Até já
Chegou o dia da partida.
O meu pequeno mirtilo vai hoje de viagem.
Durante os últimos dias, a casa viveu naquele estado de emergência que antecede todas as partidas: malas abertas, roupa para lavar, roupa para passar, listas incompletas, compras de última hora e perguntas repetidas muitas vezes, como se a insistência pudesse impedir o esquecimento:
— Levas o carregador?
— E os documentos?
— Tens medicamentos?
— Não te esqueças de…
Uma mãe, perante uma filha que vai viajar, transforma-se numa espécie de central logística com ansiedade incorporada. Quer garantir que na mala cabem roupas para todas as estações, medicamentos para doenças ainda não inventadas e soluções para acontecimentos cuja probabilidade é estatisticamente irrelevante, mas emocionalmente gigantesca.
A mala tinha um limite de peso. A minha preocupação, infelizmente, não.
Depois, de repente, tudo acabou.
A mala fechou. A porta fechou. O carro partiu.
E passámos da azáfama para o silêncio.
As partidas têm esta falta de delicadeza: durante dias fazem muito barulho e, num instante, deixam-nos sozinhos com aquilo que ficou por dizer. A casa parece exatamente a mesma, mas não é. Os móveis continuam no lugar, os copos permanecem no armário e a luz entra pelas mesmas janelas. Ainda assim, há uma ausência nova a ocupar espaço.
Somos agora três em casa.
Nem o Caju nem a Emília cá estão. Ambos partiram também para os seus hotéis de férias, certamente convencidos de que esta família decidiu distribuir os seus membros por diferentes alojamentos. Ficam no colo de quem cuidará deles durante a nossa ausência, com a mesma atenção, o mesmo mimo, mas muito menos regras. Suspeito de que regressarão a casa contrariados e com exigências contratuais.
Talvez o silêncio seja ainda maior por causa disso. Não há patas pelo corredor, pedidos de comida, olhares acusadores nem aquela vigilância discreta de quem acompanha todos os nossos movimentos apenas para perceber se algum deles conduz à cozinha.
A casa ficou subitamente séria.
Eu já tinha pressentido que esta seria a semana mais difícil. A primeira semana sem a minha azulinha. A primeira é sempre aquela em que o coração ainda não aprendeu a nova disposição dos dias. Depois, talvez se habitue. Não à ausência, porque uma mãe nunca se habitua verdadeiramente à ausência de um filho, mas à forma temporária de a transportar.
Por isso, decidi ocupar esta semana com as nossas férias a três.
Não se trata propriamente de fugir das saudades. As saudades são excelentes viajantes: não pagam bilhete, não precisam de mala e conseguem sempre descobrir onde estamos. Trata-se apenas de lhes dar alguma paisagem.
Se estiver distraída com estradas, cidades, castelos, horários, restaurantes e mapas, talvez o tempo passe mais depressa. E, no final das contas, haverá menos uma semana até ao regresso dela.
É uma matemática estranha, esta das mães.
Não contamos os dias que passam. Subtraímos os dias que faltam.
Durante algum tempo, ocupei-me a preparar o roteiro das férias. Investiguei estradas, distâncias, monumentos, hotéis, restaurantes e pratos típicos com uma seriedade que talvez devesse ser reservada a decisões de Estado. Sei onde comer cabrito, onde provar peixe do rio e quais os restaurantes que fecham à quarta-feira. Se nos perdermos, não será por falta de planeamento. Será apenas uma tentativa do universo de me ensinar a lidar com o imprevisto, disciplina em que continuo oficialmente inscrita e sucessivamente reprovada.
Esta viagem ocupou uma parte dos meus dias e outra parte do meu coração.
A restante foi ocupada pelo doutoramento.
Entre artigos, competências digitais, referências bibliográficas, tabelas e decisões metodológicas, mantive a cabeça cheia. Há quem faça meditação para acalmar o coração. Eu organizo bibliografia e construo roteiros com horários ao minuto. Cada pessoa encontra a paz com os instrumentos que tem.
Talvez me tenha concentrado nestas duas coisas para que o coração ficasse mais leve. Como se a cabeça, estando suficientemente ocupada, pudesse dizer-lhe:
— Agora não. Temos trabalho.
Mas o coração não respeita agendas. Tem uma relação difícil com calendários e nenhuma consideração por prazos académicos. Aparece quando quer, instala-se no meio de uma tarefa e lembra-nos aquilo que tentávamos manter cuidadosamente arrumado numa gaveta.
A minha filha mais nova vai passar um mês na Roménia, a fazer um estágio em neurocirurgia. Vai aprender sobre o cérebro humano, essa matéria extraordinária onde vivem a memória, a linguagem, o medo e os sonhos.
Eu ficarei por aqui a estudar um órgão menos rigoroso: o coração de uma mãe.
Não existe exame que o consiga mapear. Não há imagem que mostre com precisão o lugar onde se encontram, ao mesmo tempo, o medo, o orgulho, a saudade e a alegria. Talvez porque certas coisas só possam ser vistas por dentro.
Tenho medo, naturalmente. As mães têm medo até quando os filhos atravessam a rua, quanto mais quando atravessam a Europa. Mas sinto também um orgulho imenso. A minha menina vai conhecer um país novo, outras cidades, outra cultura e novas pessoas. Vai aprender, trabalhar, rir, descobrir e regressar um pouco maior.
É isso que desejamos para os nossos filhos, mesmo quando desejá-lo dói.
Também me sinto privilegiada por ainda ter um filho grande que gosta de estar connosco. Que quer ir de férias com os pais e aprecia a nossa companhia tanto quanto nós apreciamos a dele. Há uma idade em que os filhos deixam de precisar de nos acompanhar. Quando continuam a escolher fazê-lo, a presença deles transforma-se numa forma muito bonita de amor.
Vamos de férias a três.
Não somos os quatro habituais, mas continuamos a ser uma família inteira. As famílias não deixam de estar completas quando alguém viaja. Apenas aprendem, por algum tempo, outra geometria.
Levaremos connosco a falta dela. Aparecerá provavelmente à mesa, no banco vazio do carro, numa paisagem de que ela gostaria ou numa piada que pensaríamos contar-lhe. Mandaremos mensagens, fotografias e recomendações que ela talvez ignore com a independência própria de quem está a viver a sua aventura.
E está tudo bem.
Criamos os filhos para que um dia tenham histórias que não começaram connosco.
Talvez ser mãe seja passar a vida entre dois gestos contrários: apertar e largar. Dar colo e dar espaço. Ensinar o caminho para casa e, ao mesmo tempo, abrir a porta para o mundo.
Hoje abri essa porta.
Hoje o meu pequeno mirtilo partiu com a sua mala, os seus sonhos e, espero, todos os carregadores necessários. Eu fiquei com o silêncio, as férias por começar, um doutoramento para continuar e esta estranha contagem decrescente no coração.
Daqui a uma semana, faltará menos uma semana.
E assim iremos avançando, somando paisagens e subtraindo saudades, até ao dia em que a porta voltar a abrir e a casa recuperar a voz que hoje partiu.

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