A criança que nos devolve a aldeia

Há um provérbio antigo que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança.

Eu costumo pensar que também é preciso uma criança para voltarmos a ser aldeia.

Uma criança chega e, sem saber, começa a construir pontes. Faz com que os vizinhos se conheçam, que os avós regressem às histórias antigas, que os tios aprendam a sentar-se no chão e que os adultos voltem a reparar nas formigas, nas pedras com formas estranhas e nas nuvens que se parecem com animais.

Antes dela, havia apenas pessoas a viver umas ao lado das outras. Depois dela, talvez exista uma aldeia.

As crianças têm essa capacidade misteriosa de desarrumar o mundo para que possamos voltar a vê-lo.

Interrompem conversas importantes para mostrar uma folha, fazem perguntas no momento menos conveniente, riem quando os adultos acham que é preciso manter a compostura e choram por coisas que nós já aprendemos a considerar pequenas. Mas talvez não sejam as coisas que são pequenas. Talvez tenhamos sido nós que, ao crescer, fomos ficando demasiado grandes para nos lembrarmos do tamanho que a tristeza pode ter dentro de um corpo de seis anos.

Sem crianças por perto, os adultos correm o risco de ficar sérios demais.

Não sérios no sentido da responsabilidade ou do cuidado, mas daquela seriedade rígida que nos fecha as janelas por dentro. Começamos a acreditar demasiado nas nossas certezas, a proteger as nossas opiniões como se fossem propriedades e a confundir ter razão com compreender o mundo.

As crianças não respeitam muito bem essas fronteiras invisíveis.

Perguntam “porquê?” quando nós já tínhamos decidido que o assunto estava encerrado. Querem saber porque é que há pessoas pobres, porque é que os adultos fazem guerras, porque é que alguém fica sozinho no recreio, porque é que uma coisa tem de ser assim apenas porque sempre foi assim.

E, perante uma criança, percebemos muitas vezes que algumas das nossas verdades não passam de respostas antigas que deixámos de questionar.

Conviver pouco com crianças pode fazer-nos esquecer que ninguém nasce a saber, que todos precisamos de tempo, que errar não é uma falha de carácter e que o mundo nem sempre cabe nas explicações que inventámos para ele. Pode tornar-nos menos pacientes com a fragilidade, menos disponíveis para o espanto e mais severos com quem ainda procura as palavras certas.

Talvez a intolerância comece também aí: quando deixamos de conviver com quem nos obriga a explicar, a repetir, a esperar e a olhar de outra altura.

Uma criança ensina-nos que há coisas que só se compreendem quando nos baixamos. Às vezes, para ver verdadeiramente alguém, é preciso dobrar os joelhos e ficar à altura dos seus olhos.

Isto não significa que seja necessário ter filhos para conservar a ternura, nem que todos os adultos sem crianças nas suas casas se tornem indiferentes. Há muitas maneiras de acolher a infância: ser professor, tia, padrinho, vizinha, treinador, amigo da família ou simplesmente alguém que sabe escutar. O que importa é não expulsarmos as crianças do nosso mundo, não as afastarmos para lugares onde não perturbem, não construirmos uma vida tão organizada que já não caiba nela uma pergunta inesperada.

E depois existem os adolescentes.

Esses seres a viver entre duas margens, com um pé na infância e outro num futuro que ainda não sabem nomear. Trazem no corpo todas as perguntas ao mesmo tempo. Contradizem-nos, desafiam-nos, obrigam-nos a justificar aquilo que dizemos e detetam uma incoerência adulta com uma precisão quase científica.

Os adolescentes não aceitam facilmente as verdades herdadas. Querem experimentar o mundo, mesmo quando o mundo já lhes explicou que pode doer. Mudam de ideias, de sonhos, de penteado e, às vezes, de universo inteiro entre uma segunda-feira e uma sexta-feira. Há neles uma espécie de caos luminoso: ainda não desistiram de acreditar que a vida pode ser diferente.

É por isso que me sinto tão feliz por ter tantas crianças e tantos adolescentes na minha vida.

Tenho os meus filhos, que me ensinaram formas de amor para as quais nenhuma palavra é suficientemente grande. E tenho todos os alunos que, ao longo dos anos, foram entrando na minha história sem talvez perceberem o lugar que nela ocupavam.

Costuma dizer-se que os professores acrescentam alguma coisa à vida dos alunos. Espero que seja verdade. Mas raramente se diz o quanto os alunos acrescentam à vida de um professor.

Os meus acrescentam-me perguntas, gargalhadas, preocupações, orgulho e esperança. Acrescentam-me palavras que eu desconhecia, músicas que provavelmente nunca ouviria e maneiras novas de olhar para coisas que julgava já conhecer. Trazem-me os seus medos, os seus sonhos ainda em construção, os amores que parecem eternos numa terça-feira e terminam dramaticamente antes do fim de semana. Ensinam-me que cada geração inventa uma nova maneira de sofrer, mas também uma nova maneira de salvar o mundo.

Há dias em que chego cansada e são eles que, sem saberem, me devolvem a energia. Uma pergunta improvável, uma resposta inesperada, um sorriso depois de finalmente compreenderem um problema, a alegria de quem percebe que afinal é capaz — e o dia muda de lugar.

Julgo que sou eu que lhes ensino Matemática. Muitas vezes são eles que me ensinam a continuar a acreditar no futuro.

Graças às crianças e aos adolescentes que fazem parte da minha vida, não me é permitido envelhecer por inteiro. Uma parte de mim precisa de continuar curiosa, disponível, atenta às novas linguagens e às mudanças do mundo. Eles impedem-me de ficar demasiado instalada nas minhas certezas. Lembram-me que ensinar não é colocar respostas dentro de alguém, mas acompanhar uma pessoa enquanto ela descobre as suas próprias perguntas.

Talvez seja isso que as crianças façam por todos nós: devolvem-nos à nossa humanidade antes de ela ter aprendido a esconder-se.

Ensinam-nos a partilhar, a esperar, a perdoar depressa, a recomeçar uma brincadeira depois de uma zanga e a não achar ridículo alguém que fala com um boneco ou acredita que a Lua o segue até casa.

Uma sociedade que afasta as crianças da vida comum perde mais do que o ruído, a desordem e os brinquedos espalhados. Perde a memória da sua própria fragilidade. E quem se esquece de que já foi pequeno corre o risco de deixar de compreender aqueles que continuam a precisar de cuidado.

É preciso uma aldeia para criar uma criança, sim.

Mas é preciso uma criança para ensinar os adultos a partilhar o pão, o tempo, o espaço e a esperança. É preciso uma criança para abrir portas entre casas que se tinham habituado a estar fechadas. É preciso uma criança para nos lembrar que ninguém cresce sozinho e que uma aldeia não é um conjunto de paredes próximas.

Uma aldeia é um lugar onde a vida de cada um importa aos outros.

E talvez sejam as crianças, com as mãos pequenas e as perguntas enormes, que nos ensinam novamente a construí-la.

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