha ao fundo criam uma espécie de intervalo entre a viagem que fizemos e o regresso que ainda não começou.
Tomamos o pequeno-almoço sem pressa. Ao longo do ano, o pequeno-almoço é muitas vezes uma operação técnica destinada a impedir que saiamos de casa em jejum. Nas férias recupera a dignidade de refeição: sentamo-nos, conversamos, repetimos o café e aceitamos que não existe qualquer mérito especial em terminar depressa.
Depois, instalamo-nos junto à piscina. A água está quieta, o sol começa a aquecer o dia e, pela primeira vez desde que saímos de Fátima, não precisamos de estar noutro lugar dentro de meia hora. O pai e o filho entregam-se ao descanso com diferentes métodos. Um encontra a posição ideal para não fazer absolutamente nada; o outro alterna entre a água, o telemóvel e aquela inquietação própria de quem consegue descansar sem parecer inteiramente parado.
Eu olho à minha volta e penso que também eu preciso aprender a não fazer nada.
Vivemos numa época que transforma o descanso numa atividade suspeita. Se paramos, sentimos que deveríamos estar a adiantar alguma coisa. Se nos sentamos, lembramo-nos de uma tarefa. Se fechamos os olhos, a cabeça abre uma reunião extraordinária com todos os assuntos pendentes.
Descansar exige uma coragem particular: a coragem de acreditar que o mundo continua a girar sem a nossa supervisão.
Entramos na piscina, ficamos ao sol, conversamos e deixamos que a manhã avance sem a empurrarmos. Depois de tantos dias a guardar cidades dentro de nós, sabe bem não acrescentar nada durante algumas horas.
Talvez as viagens precisem destes espaços vazios. Uma música não é feita apenas de notas; também precisa de silêncio. Um texto não é apenas palavras; precisa de margens. E umas férias não deveriam ser uma sucessão ininterrupta de monumentos, refeições, fotografias e horários.
Também precisamos de tempo para que os lugares assentem dentro de nós.
Enquanto estou junto à piscina, regressam-me algumas imagens dos dias anteriores: Salamanca a guardar o sol nas pedras, o Douro a passar por Zamora, o castelo de Puebla de Sanabria, a água quieta do lago, Rio de Onor dividida apenas pelos mapas, as muralhas de Bragança, as máscaras de Podence, o Tua, as gravuras iluminadas na noite de Penascosa, as aves a planar sobre o Penedo Durão e a estrela de Almeida desenhada sobre a terra.
A memória não arquiva as viagens por ordem cronológica. Mistura lugares, vozes, cheiros e pequenos acontecimentos. Uma paisagem aparece ao lado de uma gargalhada. Uma igreja fica ligada ao sabor de um café. Uma estrada conserva a música que ouvimos quando a atravessámos.
Talvez seja por isso que, muitos anos depois, já não saibamos dizer exatamente em que dia visitámos determinado lugar, mas ainda recordemos como nos sentimos quando lá estivemos.
O pai e o filho continuam a brincar, a conversar e a discordar sobre assuntos essenciais, como a temperatura da água ou a melhor forma de organizar a bagageira. Observo-os e penso que uma viagem em família não é feita apenas dos lugares por onde passamos. É feita da forma como passamos por eles uns com os outros.
Ao longo destes dias, partilham o volante, as decisões, as estradas e as piadas. Eu vou guardando as histórias, embora desconfie de que também me guardam a mim sem que eu perceba.
As famílias são arquivos imperfeitos. Cada pessoa conserva uma versão diferente do mesmo momento. Um lembra-se da paisagem, outro da refeição, outro da discussão sobre o caminho. E, quando juntamos todas as versões, talvez consigamos aproximar-nos daquilo que verdadeiramente aconteceu.
Ficamos na piscina até a hora de saída começar a exercer a sua autoridade.
Regressamos ao quarto, tomamos banho e enfrentamos pela última vez as malas. Fechamos tudo com a ajuda de alguma pressão física e de uma fé pouco fundamentada nos fechos.
Fazemos o check-out e seguimos para o Fundão.
A cidade está profundamente ligada à Serra da Gardunha, à cereja e a uma paisagem que aprendeu a transformar a dureza do terreno em abundância. No Fundão, a cereja não é apenas um fruto. É quase uma personagem local, com cartazes, festas, doces e uma presença tão afirmativa que começamos a sentir que deveríamos pedir autorização antes de comer uma.
Caminhamos pelo centro, observamos as ruas, as praças e os edifícios. Passamos pela Igreja Matriz e deixamo-nos conduzir sem demasiada preocupação pelo roteiro. O Fundão não exige a solenidade de uma grande cidade histórica. Mostra-se aos poucos, numa fachada, numa esplanada, num jardim ou numa conversa que escutamos de passagem.
Há lugares que impressionam imediatamente e outros que precisam de proximidade. Não nos conquistam com um grande monumento, mas com a sensação de que seria possível viver ali.
Fazemos uma pausa para comer e recuperamos forças. Depois de vários dias de gastronomia regional, o nosso corpo começa a suspeitar de que todas as terras portuguesas têm como objetivo alimentar os visitantes até estes perderem a capacidade de abandonar a mesa e de nos acrescentar alguns quilos a mais.
Falamos do que mais gostámos, comparamos lugares e descobrimos que cada um construiu uma viagem ligeiramente diferente. O pai escolhe umas paisagens, o filho recorda outros momentos e eu hesito, porque escolher um lugar preferido me parece uma injustiça para com todos os restantes.
As viagens não precisam de vencedores. Há cidades que ficam pela beleza, outras pela surpresa e algumas apenas por aquilo que aconteceu enquanto lá estávamos.
Deixamos o Fundão e seguimos para Castelo Novo. A aldeia fica perto, abrigada na encosta da Serra da Gardunha, e surge entre o granito e o verde como se tivesse crescido diretamente da montanha.
Chegar a Castelo Novo é entrar numa paisagem onde a pedra não serve apenas para construir. Faz parte da identidade do lugar. Está nas casas, nas ruas, nas fontes, nos muros e nas ruínas do castelo. Tudo parece ter sido levantado com aquilo que a serra ofereceu.
Subimos pelas ruas antigas, observando as casas de granito, as varandas, as flores e os pequenos pormenores que dão vida à aldeia. O caminho inclina-se e obriga-nos a abrandar, embora as pernas já tivessem chegado sozinhas a essa conclusão.
A antiga Casa da Câmara, o pelourinho e o Chafariz da Bica formam um conjunto que parece concentrar, num pequeno espaço, o poder, a justiça, a água e a vida comunitária. Durante séculos, as aldeias organizam-se em torno destas necessidades simples: governar, proteger, encontrar água e criar lugares onde as pessoas se possam reconhecer umas às outras.
Talvez uma comunidade comece exatamente aí: quando deixamos de dizer apenas «a minha casa» e começamos a dizer «a nossa terra».
Continuamos até às ruínas do castelo. As pedras sobreviventes desenham no alto aquilo que o tempo decidiu conservar. Faltam paredes, tetos, vozes e muitas histórias. Ainda assim, o lugar não parece vazio.
As ruínas possuem uma forma particular de presença. Mostram-nos aquilo que desapareceu e, ao mesmo tempo, aquilo que conseguiu ficar.
Talvez seja por isso que nos emocionam. Todos somos feitos dessa mistura: partes intactas, lugares reconstruídos e zonas onde apenas permanecem os alicerces.
Lá de cima, olhamos a aldeia e a paisagem da Gardunha. Depois do Penedo Durão e das muralhas de Almeida, esta é uma altura mais íntima. Não vemos um território imenso, mas uma aldeia protegida pela serra, telhados, caminhos e árvores.
Os lugares altos continuam a oferecer-nos perspetiva, embora cada um o faça de maneira diferente. Uns mostram-nos a vastidão do mundo; outros lembram-nos a importância de um pequeno lugar.
O pai e o filho caminham alguns passos à frente. Voltam a comentar a construção, a vista e o caminho. Eu observo-os uma vez mais e percebo que, ao longo desta viagem, fotografei muitas paisagens, mas são as imagens dos dois juntos que guardo com maior cuidado.
Os monumentos existem para todos. Certos instantes pertencem apenas a nós.
Passamos pela lagariça escavada na rocha e imaginamos as mãos que ali trabalham, os frutos esmagados, as colheitas e as rotinas repetidas ao longo de gerações. A História não é feita apenas por reis, guerras e fortalezas. É feita por pessoas que cultivam, cozinham, constroem, criam filhos e repetem gestos quotidianos sem saberem que, um dia, alguém tentará compreender como viveram.
Talvez sejam os gestos pequenos que sustentam o mundo enquanto os grandes acontecimentos ocupam os livros.
Continuamos pelas ruas sem pressa. Castelo Novo parece um bom lugar para terminar a viagem porque reúne muitas das coisas que fomos encontrando: pedra, memória, resistência, silêncio, paisagem e a sensação de que o tempo não apaga tudo da mesma maneira.
Antes de regressarmos ao carro, fazemos uma última pausa. Não é ainda o fim das férias, mas é o momento em que a viagem começa a transformar-se em regresso.
Há uma diferença entre partir e voltar. Quando partimos, o caminho está cheio de possibilidades. Quando voltamos, está cheio de memórias.
Entramos no carro e seguimos em direção a Fátima. O pai e o filho voltam a partilhar a condução pela última vez nesta viagem. A bagageira leva agora a mesma roupa, um pouco mais amarrotada, muitas lembranças, produtos regionais e uma quantidade souvenires cuja origem, neste moomento, ninguém se sente capaz de explicar.
Levamos também mapas dobrados de maneira incorreta, fotografias em excesso e histórias que ainda não sabemos contar inteiramente.
A estrada de regresso tem uma melancolia própria. Reconhecemos que a viagem está a acabar, mas também sentimos aquela vontade discreta de voltar à nossa cama, à nossa casa e às rotinas das quais, há poucos dias, precisávamos tanto de fugir.
O ser humano é uma criatura difícil de satisfazer: parte porque precisa de distância e regressa porque sente falta daquilo que deixou.
Falamos brevemente com a nossa filha. Continua na Roménia, bem e ocupada com o estágio. Quando planeei estas férias, pensei que a primeira semana sem ela seria a mais difícil e que as estradas ajudariam o tempo a passar.
Ajudaram.
Não porque a saudade tenha desaparecido, mas porque ganhou paisagens. Levámo-la por cidades, lagos, muralhas, rios e aldeias. E agora, quando regressamos, falta menos uma semana para ela voltar.
É esta a estranha matemática das mães: subtrair dias para suportar a distância e somar histórias para preencher o intervalo.
Ao aproximarmo-nos de casa, percebo que uma viagem não termina quando chegamos. Continua nas fotografias que escolhemos, nas histórias que repetimos, nos lugares que recomendamos e na forma como, durante algum tempo, olhamos para a vida com os olhos um pouco mais abertos.
Saímos de Fátima três pessoas dentro de um carro, com um roteiro cuidadosamente organizado e a intenção de ocupar os dias.
Regressamos com menos uma semana de espera, mais algumas rugas de riso e a certeza de que ainda gostamos de viajar juntos.
Talvez essa seja a melhor lembrança que poderíamos trazer.
Não um objeto, uma fotografia perfeita ou um lugar assinalado no mapa.
Apenas a memória de termos estado juntos, sem pressa, enquanto o mundo passava devagar pelas janelas.
A viagem termina.
As histórias, felizmente, ainda agora começam... isto porque ainda é verão e ainda há muito para viver.
Boa noite.






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