"SUSPENSA" - A pauta da vergonha.

Há dias em que a escola parece ser feita de paredes, pautas, plataformas e regulamentos. Mas não é. A escola é feita de rostos. De alunos que esperam. De pais que perguntam. De professores que tentam acalmar. De diretores que recebem orientações em cima da hora. De funcionários que ficam para lá do seu horário. De gente que, mesmo cansada, continua a tentar que nada falhe, mesmo quando quase tudo já falhou.

Foi isso que se viu nesta trapalhada dos exames nacionais. Não foi apenas um atraso. Não foi apenas uma dificuldade técnica. Não foi apenas mais uma “perturbação” num processo administrativo. Foi a vida de milhares de alunos colocada em suspenso. Literalmente, em alguns casos. Em vez de uma classificação quantitativa, apareceu uma palavra fria, absurda e quase cruel: “suspenso”. Suspenso ficou o aluno. Suspensa ficou a família. Suspensa ficou a decisão de ir ou não à segunda fase. Suspensa ficou a candidatura. Suspenso ficou o verão inteiro de quem tinha o futuro pendurado numa pauta.

Sexta-feira, às 22h30, andava eu, feita louca, de colégio em colégio, a tentar perceber onde tinham saído notas, onde ainda não tinham saído, onde havia pautas, onde havia silêncio, onde havia alunos a chorar, onde havia pais em pânico, onde havia professores a tentar manter a calma que já não tinham. Uns queriam saber se valia a pena repetir o exame. Outros não queriam sequer olhar. Havia quem tivesse nota a nota esperada, quem não tivesse e houve quem tivesse uma classificação inesperada e um vazio burocrático no lugar onde devia estar uma resposta.

E, no meio disto tudo, continuou a linguagem habitual de quem governa à distância da realidade: fala-se em rigor, em transparência, em modernização, em validação, em plataformas, em procedimentos. Palavras grandes, muitas vezes usadas para tapar falhas grandes. Porque o rigor não se proclama: pratica-se. A transparência não se anuncia: garante-se. A modernização não pode ser uma experiência feita em cima dos alunos, dos professores e das escolas, como se todos fossem peças de um ensaio técnico mal testado.

A digitalização dos exames podia ser um avanço. Talvez devesse mesmo ser um avanço. Mas nenhum avanço tecnológico merece esse nome quando nasce sem preparação suficiente, sem robustez, sem comunicação clara, sem plano alternativo e sem respeito pelas pessoas que o têm de executar. A inovação, quando é mal conduzida, não moderniza: desorganiza. E quando desorganiza um processo tão sensível como os exames nacionais, deixa de ser apenas um problema técnico e passa a ser um problema ético.

O mais revoltante foi assistir à tentativa, mais ou menos subtil, de empurrar responsabilidades para baixo. Ora são os professores que não terão colaborado o suficiente. Ora são os diretores que têm de justificar individualmente por que razão não afixaram pautas a correr, depois de receberem ficheiros ao fim do dia, com escolas fechadas, serviços esgotados e equipas a trabalhar no limite. Isto não é justo. Professores e diretores não foram os culpados deste processo: foram também vítimas dele. Foram chamados a apagar fogos que não atearam. Foram responsabilizados por uma desorganização que não criaram. Foram colocados entre a pressão da tutela e a angústia dos alunos.

E, no entanto, foram eles que ficaram. Ficaram nas escolas. Ficaram nos telefones. Ficaram nas plataformas. Ficaram a explicar o inexplicável. Ficaram a consolar alunos que não sabiam se deviam estudar para a segunda fase ou respirar finalmente. Ficaram a acolher pais que queriam respostas e encontravam apenas mais incerteza. Ficaram, porque é isso que a escola faz tantas vezes: segura o país quando o país parece não saber segurar a escola.

Há uma violência silenciosa nestes processos mal conduzidos. Não parte vidros, não faz barulho, não deixa marcas visíveis. Mas instala ansiedade, insegurança e descrença. Um aluno que espera por uma nota não espera apenas por um número. Espera por uma possibilidade. Espera por uma porta. Espera por saber se o esforço valeu a pena. E nenhuma instituição tem o direito de tratar essa espera como um detalhe administrativo.

Os exames nacionais já são, por si só, momentos de pressão enorme. Para muitos alunos, concentram anos de trabalho, expectativas familiares, medo de falhar, projetos de vida e comparações injustas. Acrescentar a isto uma sucessão de falhas, atrasos, mensagens contraditórias e classificações em suspenso é pedir a jovens de 17 ou 18 anos uma resistência emocional que muitos adultos não teriam.

Também os pais foram deixados neste limbo. Pais que passaram o dia a atualizar páginas, a telefonar para escolas, a perguntar a professores, a tentar perceber se havia ou não pauta, se o filho tinha nota, se precisava de inscrição, se devia esperar, se devia reclamar. Pais que tentavam acalmar os filhos enquanto eles próprios estavam sem chão. Pais que confiaram que o sistema, pelo menos neste momento decisivo, funcionaria com seriedade.

E é isso que dói: a quebra de confiança. Porque a escola pública, os exames nacionais e o acesso ao ensino superior assentam numa promessa de justiça. Podemos discutir o modelo, os critérios, o peso dos exames, as desigualdades de partida. Mas, no mínimo, o sistema tem de garantir que todos sabem a sua nota a tempo, em condições iguais, com informação clara e procedimentos fiáveis. Quando uns sabem e outros não, quando uns têm classificação e outros têm “suspenso”, quando umas escolas afixam de noite e outras só podem fazê-lo depois, a confiança fica ferida.

Não se trata de ser contra a mudança. Não se trata de rejeitar a tecnologia. Não se trata de defender que tudo deve continuar como antes. Trata-se de exigir que mudanças desta dimensão sejam preparadas, testadas, acompanhadas e comunicadas com seriedade. A escola não pode ser laboratório de improvisos. Os alunos não podem ser cobaias de plataformas. Os professores não podem ser escudo para falhas de planeamento. Os diretores não podem ser transformados em bodes expiatórios de decisões tomadas longe das escolas.

No fim, talvez alguém diga que tudo se resolveu. Que as notas acabaram por sair. Que os casos em suspenso serão analisados. Que haverá auditorias. Que ninguém será prejudicado. Mas quem esteve no terreno sabe que isto não se mede apenas pelo resultado final. Mede-se pelo pânico instalado. Pelas lágrimas. Pelas horas perdidas. Pela ansiedade desnecessária. Pela sensação de abandono. Pela noite dentro, com escolas abertas, telefones a tocar, professores a responder a mensagens e alunos sem saberem que caminho seguir.

A escola merece mais. Os alunos merecem mais. Os professores merecem mais. Os diretores merecem mais. As famílias merecem mais.

Sobretudo, merecem que quem decide tenha a humildade de reconhecer que governar a educação não é fazer comunicados. É compreender que por trás de cada pauta há uma vida. E que, quando essa vida fica suspensa, não basta pedir “mais um esforço” aos mesmos de sempre.

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