O granito não esquece a montanha

Hoje é Dia dos Avós.

E eu lembro-me dos meus.

Lembro-me da minha avó Gracinda e do meu avô Miguel como quem abre a porta de uma casa antiga onde o lume continua aceso. Uma casa onde o tempo não conseguiu apagar as vozes, os cheiros, as histórias e aquela sensação rara de estarmos exatamente no lugar a que pertencemos.

A minha avó Gracinda era uma verdadeira mulher da Serra da Estrela. Nascera numa aldeia serrana, onde os invernos endurecem as pedras e ensinam as pessoas a resistir.

Era uma mulher feita de força, mas de uma força que não precisava de fazer barulho. A força da teimosia, da persistência e dos dias difíceis atravessados sem desistir.

Caminhou descalça sobre a neve, levando uma filha ao colo, porque era preciso trabalhar, ajudar o meu avô e continuar. Naquele tempo, desistir não era sequer uma possibilidade.

Do pouco fizeram muito.

Trabalharam de manhã à noite, aos sábados, aos domingos e nos dias santos, porque a pobreza raramente respeita calendários e a terra não conhece feriados.

A minha avó cantava bem. Tocava adufe e contava as melhores histórias de encantar. Histórias que não vinham escritas em livros, mas que entravam pelos ouvidos e ficavam a morar dentro de nós.

Talvez tenha sido ela a ensinar-me que as palavras podem salvar-nos, muito antes de eu saber que um dia iria precisar tanto delas.

Tinha olhos negros, pele clara e era linda.

Tão linda.

Não apenas daquela beleza que se vê nas fotografias, mas da beleza das mulheres que carregam o mundo às costas e, ainda assim, encontram forças para cantar.

O meu avô Miguel tinha uns olhos azuis, límpidos, quase transparentes. Não sabia ler nem escrever, mas foi um dos homens mais sábios que conheci.

Ensinou-me a contar e a fazer contas de cabeça. Talvez por isso eu tenha aprendido cedo que há inteligências que não cabem nos diplomas e sabedorias que nunca passaram por uma escola.

Tinha jeito para o negócio e uma extraordinária capacidade de transformar pouco em muito. Dele herdei a minha alma empreendedora, a vontade de começar projetos, de inventar caminhos quando não existe estrada e de acreditar que quase tudo pode ser construído a partir de quase nada.

Mas o meu avô ensinou-me muito mais do que números.

Ensinou-me as estações do ano e as colheitas próprias de cada uma. Ensinou-me que há um tempo para plantar e outro para colher. Que não se pode exigir uma maçã à macieira antes de ela estar preparada. Que não se deve desenterrar uma semente todos os dias para confirmar se já criou raízes.

Ensinou-me a esperar.

E esperar, percebi mais tarde, não é ficar parada. É confiar no trabalho silencioso das coisas. É acreditar que, debaixo da terra aparentemente vazia, alguma coisa se está a preparar para nascer.

O meu avô cuidava da terra, plantava e colhia. E trazia sempre para mim a primeira fruta do pomar.

As primeiras maçãs.

As primeiras cerejas.

Os primeiros pêssegos.

Antes de provar o fruto do seu trabalho, lembrava-se de mim.

Talvez o amor seja precisamente isso: guardar para alguém a primeira fruta da estação.

Nunca me faltaram com nada. E, graças aos dois, a minha infância foi um pouco menos triste.

Quando estava com eles, tudo parecia fácil. Eu era livre e o mundo era um lugar bom para existir. Ali não precisava de provar nada. Não precisava de ser forte, perfeita ou responsável. Podia simplesmente ser uma criança.

Foram os meus primeiros grandes amigos.

Os melhores.

Os mais verdadeiros.

Foram a minha estrutura e o meu pilar. Foram colo, abrigo e amor. Um colo-em-forma-de-casa, onde o corpo descansava e a alma podia finalmente baixar a guarda.

Ainda hoje falo com eles.

Todos os dias.

Pergunto-lhes o que fariam quando tenho dúvidas. Conto-lhes os meus medos. Peço-lhes ajuda quando não sei que caminho seguir. E fico, por vezes, à espera de um sinal.

Quem pode garantir que não respondem?

Quando vejo uma borboleta branca, lembro-me deles. Quando vejo uma borboleta amarela, penso no meu pai. E gosto de acreditar que são eles que as enviam, apenas para me dizerem:

Estamos aqui. Continua.

Não duvido de que me conduzem. Não duvido de que me protegem. Não duvido de que, de algum modo que não consigo explicar, continuam a dar-me a mão.

Durante muitos anos conservei a força e a garra da minha avó. Passei aos meus filhos os ensinamentos do meu avô sobre as estações, as colheitas e os ciclos da natureza.

Mas, há alguns anos, a vida quebrou-me.

Não sei dizer exatamente como, nem em que momento começou. Talvez as pessoas não se partam de uma só vez. Talvez se vão partindo aos poucos, em pequenas fissuras que ninguém vê, até que um dia já não reconhecem a pessoa que encontram ao espelho.

Deixei de acreditar.

Deixei de confiar em mim.

Esqueci-me de que as estações mudam e convenci-me de que aquele inverno duraria para sempre.

Passei a viver em piloto automático. A ansiedade entrou sem pedir licença e instalou-se como se a casa lhe pertencesse. A dúvida ocupou os quartos. A angústia sentou-se à mesa. E eu comecei a atravessar os dias apenas porque era preciso chegar ao outro lado.

Este foi, talvez, o ano mais pesado.

Chorei algumas vezes. Tremi noutras. Tive medo dos desafios. Senti-me aquém de mim própria e das expectativas que os outros depositavam em mim.

Houve dias em que acordei com um peso no peito. Outros em que me deitei ansiosa e acordei ainda pior. Houve muita fragilidade e foi preciso uma força imensa para continuar a ser o porto seguro daqueles que esperam tanto de mim.

Mas nem os portos seguros estão protegidos das tempestades.

Houve dias em que foram as explicações e os meus alunos que me salvaram. Eles não sabiam, mas, ao pedirem-me que explicasse um exercício, uma fórmula ou um problema, obrigavam-me também a regressar ao mundo.

Faziam-me lembrar que eu ainda era necessária. Que ainda tinha alguma coisa para ensinar. Que a minha voz ainda conseguia iluminar caminhos.

E houve aquela amiga que, mesmo longe, continuou a ser porto de abrigo. A amiga que acreditou em mim quando eu própria já não conseguia e que não me deixou cair.

Uma não larga a mão da outra.

Não largou.

E talvez tenha sido assim, através de muitas mãos, visíveis e invisíveis, que consegui regressar.

Este verão, finalmente, comecei a voltar a mim.

Depois de bater no fundo, levantei os olhos devagar e olhei em volta.

Olhei para o que tenho.

Para quem tenho.

Para quem sou.

E percebi que a antiga Paula não tinha desaparecido. Estava apenas cansada. Escondida. Encolhida dentro de mim, à espera de que eu voltasse a chamá-la pelo nome.

A “velha” Paula está de volta.

Não exatamente a mesma, porque ninguém regressa de uma tempestade igual ao que era antes. Regresso com cicatrizes e com uma consciência mais profunda da minha fragilidade. Mas regresso também mais inteira e mais verdadeira.

A alegria voltou a acompanhar-me logo pela manhã.

Voltei a acordar com vontade de viver, como se cada manhã fosse manhã de Natal e houvesse alguma coisa boa à minha espera do outro lado da porta.

Voltei a abrir as janelas.

Voltei a reparar no céu, nas árvores, na luz e nas pequenas coisas que continuam belas mesmo quando estamos demasiado tristes para as ver.

Voltei a ter tempo para as minhas amigas de sempre.

Fiz novas amigas.

Voltei a conversar, a rir e a estar verdadeiramente presente. Voltei a sorrir sem ter de pensar primeiro se havia motivos suficientes para isso.

Recuperei a vontade de fazer coisas novas, de começar mil projetos, de inventar, de sonhar e de construir caminhos para além do que parece razoável.

Regressou a mulher que acredita que, do pouco, se pode fazer muito. A mulher que herdou do avô Miguel a capacidade de criar caminhos e da avó Gracinda a teimosia necessária para os percorrer.

Voltei a confiar em mim e naquilo que sou capaz de fazer.

Perdi o medo.

A ansiedade deixou de comandar os meus passos.

E a angústia já não mora aqui.

Talvez um dia volte a bater à porta. As coisas que nos magoaram conhecem bem o caminho de regresso. Mas agora sei que não tenho de as deixar entrar.

Hoje, Dia dos Avós, penso nos meus e em tudo o que me deixaram.

Não deixaram apenas memórias.

Deixaram-me uma maneira de estar no mundo.

A força da minha avó está nas vezes em que me levanto, mesmo quando o chão está coberto de neve. A sabedoria do meu avô está nas vezes em que sei esperar pela estação certa.

O amor dos dois está em cada fruto que ofereço primeiro aos outros, em cada aluno que acolho, em cada filho que protejo e em cada amiga a quem estendo a mão.

Os nossos mortos não desaparecem completamente. Mudam apenas de lugar.

Passam a viver nos nossos gestos, nas nossas palavras, nas histórias que contamos e na coragem que encontramos quando julgávamos já não ter nenhuma.

Hoje lembro-me da verdade que me deixaram:

O mundo é uma história de heróis, não de vencidos.

E lembro-me de que também eu nasci na serra.

Também eu sou filha da neve fria e dos verões quentes. Também eu fui moldada pelos invernos, pelas pedras, pelo vento e pelas encostas difíceis.

O granito está no meu ADN.

O granito pode rachar. Pode ser ferido pelo tempo, pelo frio e pelas tempestades. Mas não esquece a montanha a que pertence.

E eu também não posso esquecer aquilo que o meu pai me dizia:

Tu és forte. Tu és capaz. E podes ser tudo o que tu quiseres, menos infeliz.

Durante algum tempo, esqueci-me.

Mas agora voltei a lembrar-me.

Hoje, quando acordo, já não sinto que tenho apenas mais um dia para atravessar.

Sinto que tenho um dia para viver.

Voltei.

Voltei às minhas raízes.

Voltei às minhas pessoas.

Voltei aos sonhos, aos projetos, ao riso e às manhãs cheias de possibilidades.

Talvez a “velha” Paula não tenha regressado.

Talvez tenha regressado uma Paula nova, feita de todas as que já foi: a menina que corria livre junto dos avós, a mulher que cuidou de todos, a mulher que se perdeu e a mulher que encontrou finalmente o caminho de casa.

Hoje recordo os meus avós.

O seu colo-em-forma-de-abrigo.

As primeiras cerejas.

O som do adufe.

As histórias de encantar.

Os olhos negros da minha avó.

Os olhos azuis do meu avô.

E tenho a certeza de que, onde quer que estejam, sabem que voltei.

Talvez sejam aquelas borboletas brancas que continuam a passar perto de mim.

Talvez estejam apenas a verificar se me lembro.

Lembro-me, avó.

Lembro-me, avô.

O mundo é uma história de heróis, não de vencidos.

E a vossa neta voltou de novo para escrever a sua.

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