Sol e pés descalços

O verão não chega de repente. Vai-se insinuando. Primeiro na luz que demora mais a ir embora, depois no calor que já não pede licença, e, quando damos por isso, já estamos diferentes — mais soltos, mais leves, quase como se alguém tivesse desapertado um botão invisível dentro de nós.

A casa enche-se de filhos. De mochilas largadas a um canto, de toalhas húmidas, de gargalhadas que ecoam pelos corredores. Há barulho, há desarrumação, há vida. E, curiosamente, é nesse caos meio feliz que tudo faz mais sentido.

As tardes são de praia. De pés descalços, de corridas até à água, de sal na pele e cabelo desalinhado. Há uma liberdade que só o verão sabe dar — como se, por uns meses, ninguém estivesse a avaliar, a medir, a exigir. Somos só nós, inteiros, com o sol a aquecer por fora e uma espécie de luz a acender por dentro.

Ao fim do dia, chegam os petiscos. As conversas sem plano. Os amigos que aparecem e ficam. Fala-se de tudo e de nada, ri-se alto, inventam-se histórias ou repetem-se as mesmas, como se fossem novas. E ninguém quer ser o primeiro a ir embora. Porque há dias assim: em que ficar é a melhor escolha.

A noite cresce devagar. E, mesmo quando tudo acalma, ainda há trabalho para fazer, mensagens para responder, ideias que não se desligam. Mas até isso parece fazer parte — como se a vida fosse esta mistura meio louca de descanso e pressa, de liberdade e responsabilidade. E nós vamos aprendendo a equilibrar, sem nunca acertar totalmente.

Há também saudades. De outros verões, de outras versões de nós, de pessoas que já não estão tão perto — ou já não estão de todo. E isso dói, às vezes. Mas não é um peso constante. É mais como uma lembrança suave de que já fomos muito, já vivemos muito, e isso fica.

E depois há a gratidão. Pelos que estão. Pelos que somos agora. Pelas histórias que ainda estamos a escrever, mesmo sem perceber.

O verão não é só uma estação.

É aquele momento raro em que a vida parece fazer um pouco mais de sentido 


PB

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