Ainda não autorizo o fim do verão

Hoje choveu.

Não uma chuva séria, dessas de novembro que chegam com credenciais, casaco vestido e intenções de ficar. Foi uma chuva de fim de agosto, ainda meio indecisa, como quem bate à porta e pergunta se já pode entrar.

Eu disse que não.

Porque esta chuva trazia qualquer coisa de suspeito. Um cheiro a terra molhada, uma frescura no ar, uma luz mais baixa. Um certo ar de outono a ensaiar a entrada em cena antes do tempo.

E eu não estou preparada.

Nem para o outono, nem para o fim do verão, nem — sobretudo — para aquilo que vem agarrado aos dois pelas costas: o início do ano letivo.

Recuso-me.

Ainda não houve verão suficiente para isto.

Há qualquer coisa em mim que ainda precisa de sal no cabelo, areia nos pés e chinelos atirados para qualquer lado. Ainda preciso de fins de tarde que não tenham hora, de jantares que começam tarde porque ninguém reparou nas horas, de dias em que a pergunta mais urgente seja se vamos à praia de manhã ou depois do almoço.

Não estou emocionalmente preparada para voltar a ouvir frases como:

— Professora, amanhã há teste!!

Muito menos:

— Professora, eu fiz tudo bem, só me enganei nas contas.

As contas.

Ah, as contas.

Em breve voltarei aos números.

E eu gosto de números. Gosto mesmo. A Matemática e eu temos uma relação longa, sólida, quase matrimonial. Já ultrapassámos crises, equações impossíveis, trigonometria às oito da manhã e adolescentes que insistem que -3² = 9.

Continuamos juntas.

Mas até os grandes amores precisam de férias.

Neste momento, não quero saber de x.

Não quero descobrir onde ele anda.

Se o x decidiu desaparecer durante agosto, desejo-lhe tudo de bom. Que viaje. Que vá para uma ilha. Que desligue o telemóvel.

Falamos em setembro.

Também não estou preparada para voltar às muitas horas de trabalho diário, aos TPC, aos testes, às fichas, aos exercícios, às mensagens, aos horários, aos “não percebi a alínea b)” enviados a horas em que nenhuma alínea deveria ter autorização para existir.

Ainda ontem o meu maior problema podia ser ter areia dentro das sandálias.

Daqui a pouco estarei novamente a explicar pela décima quinta vez que, quando passamos um termo para o outro membro, ele não muda de sinal por magia.

Há métodos. Há regras. Há civilização.

Mas hoje choveu.

E durante alguns minutos senti aquele cheiro inconfundível de setembro.

O cheiro dos cadernos novos. Das manhãs que começam mais cedo.

Dos horários que voltam a mandar na vida. Das agendas que deixam de ter espaços brancos.

Dos dias divididos em blocos. Das calculadoras. Das mochilas.

Dos testes que ainda nem existem e já me cansam um bocadinho.

E pensei:

não.

Ainda não.

O verão não acabou enquanto eu não concordar.

Pode o calendário fazer as contas que quiser.

Pode agosto aproximar-se perigosamente do fim.

Pode chover.

Pode até haver folhas mais cansadas nas árvores.

Pode até uma pessoa aparecer ao meu lado e dizer:

— Já cheira a outono.

Não me interessa.

Enquanto houver uma réstia de sol, uma esplanada possível, uma melancia no frigorífico e uma sandália junto à porta, considero oficialmente que estamos em pleno verão.

E se for necessário, apresento recurso.

Porque há qualquer coisa profundamente injusta na rapidez com que os verões passam.

Esperamos meses por eles.

Imaginamo-los enormes.

Achamos que vamos ter tempo para tudo: descansar, ler, viajar, estar com quem gostamos, dormir até tarde, organizar a vida, pensar na vida, não pensar em absolutamente nada.

Depois piscamos os olhos e alguém começa a falar em setembro.

É ofensivo. Eu ainda tenho planos.

Ainda preciso de dias compridos. Ainda preciso de andar descalça.

Ainda preciso daquela versão de mim que durante umas semanas acredita que o relógio é apenas uma sugestão.

Há uma parte de mim que continua sentada à beira-mar, a olhar para a água, convencida de que agosto ainda agora começou.

E talvez seja essa parte que hoje se recusou a perceber a chuva.

Porque sim, sei perfeitamente o que ela anuncia.

Sei que o verão está a fazer as malas.

Sei que o outono anda ali perto, à espera que alguém lhe abra a porta.

Sei que em breve voltarei aos meus números, aos meus alunos, às minhas horas longas, aos exercícios, aos cálculos, aos TPC e àquele estranho universo onde adolescentes conseguem transformar uma equação de segundo grau numa experiência filosófica.

E sei também que, quando voltar, vou gostar.

Vou gostar dos reencontros. Dos alunos. Das perguntas. Daquela pequena alegria que aparece quando alguém finalmente percebe uma coisa que jurava ser impossível.

Vou voltar a apaixonar-me pela Matemática pela milionésima vez. Mas não hoje. Hoje quero ficar neste quase.

Quase fim de verão. Quase começo de outono.

Quase início de ano letivo.

Uma espécie de território diplomático entre as estações, onde ainda posso fingir que setembro não sabe onde moro.

Por isso, se amanhã fizer sol, não quero ouvir ninguém dizer que foi “só uma aberta”.

É verão.

E enquanto eu tiver sal no cabelo, areia nos pés — nem que seja apenas em sentido figurado — e vontade de fugir para a praia sempre que vejo uma equação, o verão continua oficialmente em vigor.

O outono pode esperar.

E o x também.

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