A geografia da saudade

Chega uma idade em que começamos a compreender que a saudade não é propriamente o desejo de voltar.

Durante muito tempo julgamos que sim. Pensamos que temos saudades de uma casa, de uma rua, de uma pessoa sentada diante de nós numa determinada tarde, de uma voz que pronunciava o nosso nome de uma maneira que ninguém mais soube repetir. Convencemo-nos de que, se pudéssemos regressar a esse lugar, abrir aquela porta, sentarmo-nos outra vez àquela mesa, qualquer coisa se recomporia dentro de nós.

Mas não.

Podemos regressar aos lugares. É esse, talvez, o erro mais cruel.

A rua continua lá. A casa pode ainda existir. A árvore cresceu, naturalmente, e há outras cortinas nas janelas. O café onde nos esperavam às cinco da tarde talvez tenha mudado de nome, mas as mesas continuam encostadas à parede e, por alguns segundos, quase conseguimos acreditar que basta esperar.

Depois percebemos. Não era daquele lugar que tínhamos saudades.

Era de quem éramos quando estivemos ali.

E dessa pessoa não ficou morada. Talvez seja isso a nostalgia: a memória de uma pátria que existiu apenas no tempo.

Há noites em que me lembro de coisas insignificantes. Nunca dos grandes acontecimentos, curiosamente. A memória não respeita hierarquias. Guarda o barulho de uma colher dentro de uma chávena, uma janela aberta numa tarde de verão, o perfume de alguém que passou por nós num corredor, uma mão pousada distraidamente sobre a mesa.

Os grandes momentos envelhecem melhor porque aprendemos a contá-los. Transformamo-los em histórias, damos-lhes princípio e fim, escolhemos palavras adequadas. As coisas pequenas não. Permanecem intactas dentro de nós, sem explicação.

E talvez por isso doam mais.

Às vezes tenho saudades de pessoas que ainda estão vivas. Esta é uma forma particularmente estranha de tristeza.

Porque não sentimos apenas falta dos mortos. Também sentimos falta daqueles que mudaram, daqueles de quem nos afastámos, daqueles que a vida levou para uma região onde já não sabemos chegar.

E sentimos, sobretudo, falta das pessoas que fomos uns para os outros.

Há relações que terminam muito antes de alguém partir. Continuamos a conversar, a telefonar, talvez até a jantar juntos, mas alguma coisa essencial já abandonou a sala.

Ninguém sabe dizer exatamente quando aconteceu.

Um dia apenas damos conta de que já não dizemos certas coisas. Depois deixamos de fazer certas perguntas.

Mais tarde deixamos de esperar as respostas.

É assim que algumas pessoas começam a desaparecer.

Devagar.

Sem funeral.

Mas existe ainda outra saudade, talvez a mais profunda, da qual quase nunca falamos.

A saudade de nós próprios.

Da pessoa que acreditava que havia tempo.

Daquela que fazia planos para daqui a vinte anos com a seriedade de quem acredita possuir vinte anos.

Tenho saudades dessa ingenuidade.

Não porque fosse mais feliz. Talvez nem fosse. Mas havia uma espécie de confiança no futuro que hoje me comove. O mundo parecia enorme e a vida parecia comprida. Pensávamos que todas as conversas poderiam continuar amanhã, que haveria sempre outra ocasião para dizer “gosto de ti”, “perdoa-me”, “fica mais um pouco”.

Não sabíamos que algumas despedidas se apresentam disfarçadas de tardes comuns.

Talvez seja esse o verdadeiro conhecimento que os anos nos oferecem: compreender que quase tudo acontece pela última vez sem nos avisar.

Um último verão naquela casa. Um último Natal com determinadas pessoas à mesa.

Uma última viagem.

A última vez que alguém nos chama pelo nome.

A última vez que seguramos uma mão.

E nós estamos distraídos porque ainda não sabemos que é a última.

Se soubéssemos, talvez olhássemos melhor.

Talvez demorássemos mais tempo.

Talvez não deixássemos a conversa terminar tão depressa.

Mas a vida não permite esse luxo. Só reconhecemos os últimos momentos depois de eles terem passado.

É por isso que a saudade possui uma espécie de dignidade. Ela é a prova tardia de que alguma coisa teve importância.

Sentimos saudades porque estivemos lá.

Porque amámos. Porque pertencemos.

Porque, por alguns instantes, houve no mundo uma combinação irrepetível de pessoas, lugares, gestos e palavras que constituiu aquilo a que chamávamos, sem saber, felicidade.

Depois tudo se desfez.

Como sempre acontece. Há coisas cuja beleza depende precisamente de não poderem durar.

Uma tarde de infância não seria infância se pudéssemos regressar a ela todos os domingos. Um abraço não teria a mesma urgência se fosse eterno. O amor talvez não fosse tão precioso se não soubéssemos, algures dentro de nós, que todas as coisas humanas são provisórias.

Mesmo assim, há noites em que daríamos tudo por cinco minutos.

Não para mudar o passado.

Nem sequer para permanecer nele.

Apenas para entrar novamente naquela cozinha.

Ouvir aquelas vozes.

Sentarmo-nos àquela mesa.

Olhar em silêncio para pessoas que, naquele instante, ainda não sabem que um dia serão a nossa saudade.

E talvez não lhes disséssemos nada extraordinário.

Talvez fosse essa a parte mais bonita.

Perguntaríamos apenas:

— Ainda há café?

E alguém responderia da outra divisão:

— Há.

E durante alguns minutos o mundo estaria inteiro outra vez.

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