Tenho uma alma com demasiados separadores abertos
Não sei viver em modo simples, mas às vezes, gostava. Gostava de ser daquelas pessoas que pensam uma coisa de cada vez, que começam uma tarefa e acabam essa tarefa antes de inventarem outra, que entram numa divisão e ainda se lembram do motivo pelo qual lá entraram. Mas eu entro numa divisão e, pelo caminho, já tive três ideias, duas dúvidas existenciais, uma vontade súbita de reorganizar a vida inteira e uma pergunta absolutamente inútil sobre o sentido das coisas.
Não é fácil explicar isto aos comuns mortais. Aos comuns mortais — essa espécie misteriosa que parece conseguir arrumar a cabeça por gavetas — eu pareço sempre um bocadinho estranha e esquisita. Talvez porque falo depressa demais quando me entusiasmo, tenho ideias que chegam em bando, como pássaros assustados, faço ligações improváveis entre coisas que, aparentemente, não têm nada a ver umas com as outras, e talvez porque há dias em que estou cheia de mundo e outros em que o mundo me parece cheio de mim.
Acordo sempre cedo e ainda mal saí da cama e já tenho 20 separadores abertos dentro da minha cabeça. Uns com coisas por fazer. Outros com coisas por sentir. Outros com frases que alguém disse há três semanas e que eu ainda estou a analisar como se fossem matéria de exame. Outros com algumas ideias brilhantes que apareceram às duas da madrugada e que, depois pela manhã, já não me parecem assim tão brilhantes. Outros com um projeto novo, e outros com aqueles sentimentos de culpa que já deviam ter sido arquivados há muito tempo, mas que insistem em aparecer no ambiente de trabalho da minha alma.
A minha vida, geralmente, é isto: uma espécie de navegador interior sem botão para fechar tudo. Um excesso de janelas, notificações, atalhos, pensamentos em duplicado, ideias em rascunho e emoções com separadores próprios. Há quem veja nisso distração. Eu vejo velocidade. Há quem veja nisso desorganização. Eu vejo apenas abundância de coisas e ideias. Há quem veja nisso muita inquietação. Eu vejo apenas uma alma que não sabe passar pela vida em modo económico.Às vezes é cansativo. Às vezes há dias em que me canso de mim. Canso-me do barulho interior, da intensidade, da sensibilidade, desta mania de reparar em tudo: no tom de voz, na pausa entre duas frases, na mensagem que pareceu ligeiramente diferente, no olhar de alguém que fugiu um segundo antes do normal. Canso-me de sentir tanto. De pensar tanto. De querer tanto. De me entusiasmar tanto. De me magoar tanto com coisas que, para outras pessoas, talvez fossem apenas pequenas pedras no caminho e, para mim, parecem montanhas com nome próprio.
Mas também há beleza nisto. Há beleza em ter uma cabeça que não se contenta com a superfície. Há beleza em ver relações onde outros veem apenas factos. Há beleza em imaginar caminhos, criar possibilidades, encontrar metáforas no meio do dia-a-dia, transformar uma conversa num texto, uma dor numa pergunta, uma aula num encontro e uma ideia pequena numa coisa gigante e com asas.
Talvez eu seja um pouco estranha e esquisita. Mas há estranhezas que são apenas formas raras de existir, e ser um bocadinho estranha para os comuns mortais talvez seja o preço a pagar por viver assim: sentir antes de compreender; pressentir antes de confirmar; entusiasmar-me antes de ter garantias; e, às vezes, inventar soluções para problemas que ainda nem tiveram a delicadeza de existir.
Há quem chame a isto exagero. Eu, nos dias bons, chamo-lhe intensidade.
Nos dias maus, peço “por favor, alguém desligue isto durante dez minutos”.
Não quero romantizar tudo. Viver com demasiados separadores abertos no pensamento não é apenas criativo e encantador. Também é perder coisas, esquecer coisas, começar coisas, acumular coisas, sentir que o tempo escorre por sítios onde eu não tenho mãos. É estar fisicamente num sítio, mas mentalmente em três ao mesmo tempo. É querer descansar e ter a cabeça a organizar conferências, aulas, textos, preocupações familiares, listas de supermercado, mensagens por responder e o futuro da humanidade.
Tudo ao mesmo tempo.
Durante muito tempo achei que precisava de me corrigir para caber melhor no mundo. Ser menos intensa. Menos sensível. Menos acelerada. Menos cheia de ideias. Menos dada a entusiasmos súbitos. Menos capaz de passar de uma gargalhada para uma reflexão existencial em menos de trinta segundos. Menos desafiante para os que vivem comigo.
Hoje começo a desconfiar que talvez não precise de ser menos, nem precise de pedir desculpa por ser assim.
Talvez precise apenas de aprender a habitar-me melhor, a fechar alguns separadores quando já não são precisos, a guardar certas ideias sem ter de as realizar todas, a perceber que nem todos os pensamentos merecem uma assembleia geral e a aceitar que posso ser criativa sem me consumir, generosa sem me esgotar, disponível sem me dispersar e intensa sem me ferir.
Há pessoas que me ajudam nesta tarefa. Pessoas que não me olham como se eu fosse demasiado intensa. Pessoas que se riem comigo quando digo uma coisa aparentemente louca, mas ficam a pensar nela. Pessoas que não se assustam com o meu entusiasmo, nem com os meus silêncios, nem com esta minha forma de viver com várias janelas abertas para dentro. Pessoas que não tentam baixar o volume da minha existência e dão palco à minha maneira extravagante de ser.
Essas pessoas são uma bênção e é nelas que me enrosco para descansar um bocadinho. Não para ficar mais simples, mas por não precisar de me explicar nem estar a traduzir o que sinto o tempo todo. Por poder ser a mulher das 1000 ideias em simultâneo, das metáforas improváveis, da cabeça acelerada, do coração cheio de sensores, da alma com separadores abertos e notas espalhadas pelas margens, e ainda assim ser querida e amada, sem que me exijam normalidade.
Aliás, tenho para mim, que a normalidade está algo sobrevalorizada. Talvez os comuns mortais também sejam estranhos, mas apenas escondam melhor. Talvez cada pessoa traga dentro de si um pequeno sistema operativo incompreensível, com falhas, atualizações pendentes e ficheiros que ninguém sabe abrir. A diferença é que alguns de nós vivemos com o ecrã mais luminoso, onde tudo aparece, tudo pisca e tudo chama a atenção.
Mas há qualquer coisa de interessante nesta confusão e extremo em que vivo. Porque uma alma com demasiadas abas abertas também é uma alma disponível para muitos mundos. Para aprender, para cuidar, para imaginar e para recomeçar. Para se comover com pouco e para fazer perguntas difíceis. Para criar pontes onde outros veem apenas margens e para encontrar poesia no absurdo e ternura no caos.
Não sou simples nem fácil. Nunca fui. Tenho mau feitio, sou brusca, apressada, exigente e demasiado assertiva. Mas também tenho momentos de ternura inesperada, rasgos de generosidade quase imprudente e alguma — pouca, mas preciosa — serenidade.
Sou feita de muitos atalhos e camadas, curvas, notas de rodapé, ideias guardadas em guardanapos e agendas. Sou feita de emoções em alta resolução e de pensamentos que abrem outros pensamentos ininterruptamente, como aquelas bonecas russas, sabem quais são?
Mas, na verdade, acho que sou feliz no meio deste caos. Feliz com os meus exageros, com os meus excessos, com a minha mente barulhenta e com as minhas mil ideias mirabolantes. Talvez não fosse eu se tivesse uma alma silenciosa, uma cabeça arrumada por ordem alfabética e um coração com instruções de utilização.
Pelo caminho, quero apenas aprender a viver melhor comigo. A fechar alguns separadores, a silenciar algumas notificações e a descansar quando for preciso, mas sem desligar aquilo que me acende.
Porque, entre tantos pensamentos, hiperligações e separadores, há um que não posso perder de vista: aquele onde guardo a minha alegria e onde, apesar de tudo, continuo a achar graça a esta forma, um pouco estranha e excessiva, de existir.
PB
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