A adolescência é um território definitivo
Há uma coisa na adolescência que só percebemos muitos anos depois: tudo nela parece definitivo.
Uma amizade é para sempre. Um desgosto é o fim. Um amor é o único amor possível. Uma música consegue dizer exatamente aquilo que ainda não sabemos explicar. E uma tarde, às vezes, parece conter o mundo inteiro.
Nessa idade ainda não aprendemos a relativizar. Talvez por isso tudo seja tão intenso.
Amamos demasiado. Sofremos demasiado. Esperamos demasiado.
Queremos ser adultos, mas ainda levamos connosco uma infância que fingimos já ter abandonado. Queremos fugir de casa e, ao mesmo tempo, precisamos de saber que alguém estará à espera quando regressarmos.
Talvez crescer seja precisamente isto: passarmos alguns anos a tentar afastar-nos da criança que fomos e muitos outros a tentar encontrá-la novamente.
Na adolescência queremos distância.
Mais tarde queremos memória.
E a memória dessa idade é uma coisa estranha. Raramente guarda aquilo que julgávamos importante.
Guarda um corredor da escola. O frio de uma manhã. Um perfume. Uma mochila atirada para o chão. Uma gargalhada. Um beijo. Uma frase escrita num papel dobrado.
E guarda, sobretudo, músicas.
Nenhuma idade pertence tanto à música como a adolescência.
Há canções que não ouvimos: habitamo-las.
Muitos anos depois bastam três acordes e acontece qualquer coisa impossível. A sala desaparece, os anos desaparecem e, durante quatro minutos, temos novamente dezasseis anos.
Talvez seja por isso que certas músicas nunca sejam apenas músicas.
Transportam pessoas. Rostos. Ruas. Conversas.
E transportam uma versão de nós que já não existe.
Quando dizemos que temos saudades da adolescência, talvez não tenhamos verdadeiramente saudades da idade. Ninguém deseja regressar às inseguranças, aos medos, à necessidade desesperada de pertencer.
Temos saudades de outra coisa. Da intensidade. Da primeira vez.
E, sobretudo, da sensação de que havia tempo.
Os verões eram enormes. Setembro estava infinitamente longe. Os vinte anos pareciam distantes e os cinquenta pertenciam a uma espécie humana completamente diferente da nossa.
Não sabíamos ainda que algumas pessoas de quem jurávamos nunca nos separar um dia deixariam de saber onde moramos.
Não sabíamos quem ficaria. Quem partiria. Quem seria apenas um nome numa fotografia.
E talvez tenha sido melhor assim.
Se soubéssemos antecipadamente o destino de todas as pessoas que amamos, seria impossível viver algumas tardes com alegria.
Os adolescentes têm uma coragem que os adultos vão perdendo: vivem como se nada tivesse data de validade.
Por isso dizem coisas absurdas e maravilhosas: “Para sempre.”; “Nunca me vou esquecer de ti.”; “Quando formos adultos…”
E depois os anos adultos chegam e a vida espalha-nos.
Hoje sei que quase nada é definitivo. Nem as dores, nem as alegrias, nem as pessoas, nem nós.
Mas houve um tempo em que eu não sabia. E talvez seja disso que tenho saudades.
Não exatamente de ser adolescente.
Tenho saudades da pessoa que ainda entrava numa amizade sem imaginar a despedida, que se apaixonava sem calcular riscos, que ouvia uma música como se ela pudesse salvar uma vida.
Da pessoa que ainda acreditava que setembro estava longe e que havia tempo para tudo.
Talvez seja isso que recordamos quando dizemos que temos saudades de ser jovens.Não queremos voltar à idade.
Queremos voltar, por alguns minutos, àquele estranho privilégio de ainda não saber.
Porque houve um tempo em que tudo parecia definitivo.
E talvez por isso tudo fosse tão intensamente vivo.
PB
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