o que de mim vive em cada um de vós

Cada pessoa que passa pela nossa vida leva consigo uma versão de nós. Não necessariamente aquela que julgamos ser a mais bonita. Nem sequer aquela que gostaríamos que recordasse. Leva a versão a que teve acesso, no tempo em que nos conheceu, à distância a que conseguiu chegar e com os olhos que tinha para nos ver.

Há pessoas que ainda guardam de mim a criança que fui.

Talvez se lembrem da menina que cresceu entre gente trabalhadora, numa família onde as coisas não apareciam por milagre e onde o esforço não era uma qualidade: era uma forma de viver. A menina que aprendeu cedo que quase tudo custa, que o pão tem o peso das mãos que o amassaram e que nenhuma conquista nos autoriza a esquecer o chão de onde viemos.

Essa criança continua dentro de mim. Não como uma fotografia antiga, guardada numa gaveta, mas como uma espécie de bússola. É ela que me impede de perder o norte quando a vida corre bem. É ela que me recorda que os títulos, os lugares e as conquistas são apenas circunstâncias e que ninguém se torna maior só porque subiu alguns degraus.

Sou neta e filha de pessoas que trabalharam muito.

De pessoas que talvez não tenham tido todas as oportunidades, mas que me ensinaram a não desperdiçar nenhuma. Pessoas que não me deixaram heranças grandiosas, mas me deram qualquer coisa mais importante: a consciência de que aquilo que somos não se mede pelo lugar onde chegámos, mas pela forma como tratamos quem encontramos no caminho.

Há também quem conheça apenas a professora.

A professora firme, enérgica, exigente. Aquela que entra numa sala como quem entra num território que precisa de ser organizado. A que fala alto, pede mais, não aceita facilmente o «não consigo» e, por vezes, parece acreditar nas capacidades dos alunos com mais teimosia do que eles próprios.

Alguns guardarão de mim a imagem de uma mulher exigente. Outros talvez recordem que, por trás de cada exigência, havia uma espécie de fé.

Porque exigir também pode ser uma forma de amar. Nem sempre a mais delicada, reconheço, mas, por vezes, a única capaz de dizer a alguém: eu sei que és capaz de mais, mesmo que tu ainda não saibas.

Há alunos que talvez se lembrem de mim como uma fera. Assertiva, determinada, pouco disponível para injustiças, desculpas fáceis ou indiferenças convenientes. Uma mulher que não se cala quando alguém é deixado para trás. Que tem dificuldade em aceitar que a vida distribua oportunidades de forma tão desigual e que depois ainda culpe os que receberam menos por não terem chegado ao mesmo lugar.

Tenho dentro de mim qualquer coisa de Dom Quixote, na tendência que tenho para combater moinhos, mesmo quando todos me garantem que são apenas moinhos, na incapacidade que tenho de assistir tranquilamente a certas injustiças e na convicção, talvez ingénua, de que algumas batalhas merecem ser travadas, mesmo quando não podem ser vencidas.

Mas também tenho muito de Sancho Pança. A parte que sabe que é preciso comer, dormir, pagar contas, chegar a horas e não confundir todos os sonhos com profecias. A mulher prática que resolve, organiza, faz listas e percebe que, para mudar o mundo, é conveniente começar por encontrar as chaves do carro.

Sou, talvez, uma conversa permanente entre os dois. Uma parte de mim quer salvar o mundo, a outra lembra-me de pôr a máquina da roupa a trabalhar.

Sou diariamente feita destas contradições. Sou fortaleza e fragilidade. Sou consolo e, tantas vezes, preciso de ser consolada. Sou a pessoa a quem telefonam quando alguma coisa corre mal e, ao mesmo tempo, aquela que por vezes gostaria que alguém reparasse, sem ser preciso explicar, que também há dias em que não sei o que fazer comigo.

Há quem conheça apenas o meu lado luminoso.

A mulher que ri, que conta histórias, que encontra humor no absurdo e que parece transportar sempre uma janela aberta para o verão. A que fala depressa, pensa ainda mais depressa e tem dentro da cabeça demasiadas ideias a tentar passar ao mesmo tempo por uma porta estreita.

As pessoas habituam-se à luz. E, quando se habituam, deixam por vezes de perguntar quanto custa mantê-la acesa.

Há quem imagine que as pessoas alegres não ficam tristes. Que as pessoas fortes não se cansam. Que quem costuma cuidar não precisa de ser cuidado. Como se a alegria fosse uma condição permanente e não, tantas vezes, uma escolha diária.

Mas algumas pessoas chegaram mais perto.

Viram-me cansada, despenteada, com sono e sem frases bonitas para oferecer. Viram-me em dias em que a luz estava baixa, em que os olhos se enchiam de lágrimas antes de eu conseguir inventar uma explicação razoável.

Conheceram a mulher que não tinha sempre respostas para todos os momentos da vida. Aquela que se senta em silêncio, que duvida, que tem medo, que se pergunta se está a fazer tudo bem. A mulher que também precisa de colo, embora nem sempre saiba pedi-lo. Que consegue defender os outros com uma coragem que nem sempre encontra quando se trata de se defender a si própria.

Talvez esses sejam os que mais me conhecem, mesmo sabendo que ninguém conhece inteiramente outra pessoa. Nem sequer aqueles que partilham connosco a casa, os dias, os anos, a vida e os silêncios. Talvez seja por isso que quem vive comigo há muitos anos diz que há sempre alguma coisa nova a descobrir em mim.

Não sei se isso é uma qualidade ou apenas uma forma elegante de dizer que sou imprevisível. Mas gosto de pensar que é porque não estou acabada.

Há pessoas que vivem como casas já construídas: as divisões estão definidas, as paredes pintadas, os móveis sempre no mesmo lugar. Eu sinto-me mais como uma casa em obras. Há sempre uma parede a cair, uma janela a abrir, um compartimento cuja utilidade ainda não compreendi.

Faço em mim um trabalho diário de reconstrução.

Por vezes, acordo e encontro destroços de versões antigas. Ideias que já não me servem. Medos que ocuparam espaço durante demasiado tempo. Culpas que entraram sem autorização e se instalaram como se pagassem renda.

Então, tento arrumar a minha casa interior. Nem sempre consigo. Há dias em que apenas mudo o caos de lugar. Mas continuo sempre nesse trabalho interior de quem se questiona verdadeiramente.

Não me questiono porque tenha a ilusão de me tornar perfeita. A perfeição sempre me pareceu uma espécie de mobília inútil: ocupa demasiado espaço e ninguém se sente verdadeiramente confortável perto dela.

Questiono-me porque quero continuar a crescer. Crescer não para cima, como as árvores, mas para dentro, como as raízes.

Nestes momentos a sós comigo relembro-me que já sofri muito, embora me recuse a deixar que o sofrimento me defina. O sofrimento é apenas uma coisa que nos acontece, não uma identidade. Pode atravessar-nos, alterar-nos, deixar marcas e mudar para sempre a forma como olhamos determinadas paisagens. Mas não deve ter o direito de escolher tudo aquilo em que nos tornamos.

Já perdi pessoas.

Algumas para a morte. Outras para a vida, que também sabe separar com uma eficácia assustadora. Há pessoas que continuam no mundo, mas desapareceram do nosso. E há outras que partiram do mundo e continuam estranhamente presentes em quase tudo.

Mas não deixei que as perdas me tornassem amarga. Não quero viver assim.

Prefiro transformar as ausências em cuidado. Lembrar-me de perguntar pelas pessoas enquanto ainda cá estão. Dizer-lhes que gosto delas, mandar uma mensagem a meio da tarde só para dizer «lembrei-me de ti», para que as minhas amigas saibam que nunca estou demasiado ocupada para elas.

Já passei dificuldades.

E talvez seja precisamente por isso que não consigo olhar para as dificuldades dos outros como se fossem apenas falta de esforço.

Nem toda a gente começa no mesmo ponto. Alguns começam a corrida muitos metros atrás, carregando pesos que ninguém vê. Outros correm num terreno plano e convencem-se de que a velocidade é apenas mérito.

Eu sei de onde vim. E não quero esquecer-me. As origens não devem ser uma âncora que nos impede de avançar, mas também não podem ser uma terra que abandonamos assim que conseguimos sair dela. São o lugar interior a que regressamos para não nos confundirmos com aquilo que conquistámos.

Tenho como lema que não é aquilo que nos acontece que define quem somos, mas aquilo que fazemos com o que nos acontece.

A vida entrega a cada pessoa materiais diferentes. Pedras, madeira, vidro, lama. Nem sempre podemos escolher aquilo que recebemos. Mas, dentro de certos limites, podemos decidir se construímos uma casa, uma ponte, um muro ou uma prisão.

Nem todos os dias faço boas escolhas. Por vezes, construo muros onde precisava de pontes. Fecho portas demasiado depressa. Respondo antes de escutar até ao fim. Confundo cansaço com falta de amor e medo com irritação.

Nem todos os dias faço boas escolhas, mas tento perceber e avançar.

Esmiúço-me, como quem desmonta um relógio para descobrir por que razão os ponteiros se atrasam. Analiso cada parte, mesmo sabendo que, depois de tudo desmontado, sobram sempre algumas peças cuja função desconheço.

Talvez seja isso que somos: mecanismos imperfeitos, cheios de pequenas peças que nem nós conseguimos explicar.

Cada pessoa leva, portanto, uma imagem de mim.

Há quem conheça muito porque teve curiosidade. Porque ficou tempo suficiente. Porque não se contentou com a superfície nem confundiu a minha maneira de enfrentar o mundo com a totalidade daquilo que sou.

Conhecer alguém exige tempo.

E exige uma espécie de generosidade do olhar.

É preciso aceitar que uma pessoa não é apenas aquilo que fez no pior dia, nem aquilo que mostrou no melhor. Que ninguém cabe numa frase, num diagnóstico, numa discussão ou numa fotografia.

Há quem conheça apenas a superfície porque nunca procurou ver para lá do óbvio. Vivem demasiado ocupados para reparar no que quer que seja ou em alguém, mesmo alguém a quem chamam «amigo».

E há os que não gostam de mim. Esses também constroem uma versão. Escolhem os episódios que confirmam aquilo em que já decidiram acreditar. Interpretam cada gesto de acordo com a história que criaram. Se sou firme, sou arrogante. Se me calo, sou indiferente. Se falo, quero aparecer. Se me afasto, sou fria. Se me aproximo, sou excessiva.

Há olhares que não procuram conhecer: procuram apenas confirmar.

Diz-se que, quando Pedro fala de Paulo, ficamos muitas vezes a saber mais sobre Pedro do que sobre Paulo.

Talvez seja verdade.

Aquilo que vemos nos outros passa sempre pelo filtro daquilo que somos. As pessoas não nos observam através de uma janela transparente. Olham-nos por vidros onde também estão refletidos os seus medos, preconceitos, desejos e feridas.

Por isso, algumas versões de nós que vivem nos outros não nos pertencem verdadeiramente.

Pertencem a quem as inventou.

Mas uma pessoa não é um instante. É uma sucessão de versões, contradições, quedas e recomeços. É tudo aquilo que mostrou e tudo aquilo que não conseguiu dizer. É as decisões que tomou e aquelas de que desistiu. É o que fez aos outros e aquilo que fez consigo mesma quando ninguém estava a ver.

Talvez os verdadeiros amigos sejam os que conhecem várias versões de nós e não exigem que escolhamos apenas uma. Os que conhecem a força sem se assustarem com a fragilidade.

Os que respeitam a independência, mas percebem quando é preciso aproximar uma cadeira para se sentarem e nos escutarem.

Os que compreendem e aceitam que a pessoa luminosa também tem dias escuros.

Os que sabem que uma fera também pode precisar de colo.

Talvez ninguém conheça todos os nossos lados. Talvez existam quartos dentro de nós onde nunca entrou ninguém. Mas há pessoas que se aproximam.

Não porque saibam tudo, mas porque continuam a perguntar. Não porque tenham decifrado o enigma, mas porque não desistiram de o ler.

São essas que conhecem um poucomais de nós: as que não chegam com definições prontas. As que aceitam rever aquilo que pensavam saber. As que compreendem que conhecer alguém não é chegar a uma conclusão, mas aceitar acompanhar a nossa transformação.

Cada pessoa que passa pela nossa vida leva consigo uma versão de nós. Não necessariamente aquela que julgamos ser a mais bonita. Nem sequer aquela que gostaríamos que recordasse. Leva a versão a que teve acesso, no tempo em que nos conheceu, à distância a que conseguiu chegar e com os olhos que tinha para nos ver.

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