A medida de um abraço

Há ausências que se medem em dias e outras que não obedecem ao calendário.

Um mês, por exemplo, não é muito tempo. Trinta dias. Quatro semanas. Uma pequena porção de vida, se pensarmos nos anos que já passaram e nos que, com alguma sorte, ainda teremos pela frente. Mas há pessoas cuja ausência altera a geografia dos lugares. De repente, há um lugar vazio, uma voz que deixou de atravessar os dias, uma gargalhada que não acontece onde deveria acontecer.

E então um mês pode ser uma eternidade.

Ela estava na Roménia, a fazer o seu estágio de verão, a viver aquela parte da vida que já não me pertence — e ainda bem. As mães passam muitos anos a ensinar os filhos a atravessar a rua e depois chega um momento estranho em que precisam de aprender a vê-los atravessar fronteiras sem nós.

É esse, talvez, um dos paradoxos mais difíceis do amor: passamos a infância inteira dos nossos filhos a prepará-los para partir e, quando finalmente partem, descobrimos que não tínhamos preparado suficientemente o coração para a partida.

Durante um mês fui sabendo dela através de mensagens, fotografias, pequenas notícias lançadas à distância.

“Está tudo bem.”

“Hoje aconteceu isto.”

“Fui aqui.”

“Olha esta fotografia.”

A tecnologia é uma coisa extraordinária, mas nunca conseguiu resolver o essencial. Podemos ver o rosto de alguém do outro lado da Europa, ouvir-lhe a voz, conhecer o jantar que está a comer e até a temperatura da cidade onde acordou.

Mas não podemos abraçá-lo.

E o corpo sabe isso.

Talvez por isso eu tenha decidido fazer-lhe uma surpresa.

Ela julgava que eu estava num festival de verão. Provavelmente imaginava-me longe dali, entretida entre música, gente e aquela espécie de alegria provisória que os festivais oferecem. Não suspeitava que, enquanto o avião se aproximava de Portugal, eu estava a caminho do aeroporto.

Há pequenas mentiras que o amor absolve.

Eu sabia a hora da chegada. Sabia o voo. Sabia que, dentro de pouco tempo, aquelas portas automáticas se abririam e ela apareceria.

E esperei.

Os aeroportos são lugares curiosos. Talvez sejam dos poucos sítios onde os adultos ainda se permitem esperar com o coração completamente exposto.

Há pessoas que olham incessantemente para o painel. Outras caminham de um lado para o outro. Algumas seguram flores. Há crianças ao colo. Há avós. Há amantes. Há pessoas que regressam e pessoas que partem.

E durante alguns minutos todos partilhamos a mesma fragilidade: estamos à espera de alguém.

Eu estava à espera da minha filha.

Não da estudante que regressava da Roménia.

Não da jovem mulher que tinha passado um mês longe, a trabalhar, a aprender, a descobrir outro país e talvez também qualquer coisa sobre si própria.

Esperava a minha filha. É curioso como o amor simplifica tudo. Depois as portas abriram-se.

E ela apareceu.

Não sei explicar exatamente o que acontece nesses segundos. Talvez porque os acontecimentos verdadeiramente importantes raramente se deixam contar com precisão.

Primeiro reconhecemos um rosto.

Depois há aquele instante em que o outro nos reconhece também.

E então o mundo, que até aí tinha continuado normalmente — pessoas a andar, malas a rolar, anúncios a ecoar, aviões a chegar — deixa de interessar.

Ela viu-me.

E a surpresa apareceu-lhe inteira no rosto.

Talvez tenha perguntado:

— O que é que estás aqui a fazer?

Ou talvez eu tenha imaginado que perguntou. Porque, nesse momento, já não importavam muito as palavras.

Abraçámo-nos.

Há abraços educados, abraços de circunstância, abraços que começam e acabam quase ao mesmo tempo.

E depois há aqueles.

Os que não têm pressa.

Os que servem para devolver ao corpo tudo aquilo que as mensagens e as videochamadas não conseguiram dizer.

Apertei-a contra mim e percebi uma coisa simples: durante aquele mês tinha sentido falta exatamente daquilo.

Do peso dela nos meus braços.

Do cheiro. Da presença. Dessa confirmação primitiva e absoluta de que alguém está ali.

Há momentos em que a felicidade não precisa de ser grandiosa. Não necessita de acontecimentos extraordinários, de viagens, de conquistas, de fotografias perfeitas.

Às vezes a felicidade é apenas alguém atravessar umas portas de aeroporto.

E voltar.

Ficámos no Porto. A nossa cidade.

Ou uma das cidades que, de tanto a amarmos, acabaram também por aprender qualquer coisa sobre nós.

Há cidades que visitamos e há outras que nos conhecem.

O Porto conhece-nos bem.

Conhece os nossos passos, algumas das nossas histórias, os lugares a que voltamos sem necessidade de explicar porquê. Conhece-nos talvez naquela forma discreta que as cidades têm de guardar pedaços da vida das pessoas: uma rua percorrida muitas vezes, uma janela iluminada, uma conversa junto ao Douro, um café onde ficámos mais tempo do que tínhamos previsto, um lugar onde fomos felizes sem perceber ainda que estávamos a fabricar uma memória.

Naquela noite, pareceu-me justo que fosse ali que ficássemos.

Como se a cidade também tivesse sido convocada para o reencontro.

Seguimos para o hotel com um mês inteiro de histórias por abrir.

E talvez exista uma beleza particular em ficar num hotel na cidade que amamos.

Não estamos propriamente em casa, mas também não somos estrangeiros.

É uma espécie de território intermédio, um lugar suspenso entre a viagem e o regresso.

Lá fora estava o Porto. As luzes. As ruas conhecidas. Aquela melancolia bonita que a cidade carrega mesmo quando está feliz.

E nós ali, finalmente juntas.

Um mês de distância precisava de ser contado.

Há histórias que não cabem nas mensagens. Pessoas que conheceu. Pequenos episódios, coisas que correram bem, coisas que correram menos bem.

Lugares. Descobertas.

Histórias que começam com:

— Espera, ainda não te contei isto…

E outras interrompidas por:

— Ah! E sabes o que aconteceu depois?

Falámos noite dentro.

Talvez seja uma das coisas de que mais gosto na vida: um quarto de hotel já silencioso, a cidade a acontecer para lá das janelas, o relógio avançando para horas pouco recomendáveis e nós ainda à conversa, como se tivéssemos de recuperar de uma só vez todos os diálogos que o mês nos roubara.

Eu queria saber tudo.

Da comida de que não gostou. Da rua onde se perdeu.

Da colega que disse uma coisa engraçada.

Do pequeno desastre que, à distância, já se transformou numa história divertida.

Talvez a intimidade seja precisamente isto: interessarmo-nos profundamente pelas coisas que seriam absolutamente irrelevantes se pertencessem à vida de qualquer outra pessoa.

Naquela noite, algures no Porto, ficaria para sempre uma pequena parte de nós.

Uma mãe e uma filha.

Um mês inteiro a ser devolvido através de palavras.

Olhei para ela enquanto falava.

E percebi também que aquela que tinha regressado não era exatamente a mesma que partira.

Nunca são.

Cada viagem muda alguma coisa.

Cada cidade acrescenta uma rua à nossa memória. Cada pessoa que conhecemos deixa uma marca, mesmo quando não sabemos identificá-la. Cada vez que vivemos longe de casa descobrimos qualquer coisa sobre aquilo a que chamamos casa.

E talvez eu também não fosse exatamente a mesma mãe que a tinha visto partir.

A ausência ensina.

Ensina-nos, entre outras coisas, que os nossos filhos não nos pertencem. Nunca pertenceram.

Foram-nos confiados durante algum tempo para que os amássemos o suficiente para um dia terem coragem de ir embora.

É uma aprendizagem difícil. Talvez uma das mais difíceis.

Queremos que tenham asas e, ao mesmo tempo, continuamos secretamente a desejar que o voo nunca seja demasiado longe.

Mas naquela noite não pensei muito nisso.

Naquela noite ela estava ali.

O sono podia esperar. O resto do mundo podia esperar.

Havia um mês inteiro para contar.

E havia o Porto.

Talvez por isso a noite tenha parecido ainda mais nossa.

Porque estávamos numa cidade que amamos e que, de algum modo inexplicável, parece amar-nos de volta.

Enquanto a ouvia, percebi que existem momentos que, quando acontecem, parecem pequenos, mas que mais tarde serão precisamente aqueles de que teremos saudades.

Um dia ela voltará a partir. Eu sei.

Haverá outros aeroportos, outras cidades, outras despedidas.

Talvez ser mãe seja precisamente isto: passar anos a ensinar um filho a partir e o resto da vida a reconhecer, entre todas as alegrias possíveis, a felicidade extraordinária de o ver regressar.

Mas naquela noite não havia passado nem futuro.

Havia apenas aquele presente raro e extraordinário que a vida me devolveu:

A minha filha tinha regressado.

PB

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