Sobre o que é mais precioso
Há dias em que a saúde deixa de ser um dado invisível e passa a ocupar o centro da mesa, como um assunto que ninguém queria trazer, mas que já não pode ser ignorado. Chega devagar, às vezes, noutras irrompe sem aviso, e muda a linguagem dos nossos dias. De repente, aprendemos palavras novas, medimos o tempo em exames, em esperas, em chamadas que tardam.
À minha volta, há quem viva nesse intervalo suspenso, onde tudo ainda pode ser ou não ser. Outros já atravessaram essa porta e carregam agora um nome que redefine rotinas, medos e esperanças. E há também quem vá perdendo, aos poucos, aquilo que julgava permanente, como se o corpo fosse um livro onde algumas páginas começam a desaparecer.
E, no entanto, no meio dessa fragilidade, há uma espécie de delicadeza que emerge. Aproximamo-nos mais. Tornamo-nos mais atentos ao que é pequeno: uma mensagem enviada sem hora certa, um silêncio partilhado, uma mão que se segura por mais tempo do que o habitual. Abraçamo-nos como podemos, presencialmente, quando o mundo permite; à distância, quando não permite; em pensamento, quando nem as palavras chegam.
Falamos todos os dias, ou quase. Repetimos as mesmas perguntas, como se nelas estivesse escondida alguma forma de controlo. Partilhamos o medo, a ansiedade, as noites mal dormidas. E, ainda assim, há sempre um sorriso — às vezes tímido, às vezes cansado, mas incrivelmente persistente, como se recusasse desaparecer.
Talvez seja isto que aprendemos quando a saúde vacila: que estar presente é uma forma de cuidado tão profunda quanto qualquer resposta. Não resolve, não cura, mas sustém. É uma maneira de dizer ao outro: “não sei como isto acaba, mas não te deixo atravessar sozinho.”
No fundo, é isso que nos mantém inteiros, não a ausência de doença, mas a presença uns dos outros.
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