Memória

A memória é uma casa que muda de lugar.

Às vezes aparece no cheiro da terra molhada, outras vezes no frio da primeira neve ou numa palavra antiga que alguém pronuncia por acaso. Há dias em que se esconde tão bem que julgamos ter perdido tudo. Depois, sem aviso, abre uma porta e devolve-nos uma voz, um rosto, uma tarde inteira.

Passamos grande parte da vida à procura de nós próprios nessas divisões invisíveis.

Eu procuro-me nas memórias que guardo do meu pai.

Há pessoas que morrem apenas do lado de fora. Por dentro de nós continuam a levantar-se de manhã, a repetir palavras, a fazer pequenos gestos e a olhar para o mundo através dos nossos olhos.

O meu pai vive nesse território onde a memória não paga renda e o tempo não consegue despejar ninguém.

Procuro-me naquilo que dele ficou em mim. Talvez uma maneira de sentir. Talvez uma inquietação. Talvez esta necessidade de encontrar sentidos escondidos nas coisas mais pequenas. Não sei sempre distingui-lo de mim. Quando alguém nos ama durante muito tempo, as fronteiras tornam-se imprecisas.

Talvez uma parte de nós seja feita precisamente disso: das pessoas que já não estão, mas continuam a interferir na maneira como vivemos.

Também me procuro nos meus avós maternos.

A minha avó Gracinda enchia a casa de histórias. Contava-me fábulas, lendas de outros tempos, histórias de bruxas, de fadas e de encantamentos. Falava de lugares que ninguém tinha encontrado, mas que, segundo ela, existiam.

A minha avó não precisava de provas. Para ela, as coisas não deixavam de existir apenas porque não podiam ser vistas.

Eu acreditava em tudo o que ela me contava.

Acreditava nas fadas escondidas entre as árvores, nas mulheres que conheciam palavras mágicas, nos caminhos que mudavam de lugar durante a noite e nas criaturas que só apareciam a quem ainda não tinha desaprendido de imaginar.

Talvez tenha sido a minha avó a ensinar-me que uma história não precisa de ter acontecido para ser verdadeira. Basta que continue a acontecer dentro de nós.

Ainda hoje uma parte de mim acredita.

Já não espero encontrar uma fada atrás de uma árvore (ou talvez espere,quem sabe?), mas continuo a desconfiar de que existem coisas invisíveis a tomar conta do mundo. Há casas que guardam vozes. Há caminhos que se lembram dos nossos passos. Há ausências que se sentam à mesa e ficam connosco em silêncio.

O meu avô Miguel ensinou-me outra forma de encantamento.

Ensinou-me a amar a terra.

Com ele percebi que a Natureza conhecia todas as metáforas antes de os escritores as inventarem.

A terra ensinava que há um tempo para semear e outro para colher. Que algumas sementes precisam de permanecer muito tempo no escuro antes de encontrarem a luz. Que há árvores que se vergam sem partir e raízes que continuam vivas mesmo quando tudo, à superfície, parece morto.

O meu avô não acreditava em Deus.

Acreditava na Terra, na Natureza e naquilo que se planta e se colhe. Acreditava no trabalho, na palavra dada, na justiça e na obrigação de ajudar quem precisava.

Era um homem muito bom.

Ajudava toda a gente e toda a gente gostava dele. Não precisava de acreditar no céu para praticar a bondade na terra.

O meu avô não acreditava em Deus, mas eu tenho a certeza de que Deus acreditava nele.

Talvez Deus tenha mais fé nos homens bons do que os homens bons têm Nele. Imagino que o amasse precisamente porque o meu avô não fazia o bem à espera de recompensa. Fazia-o porque não sabia viver de outra maneira.

Foi com ele que aprendi que aquilo que plantamos nem sempre nasce no lugar onde semeámos.

Por vezes, uma bondade lançada à terra só floresce muitos anos depois, dentro da memória de uma neta, por isso, digo sempre que a minha história foi forjada pelas mãos dos meus avós e na força da serra.

Na agrura e na beleza da neve. No frio que endurecia as mãos e fortalecia as pessoas. Nos verões intensos que douravam a paisagem e faziam a terra parecer uma criatura adormecida ao sol.

Nunca me cansei da neve nem do calor.

A serra educou-me por extremos e talvez seja por isso que também sou um paradoxo.

Sou frio e incêndio, silêncio e palavra, recolhimento e casa cheia. Tenho em mim a resistência das árvores que atravessam o inverno e a inquietação das ervas que voltam a nascer entre as pedras.

Não sou apenas a pessoa que construí. Sou também a paisagem de onde vim.

Sou o sol dos verões da serra, a neve que apagava os caminhos, as histórias da minha avó, a terra nas mãos do meu avô e as memórias que guardo do meu pai.

É por isso que continuo a procurar-me neles.

Talvez porque a procura de nós próprios não seja apenas uma viagem em frente, mas um regresso. Um regresso às vozes que nos chamaram pelo nome, às mãos que nos ensinaram a tocar na terra, às histórias contadas junto ao lume e aos braços onde não precisávamos de explicar quem éramos.

Um regresso àqueles que nos amaram antes de nós sabermos exatamente quem somos.

Nesses dias, volto à memória.

Abro devagar as portas daquela casa e procuro o meu pai, a minha avó Gracinda e o meu avô Miguel e então encontro-me.

Porque, talvez, nunca deixemos verdadeiramente os lugares onde fomos amados nem a memória dos que vivem em nós através desses lugares e talvez porque viver e encontrar-me só encontre sentido e verdade porque, no meu coração, continuo para sempre a morar neles.

PB

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