Dia 4 - As coisas que deixamos gravadas

Acordamos em Bragança com mais um dia inteiro diante de nós e a sensação de que as férias já adquiriram uma vida própria. Ao quarto dia, as malas deixam de ser verdadeiramente desfeitas. Abrem-se apenas o suficiente para encontrarmos aquilo de que precisamos e voltam a fechar-se com a desarrumação resignada de quem sabe que, dentro de poucas horas, estará novamente noutro lugar.

Talvez viajar seja também aprender a viver com menos ordem.

Em casa, cada coisa tem o seu lugar. Na estrada, o lugar das coisas muda todos os dias: os casacos instalam-se no banco de trás, as garrafas de água aos nossos pés, os mapas misturam-se com recibos e as lembranças começam a ocupar o espaço anteriormente reservado à roupa. Ao quarto dia, o carro já não é apenas um meio de transporte. É uma pequena casa desarrumada com rodas.

Partimos em direção a Podence. O pai e o filho voltam a repartir a condução, mas a troca já se faz com naturalidade, quase sem palavras. Um estaciona, o outro assume o volante. Um acompanha o caminho, o outro decide a música, tarefa de enorme responsabilidade e nem sempre desempenhada com o respeito devido pelos restantes passageiros.

Eu observo-os e penso que a cumplicidade se constrói assim: não apenas nos grandes momentos, mas na forma tranquila como duas pessoas aprendem a dividir uma estrada.

Há afetos que não precisam de declarações. Basta-lhes um lugar ao lado.

Chegamos a Podence, terra de caretos, máscaras, chocalhos e antigas desordens. A aldeia parece guardar uma memória indomável. Durante o Entrudo, os caretos percorrem as ruas vestidos de cores fortes, escondidos atrás das máscaras, agitando os chocalhos e perturbando a tranquilidade habitual dos dias.

Talvez todas as sociedades precisem de uma época em que a ordem se disfarce e a loucura receba autorização oficial para sair à rua.

Passamos o ano inteiro a aprender a comportar-nos: falar no momento certo, ocupar o lugar que nos atribuíram, conter o excesso, engolir palavras e vestir a expressão adequada. Depois chega o Carnaval, alguém coloca uma máscara e ganha finalmente coragem para mostrar uma parte de si.

Caminhamos pela aldeia com a calma de quem chega fora da época da festa. Sem a correria dos caretos, Podence parece repousar da sua própria exuberância. As figuras, as cores e as máscaras continuam, porém, por toda a parte, lembrando-nos de que alguns lugares transportam as suas celebrações durante o ano inteiro.

O pai e o filho comentam os trajes, as personagens e a tradição. Tiramos fotografias e surge, inevitavelmente, a questão de saber qual de nós ficaria mais natural escondido atrás de uma máscara. Não chegamos a um consenso, embora existam fortes candidatos.

Deixamos Podence e seguimos para Mirandela. A paisagem transmontana acompanha-nos, feita de curvas, montes e uma luz quente que anuncia a Terra Quente antes mesmo de qualquer placa informativa.

Mirandela recebe-nos junto ao Tua. Há cidades que crescem voltadas para uma praça; outras vivem em permanente conversa com um rio. Mirandela parece pertencer às segundas.

Caminhamos junto à água e deixamos que o passo abrande. Os rios têm uma forma particular de ensinar a passagem do tempo. Nunca param, mas também nunca parecem apressados. Avançam sem ansiedade, aceitam as curvas e contornam aquilo que não conseguem atravessar.

Talvez a serenidade seja isso: continuar em frente sem discutir com todas as pedras.

Ao lado do Tua, o tempo parece correr de outra maneira. As pessoas passeiam, as árvores oferecem sombra e a cidade mantém uma tranquilidade que poucos lugares conseguem preservar. Nós caminhamos juntos, interrompendo o percurso sempre que alguém quer tirar uma fotografia, beber água ou simplesmente ficar a olhar.

Não temos urgência. E começa a parecer-nos estranho termos vivido tantos meses com pressa.

Durante o resto do ano, corremos para chegar a lugares onde, muitas vezes, nem sequer desejamos estar. Nas férias, recuperamos o direito de permanecer onde nos sentimos bem, ainda que não exista uma razão produtiva para isso.

Fazemos uma breve pausa para falar com a nossa filha. Queremos saber como corre o estágio e ela quer saber onde estamos. Mostramos-lhe o rio, trocamos novidades e seguimos viagem tranquilos. Ela vive a sua aventura; nós continuamos a nossa. O fio permanece ligado, sem precisar de ocupar todas as paisagens.

Seguimos para Vila Flor. O nome parece uma promessa de primavera, mesmo quando o verão aquece as ruas e nos transforma em especialistas na localização estratégica de qualquer sombra.

Há terras cujo nome lhes oferece uma espécie de destino. Vila Flor soa a jardim, cor e delicadeza, embora a paisagem à sua volta também seja feita de resistência: oliveiras, vinhas e árvores que aprenderam a crescer sob um sol pouco dado a negociações.

Percorremos o centro com a curiosidade de quem não procura apenas monumentos, mas pequenos sinais de vida: uma janela aberta, uma rua silenciosa, uma esplanada, uma casa antiga que parece guardar mais histórias do que aquelas que alguma vez serão contadas.

As vilas têm uma intimidade que as cidades perderam. Nelas, sentimos que todas as portas conhecem as outras portas e que cada rua se lembra de quem passou por ali.

Fazemos uma pausa e regressamos ao carro. A tarde avança, mas o momento mais esperado do dia ainda está por chegar. À medida que nos aproximamos do Vale do Côa, a paisagem abre-se em montes, vales e horizontes que parecem prolongar-se muito para além da capacidade dos nossos olhos.

O Museu do Côa surge integrado na paisagem, como se tivesse sido pousado sobre a terra com o cuidado de não competir com ela. Entramos e começamos a aproximar-nos de pessoas que viveram há milhares de anos e que, apesar de não terem deixado nomes, rostos ou palavras escritas, encontraram uma forma de nos falar.

Gravaram animais nas rochas: cavalos, auroques, cabras e outras figuras traçadas com a paciência de quem talvez não soubesse que estava a conversar com o futuro.

Há mensagens que chegam instantaneamente e são esquecidas antes do jantar. E há riscos feitos numa pedra que atravessam milénios.

Talvez a permanência não dependa da força com que dizemos alguma coisa, mas da superfície onde escolhemos deixá-la. A pedra, ao contrário das redes sociais, parece ter um excelente sistema de arquivo.

Percorremos o museu tentando imaginar aquelas mãos antigas. Pertencem a pessoas semelhantes a nós, embora separadas por uma distância temporal quase impossível de compreender. Sentem frio, fome e medo. Têm filhos, perdas, alegrias e histórias contadas à luz do fogo. O mundo delas é profundamente diferente do nosso, mas a necessidade de deixar uma marca já existe.

Todos queremos, de alguma forma, deixar a nossa marca no mundo e dizer: eu estive aqui.

Talvez seja por isso que escrevemos, fotografamos, construímos, ensinamos e contamos histórias. Sabemos que o tempo nos levará, mas tentamos deixar alguma coisa que ele não consiga apagar completamente.

O nosso filho caminha connosco entre aquelas memórias remotas. O pai e ele trocam impressões, observam as representações e fazem perguntas. Penso então na linha invisível que une as gerações: um pai e um filho diante dos vestígios de outros pais e outros filhos que, há milhares de anos, olharam estes montes, os mesmos animais e talvez algumas das mesmas estrelas.

Quando a luz começa a desaparecer, preparamo-nos para a visita noturna à Penascosa. Há experiências que mudam apenas porque acontecem à noite. O escuro retira-nos distrações e o mundo encolhe até caber no espaço alcançado por uma lanterna. Tudo o resto fica suspenso e invisível, como se tivesse deixado temporariamente de existir.

Seguimos até às rochas rodeados pelo silêncio do vale. À noite, a paisagem parece mais antiga. A escuridão apaga as estradas, os postes, os edifícios e todas as marcas recentes. Restam a terra, as pedras, o céu e a sensação de estarmos próximos daqueles que aqui viveram muito antes de nós.

Quando a luz incide sobre as gravuras, os animais começam a surgir na rocha. Primeiro aparece uma linha. Depois, o dorso, as patas e a cabeça. Uma figura que esteve sempre ali, escondida, à espera do ângulo certo para voltar a existir.

Penso que as pessoas também são assim. Guardam dentro de si desenhos que nem todos conseguem ver. Por vezes, é preciso tempo, silêncio e a luz certa para que alguém se revele.

Ficamos diante das gravuras com um respeito quase religioso, não porque saibamos exatamente o que significam, mas porque estamos perante um gesto humano que conseguiu vencer uma parte da morte.

A pessoa que desenhou aqueles animais desapareceu há milhares de anos. O movimento da sua mão, porém, continua ali.

Talvez a arte seja isso: uma mão que continua a mover-se depois de o corpo ter partido.

O pai e o filho estão lado a lado, iluminados por instantes pelas lanternas. Tenho vontade de guardar também aquela imagem numa rocha. Há momentos que sabemos imediatamente que um dia nos farão falta e, por isso, tentamos fixá-los na memória com mais cuidado.

Penso brevemente que a nossa filha teria gostado de estar ali. Envio-lhe depois uma fotografia, sabendo que não será suficiente. Certas experiências não cabem num ecrã. Teremos de lhe contar o silêncio, o escuro, a luz sobre as pedras e a emoção de olhar para um desenho feito antes de existirem quase todas as palavras que hoje utilizamos. Até porque contar é a maneira que hoje encontramos de repartir aquilo que não conseguimos viver juntos.

Terminada a visita, seguimos para Torre de Moncorvo. A noite envolve a estrada e o cansaço começa a pesar nos olhos. O pai e o filho mantêm a atenção no caminho enquanto eu revejo mentalmente as imagens do dia: as máscaras de Podence, o Tua em Mirandela, as ruas de Vila Flor, o museu sobre o vale e os animais escondidos nas pedras de Penascosa.

É como se tivéssemos atravessado diferentes formas de memória: a de uma tradição que regressa todos os anos, a das cidades e dos rios, a de uma terra moldada por gerações e a mais antiga de todas, riscada na pedra por pessoas cujo nome e vida o tempo levou.

Chegamos a Torre de Moncorvo com o dia quase terminado. Retiramos as malas, procuramos o nosso alojamento e pousamos finalmente o cansaço. As malas, essas, parecem agora ter desenvolvido uma oposição formal a qualquer tentativa de organização. Aceitamos a derrota e limitamo-nos a encontrar os pijamas.

Antes de dormir, trocamos algumas mensagens com a nossa filha e contamos-lhe o essencial. Talvez casa não seja apenas o lugar onde dormimos. Talvez casa sejam também as pessoas a quem sentimos necessidade de contar aquilo que nos aconteceu.

Adormeço, no entanto, com uma ideia simples na cabeça: Há pessoas que gravaram animais nas pedras para desafiar o esquecimento.

Nós gravamos os nossos dias no coração e na vida uns nos outros.

Daqui a muitos anos, talvez já não nos recordemos de todas as estradas, de todos os nomes ou da ordem exata dos lugares. Mas lembraremos a sensação de estarmos juntos diante daquelas rochas, debaixo daquele céu imenso cheio de estrelas.

E talvez seja essa a marca mais resistente e bonita que conseguimos deixar.

Boa noite.

Até amanhã.

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