Travessia
Há pessoas que ficam para sempre à porta.
Não porque sejam más pessoas. Nem porque eu seja, necessariamente, uma casa fechada. Mas porque há entradas que não se forçam, intimidades que não se decretam, afetos que não se conquistam com insistência. Há pessoas que chegam à nossa vida e permanecem no hall de entrada, nesse lugar intermédio onde se cumprimenta, se sorri, se conversa sobre o tempo, sobre os dias, sobre as pequenas banalidades necessárias. E está tudo bem. Nem todas as pessoas foram feitas para atravessar a casa inteira.
Durante muito tempo achei que isto era dureza minha.
Hoje penso que talvez seja apenas sabedoria aprendida com alguns tropeções. A vida ensina-nos que há quem não deva entrar. Há quem não saiba limpar os pés antes de pisar o chão dos outros. Há quem confunda acolhimento com posse, disponibilidade com obrigação, confiança com direito adquirido. E há também quem fique no hall porque não quer mais do que isso, porque só sabe estar à superfície, porque traz dentro de si pouco espaço para permanecer.
Mas depois há os outros.
Os que chegam sem fazer barulho. Os que não exigem explicações. Os que se sentam devagar, como se já conhecessem a casa, mas respeitassem ainda assim o mistério das gavetas. Os que riem connosco até doer a barriga e, minutos depois, conseguem falar a sério sobre os medos, as ansiedades, as feridas antigas, as pequenas vergonhas que todos escondemos debaixo da pele. Os que bebem mojitos numa noite quente e, entre uma gargalhada e uma confissão, nos lembram que a vida também se cura assim: com gente bonita, copos na mesa, música ao fundo e a estranha sensação de termos encontrado alguém do mesmo comprimento de onda.
Ou, como diz uma amiga, almas que não são deste planeta.
Gosto dessa expressão. Talvez porque sempre me senti, em certos dias, um bocadinho fora da órbita habitual das coisas. Como se houvesse dentro de mim uma espécie de antena apontada para frequências que nem toda a gente escuta. Há pessoas com quem falamos e sentimos que é preciso traduzir o mundo inteiro. E há pessoas com quem uma frase fica a meio e, ainda assim, chega intacta ao outro lado. Essas são raras. E quando aparecem, há qualquer coisa em nós que reconhece antes de compreender.
Este verão tem sido assim.
Um verão de surpresas boas. De chegadas inesperadas. De mesas que se alargam. De conversas que começam leves e acabam profundas. De risos que desarrumam a compostura. De gente que chega, se senta, acolhe e se deixa acolher. E talvez tenha sido isso que mais me comoveu: perceber que o acolhimento não é apenas aquilo que damos. É também aquilo que nos autorizamos a receber.
Eu, que tantas vezes fui fortaleza.
Eu, que sei levantar muralhas com uma rapidez quase profissional. Eu, que sou capaz de sorrir enquanto fecho portas por dentro. Eu, que aprendi a proteger-me porque já houve quem confundisse a minha intensidade com disponibilidade infinita. Eu, que gosto muito de pessoas, mas que também me canso delas quando vêm com ruído a mais e delicadeza a menos. Eu baixei a guarda.
E fui mais feliz por isso.
Há qualquer coisa de luminoso em perceber que ainda podemos mudar. Que não ficámos definitivamente presos à versão de nós que a dor fabricou. Que uma desilusão não precisa de se transformar numa sentença. Que podemos continuar prudentes sem nos tornarmos frios. Que podemos escolher melhor sem deixar de acreditar. Que podemos abrir a porta, não a toda a gente, mas a quem chega com mãos limpas e coração disponível.
Este verão ensinou-me que cada pessoa nova que entra verdadeiramente na nossa vida acrescenta uma parcela ao território que somos. Uma nova janela. Uma nova divisão. Uma nova forma de olhar para o mesmo quintal. Há pessoas que nos trazem música. Outras trazem silêncio. Outras trazem coragem. Outras trazem espelhos onde finalmente nos vemos sem tanta dureza. E há pessoas que trazem apenas presença, que é uma das formas mais bonitas de amor.
Também aprendi, talvez com mais serenidade do que antes, que cada um dá o que tem.
Dá o tempo que consegue. A maturidade emocional que possui. A amizade que sabe. A presença que aprendeu. Há pessoas que oferecem pouco não por maldade, mas por pobreza interior. Há quem tenha bolsos pequenos para afetos grandes. Há quem não saiba permanecer, quem não saiba perguntar, quem não saiba cuidar, quem não saiba voltar. Durante muito tempo, talvez eu tenha esperado de algumas pessoas aquilo que elas nunca tiveram para dar.
Agora já não espero da sede aquilo que só a fonte pode oferecer.
E há uma liberdade enorme nisto.
Deixei de correr atrás. Deixei de ficar à espera de mensagens que não vinham, de gestos que nunca chegavam, de presenças sempre adiadas, de amizades que só existiam quando dava jeito ao outro. Deixei de traduzir ausências em desculpas bonitas. Deixei de transformar migalhas em banquetes só porque tinha fome de reciprocidade. Cada pessoa dá o que tem dentro de si, sim. Mas eu também aprendi que não sou obrigada a viver de pouco quando dou tanto.
Há algo em mim que mudou.
Não sei dizer exatamente quando. Talvez tenha sido numa conversa de verão. Talvez numa gargalhada inesperada. Talvez no momento em que percebi que estava sentada à mesa com pessoas novas e, pela primeira vez em muito tempo, não estava a medir as palavras, a controlar o entusiasmo, a esconder a ternura, a preparar a fuga. Talvez tenha sido quando senti que já não precisava de pedir licença para ser quem sou.
Há algo em mim que amadureceu.
Firmou-se. Afirmou-se. Endireitou a coluna. Olhou para dentro e disse: basta. Basta de me devolver inteira a quem só aparece em fragmentos. Basta de oferecer sala a quem não sabe sequer respeitar o hall. Basta de confundir insistência com amor, disponibilidade com amizade, memória com presença.
Arrumar também é uma forma de amor-próprio.
Não julgo. Ou tento não julgar. Cada um está no lugar emocional em que consegue estar. Nem todos caminhamos ao mesmo ritmo. Nem todos sabemos cuidar da mesma maneira. Nem todos percebemos o valor do que nos é dado quando nos é dado. Há pessoas que só entendem a ausência depois de perderem a presença. Há outras que nunca entenderão. E talvez esteja tudo certo, mesmo quando dói um bocadinho.
A maturidade talvez seja isto: aceitar sem perseguir, compreender sem justificar tudo, perdoar sem voltar a abrir a mesma porta, seguir sem carregar pedras nos bolsos.
Este verão permitiu-me ver melhor.
Ver quem caminha comigo. Ver quem caminha por mim. Ver quem se aproxima apenas quando precisa de calor e desaparece quando a fogueira exige lenha. Ver quem fica. Ver quem pergunta. Ver quem repara. Ver quem sabe rir comigo, mas também sabe sentar-se ao meu lado quando a conversa desce às zonas mais fundas da vida.
E há uma beleza enorme em encontrar pessoas assim.
Pessoas com quem podemos falar de tudo e de nada. Das ansiedades, dos medos, das pequenas vitórias, das inseguranças ridículas, dos filhos, do trabalho, dos amores, das feridas, dos planos, da vontade de desaparecer alguns dias e da vontade, igualmente intensa, de sermos encontrados. Pessoas com quem podemos ser sérios sem ficarmos pesados. Leves sem sermos superficiais. Tontos sem sermos menores. Inteiros sem pedir desculpa.
Talvez seja isto uma nova família.
Não a família do sangue, mas a família da escolha. Aquela que se vai formando nas margens da vida, em mesas improvisadas, em noites compridas, em mensagens inesperadas, em gargalhadas partilhadas, em “chegaste bem?”, em “conta comigo”, em “também me acontece”, em “fica mais um bocadinho”. A família que não substitui ninguém, mas acrescenta. A que não exige certidões, apenas presença.
Há pessoas que entram na nossa vida como quem abre uma janela.
E de repente entra ar.
Talvez eu tenha precisado deste ar. Talvez tenha passado demasiado tempo a respirar dentro de mim, nessa casa cheia de corredores, livros, memórias, defesas e pequenas fortalezas interiores. Talvez este verão me tenha lembrado que a vida não acontece apenas no quarto onde nos protegemos. Também acontece na sala, à mesa, no riso partilhado, na mão que toca o braço para dizer “estou aqui”, no brinde feito sem solenidade, no olhar de quem nos vê sem nos querer corrigir.
Baixar a guarda não é abrir a porta a toda a gente.
É apenas deixar de viver como se todos viessem para nos ferir.
É perceber que a distância certa não é sempre a distância maior. Que há proximidades que curam. Que há pessoas que não invadem: habitam. Que há presenças que não nos diminuem: ampliam-nos. Que há amizades que não nos pedem para sermos menos intensos, menos estranhos, menos emocionados, menos nós. Pelo contrário: oferecem-nos espaço para existirmos sem legendas.
E isso, para mim, é raro.
Talvez por isso este verão me pareça diferente. Não porque tudo esteja perfeito. A vida nunca está. Mas porque dentro de mim há uma espécie de acerto, uma bússola menos aflita, uma certeza tranquila. Já não preciso de ser escolhida por todos. Já não preciso de explicar a minha ausência a quem nunca soube valorizar a minha presença. Já não preciso de bater em portas que sempre se abriram pouco. Agora quero caminhar com quem caminha comigo.
Com quem me acrescenta.
Com quem me devolve.
Com quem sabe que amizade também é reciprocidade, cuidado, tempo, maturidade, alegria e abrigo.
Há pessoas que nunca entrarão no meu hall. Há pessoas que nunca sairão dele. E há outras, poucas, preciosas, que eu deixo atravessar. Vejo-as passar do hall para a sala, talvez ainda com alguma cautela minha, talvez ainda com uma almofada fora do sítio, talvez ainda com uma parte de mim a observar da porta. Mas deixo. E, quando as vejo sentarem-se, desejo profundamente que fiquem por muitos e bons anos.
Porque a vida é curta demais para salas vazias.
E bonita demais para ser partilhada apenas com quem não sabe ficar.
Este verão sou mais feliz.
Não porque tenha deixado de ter medo. Mas porque, apesar dele, abri algumas portas.
E descobri que, às vezes, do outro lado, não está o perigo.
Está uma nova forma de casa.
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