Agosto, esse mês que não acaba
Agosto tem sido um mês comprido.
Não sei se os meses se medem em dias ou em saudades, mas, se forem as saudades a decidir, este agosto deve ter para aí noventa e sete dias.
A minha azulinha está longe.
Longe é uma palavra estranha nos tempos que correm. Uma pessoa pode estar a milhares de quilómetros e, ainda assim, aparecer-nos dentro do telefone vinte vezes antes do pequeno-almoço. Há chamadas, fotografias, áudios e aproximadamente mil mensagens por dia — algumas importantes, outras absolutamente indispensáveis, como saber o que comeu, onde está, se dormiu bem e porque é que demorou sete minutos a responder.
As mães possuem uma relação muito particular com o conceito de distância.
A geografia diz uma coisa. O coração diz outra. E o WhatsApp faz o possível para mediar o conflito.
Pelo meio, houve férias. Salamanca, estradas, a Beira Interior, paisagens onde parece que o tempo anda mais devagar. Houve dias de praia, muito sol, areia que aparece em casa mesmo quando juramos que sacudimos tudo, e aquela espécie de felicidade simples que consiste em não saber muito bem que horas são.
Houve cafés.
Muitos cafés.
Houve mojitos, lanches demorados e amigas à mesa. Conversas que começam numa coisa insignificante e, duas horas depois, já resolveram a vida, os filhos, os homens, o país e provavelmente uma parte considerável dos problemas da humanidade.
Depois voltamos para casa e descobrimos que afinal não resolvemos nada.
Mas estamos melhores.
E talvez seja essa a verdadeira função das amigas.
Em casa, há também uma cena que provavelmente merecia uma fotografia. Um filho e uma mãe sentados lado a lado a estudar.
Ele, o mestrado.
Eu, o doutoramento.
Cada um com os seus artigos, os seus ficheiros, os seus sublinhados, as suas crises existenciais e aquele olhar de quem acabou de ler a mesma frase quatro vezes e continua sem saber exatamente o que ela quer dizer.
Às vezes levantamos os olhos dos computadores e percebemos a graça daquilo.
Há muitos anos sentei-me ao lado dele para o ajudar a estudar. Agora estudamos juntos.
Talvez a vida seja isto: as cadeiras permanecem, mas as pessoas vão mudando de lugar.
E há, ao nosso lado, o homem que torna possível grande parte desta pequena loucura.
Marido. Pai.
O que apoia, resolve, assegura, pergunta se precisamos de alguma coisa e faz com que, enquanto nós perseguimos teses, artigos, prazos e ideias, o mundo continue mais ou menos no sítio.
Há formas de amor que não fazem discursos. Perguntam apenas:
— Já comeste?
E às vezes isso é uma declaração de amor inteira.
Agosto trouxe também um dos dias de que mais gosto no calendário escolar: o dia em que saem as colocações na universidade.
Os telefonemas começaram.
“Stora, entrei!”
E depois os gritos, os risos, as lágrimas, as vozes dos pais ao fundo, a felicidade que atravessa o telefone como se a eletricidade tivesse aprendido a sentir.
E aqueles:
“Obrigada, stora. Sem si não chegava aqui.”
Eu faço o que qualquer pessoa adulta, madura e emocionalmente equilibrada faria numa situação destas.
Respondo com uma voz muito segura:
“Eu sabia que conseguias.”
Enquanto estou, obviamente, com os olhos cheios de lágrimas. Disfarço pessimamente.
Ainda bem. Porque há coisas que não devíamos aprender a disfarçar.
O orgulho é uma delas.
Ver um aluno chegar ao lugar que sonhou é uma felicidade difícil de explicar. Há uma pequena parte de nós que atravessa aquela porta com ele. Não porque o mérito seja nosso — é dele, sempre dele — mas porque tivemos o privilégio de caminhar um bocadinho ao lado.
Ensinar talvez seja isso.
Ajudar alguém a construir uma ponte e depois vê-lo atravessá-la sozinho.
E ficar na margem, ridiculamente emocionada.
Agora agosto aproxima-se do fim.
Vai terminar com chuva, ao que parece, porque até o verão parece ter decidido dramatizar a despedida.
Haverá um congresso.
Há um novo artigo científico nas mãos.
Há trabalho por terminar, páginas por rever, coisas por preparar.
Setembro já espreita pela porta com aquela expressão ligeiramente ameaçadora de quem traz uma agenda cheia.
Mas ainda estamos em agosto. Neste agosto imenso. Intenso.
Cheio de sol, estradas, mar, livros, computadores, cafés, mojitos, amigas, alunos felizes, filhos a estudar, um homem que segura a casa e uma filha que está longe.
Sobretudo uma filha que está longe.
Talvez seja por isso que o mês custa tanto a passar. Quando temos saudades, o tempo perde algumas das suas competências básicas.
Os relógios continuam a andar. Os calendários continuam a mudar.
Mas alguma coisa dentro de nós fica sentada à espera.
Ainda assim, foi um grande agosto.
Porque a vida tem esta maneira curiosa de misturar tudo: podemos ter saudades e ser felizes. Podemos sentir uma ausência enorme enquanto estamos rodeados de amor. Podemos querer que os dias passem depressa e, ao mesmo tempo, desejar guardar alguns deles para sempre.
Talvez viver seja aprender esta contradição.
Ter o coração em vários lugares ao mesmo tempo.
Uma parte na praia. Outra à mesa com as amigas. Uma diante de um computador cheio de artigos científicos.
Uma ao telefone a ouvir um aluno dizer “entrei”. Uma sentada ao lado de um filho que estuda.
Uma ao lado do homem que continua connosco, garantindo silenciosamente que o mundo não desaba.
E uma parte enorme, inevitavelmente, lá longe.
Com a minha azulinha.
Felizmente, o coração não conhece geografia.
Se conhecesse, agosto seria ainda mais comprido.
PB
Comentários
Enviar um comentário