31 anos depois...
Há trinta e um anos, o mundo ainda não tinha um lugar para nós: Tivemos de o abrir.
Não nos deram uma estrada, um mapa ou uma porta por onde pudéssemos entrar juntos. Havia dúvidas, avisos, juízos e pessoas demasiado certas de que sabiam como terminaria a nossa história. Olhavam para nós como quem olha para uma casa construída perto do mar e prevê a tempestade antes mesmo de ela chegar.
Acreditavam que não duraríamos.
Talvez porque fôssemos demasiado diferentes. Talvez porque fôssemos demasiado jovens. Talvez nos amássemos com uma intensidade que os outros confundiam com imprudência. Talvez ninguém compreendesse que há encontros que não pedem autorização à razão nem respeitam a ordem em que a vida deveria acontecer.
Nós também não sabíamos se conseguiríamos.
Mas sabíamos que queríamos.
E há uma diferença enorme entre acreditar que tudo será fácil e decidir que, mesmo quando não for, continuaremos a tentar.
Tivemos de desbravar o mundo para cabermos nele.
Avançámos por lugares onde ainda não havia caminho, afastando ramos, tropeçando em pedras, ferindo algumas vezes as mãos. Lutámos contra tudo e contra todos, mas também contra aquilo que existia dentro de nós: os medos, as inseguranças, o orgulho, as palavras ditas no momento errado e os silêncios que, por vezes, quase se tornaram paredes.
Porque nenhuma história de amor com trinta e um anos é feita apenas de amor.
Também é feita de cansaço, impaciência, contas para pagar e filhos para criar, desencontros, noites mal dormidas, preocupações, perdas e dias em que duas pessoas se amam, mas não sabem muito bem como chegar uma à outra.
É feita de momentos em que partir teria sido mais fácil e, ainda assim, alguém fica.
Não ficámos juntos porque nunca nos magoámos. Ficámos porque aprendemos que uma ferida não tem de ser uma despedida. Não ficámos juntos porque pensávamos sempre da mesma maneira. Ficámos porque, mesmo quando o mundo visto da tua janela parecia diferente do mundo visto da minha, continuámos a construir uma casa com ambas as paisagens.
Houve dias em que fui eu a acreditar por nós.
Noutros, foste tu.
Talvez seja isso o amor depois de muitos anos: quando um perde a força, o outro guarda-lhe por algum tempo a esperança. Quando um se esquece do caminho, o outro reconhece as pedras. Quando ambos se perdem, sentam-se um pouco, discutem, choram, respiram e tentam novamente.
Durante trinta e um anos, fomos aprendendo a regressar.
Regressar depois de uma discussão. Depois do cansaço. Depois dos dias em que a vida nos levou para continentes diferentes. Regressar sem fingir que nada aconteceu, trazendo as nossas feridas, as nossas razões e a pequena humildade necessária para dizer:
— Ainda estou aqui.
Nem sempre soubemos fazer tudo bem.
Mas nunca deixámos de aprender.
Fomos crescendo um ao lado do outro, embora nem sempre à mesma velocidade. Assistimos ao desaparecimento de versões antigas de nós. O homem e a mulher que começaram esta história já não existem exatamente. Ficaram nas fotografias, em algumas cartas, nas memórias e nos lugares onde ainda conseguimos vê-los a caminhar, tão jovens e tão inconscientes de tudo o que teriam de atravessar.
Tu conheceste todas as mulheres que fui.
A jovem que acreditava que o amor podia vencer tudo apenas por ser amor. A mulher que aprendeu que amar também é trabalho, paciência e escolha. A mãe, a profissional, a sonhadora, a mulher enérgica que parece capaz de segurar o mundo e aquela que, em certos dias, mal consegue segurar-se a si própria.
Viste-me forte e viste-me desabar.
Conheceste a minha luz, mas também os lugares onde ela não chega. Viste as contradições, os medos, a inquietação e as muitas abas que vivem abertas dentro de mim. E, mesmo depois de tudo o que descobriste, continuaste aqui.
Eu também conheci muitos homens dentro de ti.
Aquele por quem me apaixonei e todos os que foste precisando de ser para atravessarmos a vida. Vi-te crescer, mudar, cair, levantar-te e aprender. Vi-te carregar pesos que não dizias ter. Vi-te proteger-nos, mesmo quando também precisavas de proteção.
O nosso amor não permaneceu igual.
Ainda bem porque com o tempo se transformou e cresceu ainda mais.
Tudo o que permanece vivo se transforma. Só as coisas mortas ficam para sempre na mesma posição. O nosso amor mudou de voz, de corpo e de ritmo. Em alguns dias foi porto; noutros, barco. Às vezes foi uma janela aberta e, outras vezes, apenas uma pequena luz acesa no corredor para que nenhum de nós se perdesse completamente no escuro.
Construímos mais do que uma vida em comum.
Construímos uma linguagem.
Há palavras, olhares e gestos que só nós compreendemos. Histórias que já ninguém saberia contar do princípio. Piadas que envelheceram connosco. Frases que começamos e o outro acaba. Silêncios que não significam ausência, porque depois de trinta e um anos também aprendemos a estar juntos sem precisar de preencher todos os espaços.
Construímos uma casa feita de dias.
Alguns luminosos, outros difíceis. Uma casa onde cabem os nossos filhos, as pessoas que amámos, as que perdemos, os sonhos realizados e aqueles que ainda guardamos numa gaveta. Cabem os erros que cometemos, as decisões acertadas e todas as vezes em que não tínhamos a certeza do que estávamos a fazer, mas fizemos o melhor que sabíamos.
Disseram que não duraríamos.
Nós durámos.
Mas não ficámos juntos para provar nada a ninguém. Não vivemos trinta e um anos olhando por cima do ombro para confirmar se os outros estavam a assistir. Tínhamos demasiado para construir e pouco tempo para gastar com quem não acreditava.
Ainda assim, acabámos por provar.
Provámos que fomos mais do que imaginaram.
Que ficámos onde outros se perderam. Que atravessámos tempestades que poderiam ter levado tudo e, quando as águas baixaram, ainda soubemos reconhecer-nos. Que não fomos perfeitos, mas fomos persistentes. Que o amor não precisa de ser impecável para ser imenso.
Temos hoje aquilo que muitos apenas ousaram sonhar.
Não uma vida sem problemas. Não uma felicidade sem intervalos. Não um amor de fotografia, sempre bem iluminado e protegido da realidade.
Temos uma história verdadeira.
Temos trinta e um anos de dias partilhados. Temos filhos, memórias, uma casa emocional onde ambos deixámos marcas. Temos a intimidade de quem se viu no melhor e no pior e não precisa representar. Temos a confiança de saber que, quando a vida se torna demasiado pesada, existe no mundo alguém que conhece o nosso nome por dentro.
Isso não se conquista de uma vez: Constrói-se todos os dias.
Constrói-se quando escolhemos ficar depois de o deslumbramento inicial desaparecer. Quando continuamos a olhar um para o outro por baixo das rotinas, das responsabilidades e do cansaço. Quando nos lembramos de que, antes de sermos pais, profissionais, adultos preocupados com tudo, fomos apenas duas pessoas que se encontraram e decidiram tentar.
Trinta e um anos depois, continuamos a tentar.
Não da mesma maneira. Agora sabemos mais sobre a fragilidade das coisas. Sabemos que nenhum amor sobrevive apenas de promessas e que “para sempre” não é uma frase pronunciada uma vez. É uma decisão pequena e imperfeita, tomada de novo em cada dia.
Para sempre foi ontem.
É hoje.
Amanhã, se a vida permitir, voltaremos a escolhê-lo.
Talvez o nosso maior triunfo não seja termos permanecido juntos. Talvez seja não termos desaparecido dentro da relação. Continuamos a ser dois, com diferenças, espaços próprios, opiniões e sonhos. Aprendemos que amar não é transformar duas pessoas numa só. É permitir que duas pessoas inteiras construam um lugar onde ambas possam existir.
Foi esse o lugar que abrimos no mundo.
Ninguém nos ofereceu as chaves. Tivemos de erguer as paredes, abrir as janelas e aprender a reparar o telhado depois de cada tempestade. Houve quem duvidasse da construção. Houve quem esperasse vê-la cair.
Mas a casa continua de pé.
Não porque tenha sido poupada ao vento, mas porque aprendemos a reconstruí-la.
Se me perguntassem hoje o que é o amor da minha vida, eu não responderia com uma data, uma fotografia ou uma frase bonita.
Diria que é alguém que conhece todas as minhas versões e ainda quer conhecer a próxima.
É alguém com quem desbravei o mundo para encontrarmos um lugar onde coubéssemos os dois.
É quem lutou ao meu lado quando tudo parecia estar contra nós. Quem ficou quando seria mais simples ir embora. Quem partilhou comigo trinta e um anos de vida real — dessa que não vem preparada, que nos desarruma os planos e nos obriga a inventar caminhos.
O amor da minha vida és tu.
Não apenas porque te amei durante trinta e um anos, mas porque, durante todos esses anos, fomos descobrindo novas maneiras de nos amar.
Contra as previsões.
Contra o medo.
Contra os dias difíceis.
Contra tudo e contra todos, quando foi preciso.
Fomos mais do que acreditaram.
Ficámos onde outros se perderam.
Construímos aquilo que muitos apenas ousaram sonhar.
E, no lugar que tivemos de abrir à força no mundo, ainda estamos nós.
Lado a lado.
Trinta e um anos depois.
PB
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