O hall de entrada

Há pessoas que entram na nossa vida como quem toca à campainha com delicadeza.

Não insistem. Não batem com força. Não espreitam pelas janelas, nem tentam adivinhar o que guardamos atrás das cortinas. Ficam apenas ali, do lado de fora, com a paciência tranquila de quem sabe que certas portas não se abrem por pressão. Abrem-se quando se sentem seguras.

Eu sempre fui uma casa difícil de visitar. Não porque não goste de pessoas. Gosto muito de pessoas. Talvez até goste demasiado. E talvez seja precisamente por isso que aprendi a proteger-me delas.

Sou perita em esquivar-me. Em inventar compromissos quando o verdadeiro compromisso é ficar em casa. Em trocar uma sala cheia de gente pelo silêncio do meu sofá, uma conversa aos gritos pelo som discreto dos meus pensamentos. Sou ligeiramente tímida, bastante introvertida e profundamente fiel à minha concha. Há dias em que o meu mundo interior me chega. Há dias em que até me sobra.

Fujo de grandes aglomerados, de confusões, de lugares onde é preciso disputar espaço para existir. Não sei falar por cima das outras pessoas. Não sei entrar numa conversa aos empurrões. Não sei ser uma presença barulhenta. Prefiro os cantos, as mesas pequenas, os cafés demorados e as pessoas que não se assustam com os silêncios.

Durante muito tempo, achei que isto era apenas feitio. Hoje penso que talvez seja também memória.

As desilusões não desaparecem quando passam. Ficam em nós de outras maneiras. Transformam-se em fechaduras, em trincos, em alarmes demasiado sensíveis. Cada pessoa que nos magoa deixa uma pequena instrução escrita numa parede: cuidado. Não confies tão depressa. Não abras completamente a porta. Não deixes ninguém saber onde guardas as coisas frágeis.

E assim fui construindo uma espécie de casa emocional.

Primeiro levantei as paredes. Depois instalei uma porta forte. Acrescentei algumas janelas, mas com cortinas. Por fim, criei um hall de entrada.

O hall de entrada do meu coração é um lugar bonito. Não é frio nem desagradável. Tem luz, alguns livros, um tapete confortável e talvez até uma jarra com flores. Recebo ali muitas pessoas. Converso com elas, escuto-as, rio, conto algumas histórias. Deixo-as pousar o casaco e ficar um pouco.

Mas o hall continua a ser um hall e continua a ser uma fronteira.

É o lugar onde deixo as pessoas antes de decidir se podem avançar. Um espaço suficientemente próximo para haver afeto, mas suficientemente distante para ainda não haver perigo. Ali, ninguém vê verdadeiramente a casa. Ninguém sabe onde range o chão, onde entra chuva, onde escondo as fotografias antigas ou em que gaveta guardo as saudades que ainda não aprendi a arrumar.

Poucas pessoas atravessam a porta seguinte.

Muito poucas.

Para entrar na sala é preciso tempo. É preciso delicadeza. É preciso não ter pressa de conhecer todos os quartos. É preciso compreender que a confiança não é uma chave que se entrega: é uma porta que se vai abrindo por dentro. Talvez seja por isso que, para mim, aceitar um almoço nunca é apenas aceitar um almoço. Beber um café nunca é apenas beber um café. Sair de casa para conversar nunca é apenas sair de casa para conversar.

Quando alguém consegue arrancar-me aos meus livros, às minhas rotinas e à segurança silenciosa do meu mundo, conseguiu qualquer coisa de extraordinário. Talvez a outra pessoa nem perceba. Talvez pense que apenas combinámos um lanche às quatro, que partilhámos uma refeição ou que ficámos duas horas a falar numa esplanada.

Mas eu sei que aconteceu mais do que isso. Houve uma porta que se abriu e houve uma cadeira que foi puxada para mais perto.

Houve alguém que deixou de estar no hall de entrada e foi convidado a sentar-se no sofá.

E, ainda assim, nem todas as pessoas que chegaram ao sofá souberam compreender o que significava terem chegado até ali.

Há pessoas a quem, um dia, permiti atravessar o hall. Pessoas a quem abri a porta, mostrei algumas divisões e deixei conhecer lugares de mim onde quase ninguém entra. Mas que, mesmo já dentro da casa, permaneceram frias e distantes, como se nunca tivessem percebido que a confiança que lhes dei era rara.

Talvez algumas pessoas pensem que todas as portas ficam abertas para sempre. Que podem entrar, sair, afastar-se, regressar e encontrar tudo exatamente como deixaram.

Mas não é assim que a minha casa funciona.

Demoro muito a deixar alguém chegar até mim. Observo, espero, hesito. Dou pequenos passos e recuo outros tantos. Mas, quando finalmente deixo alguém entrar e essa pessoa me desaponta, me devolve frieza, distância ou indiferença, alguma coisa se fecha dentro de mim.

E há portas que, depois de se fecharem por dentro, já não voltam a abrir para a mesma pessoa.

Isso não significa necessariamente que deixe de falar com ela. Posso continuar a cumprimentar, a conversar, mas não voltarei a partilhar uma mesa ou até a beber um café. Posso continuar a tratá-la com educação e respeito, mas já não é intimidade: é apenas e só cordialidade.

Essas pessoas regressam ao hall de entrada. Podem voltar a tocar à campainha, mas já não têm direito a entrar.

Não porque eu queira castigá-las, mas porque aprendi que proteger o que existe de mais delicado em nós também é uma forma de amor-próprio.

Talvez perdoar seja permitir que alguém continue a existir na nossa vida sem lhe devolver o lugar que perdeu.

Porque há lugares que se conquistam devagar, mas que podem perder-se num instante. E, uma vez perdidos, nunca mais voltam a ser exatamente os mesmos.

Há pessoas que coloquei novamente no lugar de onde talvez nunca devessem ter saído. E uma coisa sei: poderão continuar no hall, mas nunca mais atravessarão aquela porta.

Esta semana, no entanto, tive alguns almoços, lanches e cafés. Para algumas pessoas, isso não teria nada de especial. Há quem viva rodeado de encontros, quem faça da agenda uma espécie de praça pública. Para mim, porém, foi quase uma revolução doméstica.

A casa encheu-se. Não de multidões, porque continuo a não gostar de multidões, mas encheu-se de presenças, de conversas. de risos e de novas histórias.

Esta semana deixei entrar pessoas novas na minha vida. E dizer isto pode parecer simples, mas, para mim, não é.

Durante muito tempo, confundi proteção com isolamento. Pensei que estaria mais segura se ninguém chegasse demasiado perto e viesse desarrumar a minha tranquilidade. Mas se por um lado estava mais segura, por outro lado tenho gostado de aprender a viver com alguma desarrumação.

Claro que continuo a ser eu: continuo a precisar de regressar a casa, fechar a porta e ouvir o silêncio. Continuo a escolher poucos em vez de muitos, profundidade em vez de ruído, conversas demoradas em vez de encontros apressados.

Mas já não mantenho todas as portas fechadas. Há pessoas novas a quem tenho dito: entre.

Não com palavras, talvez, mas, digo-o quando aceito ir beber um café, quando prolongamos o almoço muito para além da sobremesa, quando conto uma história que normalmente guardaria para mim, quando recebo alguém em casa e quando deixo que percebam que, por trás das minhas reservas, existe uma pessoa cheia de afetos, entusiasmos, imaginação e uma vontade enorme de gostar sem voltar a perder-se.

Essas pessoas talvez não saibam, mas conseguiram algo raro esta semana.

Ganharam a minha confiança, ganharam o meu afeto, saíram do hall de entrada, atravessaram a porta e sentaram-se no sofá.

E eu, que durante tanto tempo achei que abrir a casa era uma forma de fragilidade, começo finalmente a perceber que talvez seja o contrário.

Talvez seja coragem. Não a coragem de deixar a porta escancarada para qualquer pessoa entrar, mas a de saber escolher quem pode entrar e, também, a de saber fechar a porta quando alguém não sabe cuidar do lugar que lhe foi dado.

Esta semana, entre almoços, lanches e cafés, senti-me feliz. Feliz por ter saído de casa e me ter dado um pouco mais aos outros, feliz por descobrir que ainda sou capaz de abrir a porta e deixar atravessar o hall.

A casa continua a ser minha e a concha continua a existir, mas agora há vozes novas na sala.

E isso, para alguém como eu, é uma forma muito bonita, e até rara, de milagre.

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