A vida não fica à espera

Passamos uma parte absurda da vida à espera.

Esperamos pelo fim de semana, pelas férias, por uma resposta, por uma oportunidade, por uma notícia boa. Esperamos que a dor passe, que o medo diminua, que alguém regresse, que uma porta se abra. Esperamos ter mais tempo, mais coragem, menos cansaço ou uma versão de nós próprios que finalmente saiba o que está a fazer.

Como se essa pessoa existisse.

Como se, algures no futuro, houvesse uma versão adulta de nós, serena e organizada, que não perdesse as chaves, não respondesse impulsivamente, não tivesse medo e soubesse sempre qual era a decisão certa.

Tenho más notícias: essa pessoa também deve andar à nossa procura.

Há alturas em que a vida parece transformar-se numa enorme sala de espera. Sentamo-nos com os nossos pensamentos, folheamos preocupações antigas e olhamos constantemente para uma porta que teima em não se abrir.

Será hoje?

Chegará finalmente a resposta?

Vai correr bem?

Os filhos estarão felizes?

Terão escolhido o caminho certo?

Ser mãe de filhos crescidos é descobrir que o colo continua a existir, mas já não chega a todos os lugares onde eles vão. Podemos escutar, aconselhar, procurar caminhos, rever documentos, fazer perguntas e acreditar com todas as forças. Podemos até desejar tanto uma coisa que quase nos convencemos de que o desejo tem poderes administrativos.

Mas há portas que têm de ser abertas por eles.

E há respostas que não dependem de nós.

Talvez essa seja uma das aprendizagens mais difíceis do amor: continuar profundamente presente sem tentar viver a vida do outro. Permanecer por perto, com os braços disponíveis, enquanto aceitamos que há viagens em que não podemos levar-lhes a mala.

Também ser professora é uma forma de espera.

Ensinamos uma ideia hoje e, muitas vezes, só muito mais tarde ela encontra lugar dentro de alguém. Repetimos, explicamos de outra maneira, fazemos perguntas, insistimos, desesperamos um bocadinho e voltamos a acreditar. Depois, um dia, um aluno olha para nós com aquele brilho de quem finalmente percebeu e sentimos que assistimos a um pequeno milagre.

Talvez educar seja isso: confiar no que ainda não conseguimos ver.

O problema não está em esperar. Há esperas que fazem parte do amor, da esperança e da construção de qualquer coisa importante. O problema começa quando adiamos a vida até que aquilo que esperamos aconteça.

Quando pensamos:

“Serei mais feliz quando chegar aquela resposta.”

“Descansarei quando tudo estiver resolvido.”

Entretanto, a vida continua.

O café arrefece em cima da mesa. Alguém nos envia uma mensagem inesperada. Uma criança diz uma coisa tão séria e tão absurda que nos obriga a rir. Uma gata decide que o computador é o lugar ideal para dormir precisamente quando temos trabalho. O sol entra pela janela sem pedir autorização e, durante alguns segundos, o mundo parece estar exatamente onde devia.

Esses instantes não são intervalos antes da vida verdadeira.

São a vida verdadeira.

Temos a estranha tendência de imaginar que os dias importantes vêm assinalados no calendário. Acreditamos que a felicidade chegará acompanhada de música, certezas e uma iluminação adequada. Mas quase nunca é assim. Na maioria das vezes, ela entra discretamente pela porta da cozinha. Senta-se connosco à mesa, disfarçada de conversa, de sopa quente, de abraço demorado ou de alguém que pergunta se chegámos bem a casa.

E, se estivermos demasiado ocupados a olhar para o futuro, podemos nem reparar nela.

Tenho tentado aprender a viver também nos dias suspensos. Nos dias em que ainda não sei. Nos dias em que a resposta não chegou, o caminho não está decidido e o coração se divide entre a confiança e a vontade de telefonar a alguém para perguntar se não se terá esquecido de nós.

Tenho tentado não fazer do presente um corredor.

Há dias que não são uma passagem para lado nenhum. São uma casa.

Podemos habitá-los mesmo sem certezas. Podemos pôr a mesa, abrir as janelas, rir, trabalhar, amar e fazer planos. Podemos continuar a cuidar de quem está perto sem deixar que a ausência de uma resposta ocupe todas as cadeiras.

Isto não significa desistir do que desejamos. Significa apenas não entregar a nossa vida como refém ao futuro.

As notícias acabarão por chegar. Algumas serão as que desejávamos. Outras obrigar-nos-ão a descobrir caminhos que não tínhamos imaginado. Haverá portas que se abrirão e outras que nos ensinarão que nem todos os lugares onde queremos entrar são lugares onde devemos ficar.

Os filhos encontrarão os seus caminhos, mesmo que, por vezes, tenham de se perder um pouco antes disso.

E nós continuaremos aqui, a torcer por eles com essa forma desajeitada e imensa de amor que consiste em querer protegê-los do mundo e, ao mesmo tempo, desejar que tenham coragem para o atravessar.

Enquanto isso, a vida segue e não fica à espera.

PB

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Quando a Inveja Fala Mais Alto: Ética, Educação e o Silêncio do Mérito

Carta aberta aos meus alunos

10 anos depois