Quase a fazer anos ... o balanço esperado
Há pessoas que nascem com tempo para serem crianças. Eu não tive essa sorte.
Cresci depressa, como crescem certas árvores em sítios difíceis: inclinadas pelo vento, mas teimosas na raiz. Ainda antes de perceber bem o mundo, já o mundo me pedia compostura. Pediam-me juízo, silêncio, obediência, modos. Pediam-me que coubesse num lugar estreito, bem-comportado, sem arestas, sem perguntas a mais.
À mesa, por exemplo, não se falava.
A mesa era um território sério, quase militar. Os talheres tinham mais liberdade do que as palavras. Os adultos decidiam, eu ouvia. A minha opinião raramente era chamada, mesmo quando o assunto era eu. Principalmente quando o assunto era eu.
Cresci a perceber que havia papéis previamente escritos para mim. Filha obediente. Menina calada. Mulher responsável. Pessoa adulta. Pessoa séria. Pessoa que sabe estar. Pessoa que não faz ondas, não levanta a voz, não ri alto, não se entusiasma demasiado, não sonha em voz alta, não acredita em coisas invisíveis.
Mas eu, apesar de tudo, nunca deixei de acreditar.
Talvez seja essa a minha forma mais secreta de resistência: acreditar na magia das coisas.
Não numa magia de truques, cartolas e coelhos brancos. Mas na magia pequena e imensa de ver nascer o sol e pensar: ainda bem que fiquei para ver isto. Na magia de ver o sol pôr-se e sentir que o céu, por breves minutos, escreve cartas de amor a quem ainda sabe olhar para cima.
Comovo-me com o céu. Com as estrelas cadentes. Com a luz a cair devagar sobre as coisas. Com a maneira como a tarde muda de cor sem pedir licença. Comovo-me com abraços. Comove-me, acima de tudo, o abraço dos meus filhos.
E quando me dizem “amo-te muito, mãe”, há qualquer coisa dentro de mim que se desarma. Uma parte antiga, talvez a parte que cresceu depressa demais, encosta-se finalmente a uma parede quente e descansa.
Sou feliz. Muito feliz.
Não é uma felicidade perfeita, arrumada, de catálogo, dessas que parecem ter sido passadas a ferro. É uma felicidade com vincos, com manchas, com dias difíceis, com contas para pagar, com cansaço, com medo, com saudades. Mas é minha. E tem luz.
A minha felicidade mora nas coisas pequenas. No café da manhã. Num livro aberto. Numa conversa inesperada. Numa gargalhada que aparece sem autorização. Numa viagem planeada à pressa. Num abraço demorado. Num aluno que finalmente percebe. Num filho que entra na cozinha e conta qualquer coisa como se o mundo dependesse daquela história.
Na minha casa, hoje, fala-se à mesa.
Fala-se muito.
Fala-se demais, talvez, para quem cresceu em mesas silenciosas. Mas eu gosto assim. Gosto da desarrumação das conversas, dos assuntos que se atravessam, das interrupções, das opiniões que se atropelam, dos risos altos, das ideias disparatadas, dos planos feitos entre uma garfada e outra.
Na minha mesa há política, há música, há dúvidas, há histórias, há sonhos, há pequenas tragédias do dia, há gargalhadas fora de horas. Há filhos que têm voz. Há filhos que discordam. Há filhos que perguntam. Há filhos que sabem que podem falar mesmo quando o assunto é difícil. Sobretudo quando o assunto é difícil.
Criei-os livres.
Livres para pensarem. Livres para dizerem “não concordo”. Livres para terem opinião. Livres para serem inteiros. Livres para não terem medo de mim. Talvez essa tenha sido uma das minhas maiores vitórias: transformar o silêncio que herdei numa casa onde se fala.
Não quero que os meus filhos confundam respeito com medo. Não quero que confundam educação com apagamento. Não quero que cresçam a pedir desculpa por existir em voz alta.
Talvez por isso me custe tanto cumprir certos papéis que esperam de mim.
Esperam, muitas vezes, que eu seja mais adulta. Mais séria. Mais rígida. Mais controlada. Mais previsível. Esperam que eu vista uma espécie de gravidade permanente, como se a maturidade fosse uma sala escura onde não se pode rir.
Mas eu tenho pavor à rigidez.
Tenho pavor a pessoas que se orgulham de nunca se comover. Tenho pavor a casas onde a alegria pede licença. Tenho pavor a mesas onde as crianças aprendem que a sua voz incomoda. Tenho pavor a essa ideia de que crescer é deixar de sonhar.
Eu cresci depressa demais. Precisamente por isso, recuso-me agora a envelhecer por dentro.
Continuo a sonhar muito. Sonho acordada, sonho distraída, sonho enquanto conduzo, sonho enquanto arrumo a cozinha, sonho enquanto olho para o céu como quem procura sinais. Acredito em coincidências que talvez não sejam coincidências. Acredito que há pessoas que nos chegam como respostas. Acredito que há dias que nos salvam sem fazer barulho.
E abraço.
Abraço muito.
Abraço com os braços, sim, mas também abraço com o coração. Há pessoas que se aproximam de mim e talvez nem saibam que eu já as abracei antes de tocar nelas. Abraço quando escuto. Abraço quando me importo. Abraço quando fico. Abraço quando digo “vai correr bem” e tento, com todas as minhas forças, que isso seja verdade.
Talvez eu nunca venha a ser a adulta que esperavam.
Talvez nunca saiba estar suficientemente séria nas fotografias. Talvez me entusiasme demais. Talvez ria alto demais. Talvez me comova com facilidade. Talvez continue a achar que um pôr do sol pode mudar o dia de uma pessoa. Talvez continue a pedir desejos às estrelas cadentes, mesmo sabendo que as estrelas cadentes são pedras em combustão e que a ciência explica quase tudo, menos o que sentimos quando as vemos atravessar o céu.
Mas há uma coisa que sei: a vida não me endureceu tanto como podia.
E isso, para mim, é uma vitória.
A vida tentou ensinar-me a ser rígida, mas eu aprendi a ser terna. Tentou ensinar-me o silêncio, mas eu escolhi a conversa. Tentou ensinar-me o medo, mas eu escolhi criar filhos livres. Tentou convencer-me de que ser adulta era perder a magia, mas eu continuo aqui, a comover-me com o sol, com os abraços, com as palavras, com os gestos pequenos, com a possibilidade absurda e maravilhosa de ainda haver beleza depois de tudo.
Nunca serei demasiado séria.
Não quero ser.
Quero ser responsável, sim. Inteira. Presente. Capaz. Mas não quero ser dura. Não quero ser fria. Não quero ser uma casa onde ninguém se atreve a cantar. Quero continuar a ter dentro de mim uma criança que olha para o céu e acredita. Uma mulher que sabe o peso da vida, mas ainda assim escolhe a leveza. Uma mãe que escuta. Uma pessoa que se emociona.
Porque talvez a importância da vida seja esta: não deixarmos que nos roubem a capacidade de espanto.
Crescemos. Perdemos. Choramos. Trabalhamos. Cuidamos. Falhamos. Recomeçamos. Mas, se tivermos sorte, continuamos a reparar na luz.
E eu reparo.
Reparo todos os dias.
No sol que nasce. No sol que se põe. Na voz dos meus filhos. Na mesa cheia de conversas. Nas estrelas que caem. Nos abraços que ficam. Na magia discreta das coisas simples.
Talvez eu não tenha tido tempo de ser criança quando era criança.
Mas agora, sempre que rio alto, sempre que sonho, sempre que abraço alguém com o coração inteiro, devolvo-me um bocadinho a mim mesma.
E isso também é viver.
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