Nunca tarde demais
“Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias.”
Talvez só possa ser verdadeiramente feliz quem já conheceu a tristeza. Não porque a dor seja uma condição obrigatória para a felicidade, nem porque o sofrimento nos torne automaticamente melhores, mas porque quem caiu fundo no abismo aprende a reconhecer a escuridão nos olhos dos outros.
Há dores que nos alargam por dentro.
Depois delas, já não conseguimos olhar para alguém que sofre com a mesma distância. Passamos a saber que há silêncios que não significam indiferença, ausências que escondem batalhas e sorrisos que são apenas uma forma delicada de não desabar diante dos outros.
Ninguém possui verdadeira empatia por aquilo que desconhece completamente. Podemos imaginar, tentar compreender, oferecer palavras, mas há territórios que só se conhecem depois de percorridos. Sabemos sempre muito acerca das nossas próprias verdades, mas falta-nos quase sempre experimentar o mundo com os sapatos do outro.
E os sapatos do outro podem apertar onde os nossos nunca apertaram. Podem carregar pedras que não vemos, percorrer caminhos que nunca tivemos de enfrentar ou atravessar desertos para os quais não possuímos sequer um nome.
Só quem experimentou uma perda profunda aprende verdadeiramente a situar-se perante a vida. Aprende que há um antes e um depois. Que o mundo continua a girar, embora alguma coisa dentro de nós tenha parado. Que as pessoas regressam às suas rotinas enquanto nós tentamos descobrir como se respira num mundo onde alguém deixou de existir.
A vida já me roubou muitas pessoas.
Talvez seja por isso que sou tão apegada aos que me são queridos. Talvez seja por isso que cuido, que procuro, que pergunto, que tento estar. Não é apenas amor. É também medo.
Tenho medo de os perder.
Tenho medo das palavras que possam ficar por dizer, dos abraços adiados, das visitas que nunca aconteceram, das mensagens que pensei enviar e deixei para amanhã. Tenho medo de chegar a um dia em que já não seja possível reparar uma ausência e ter de viver com a pergunta:
“Porque não estive mais presente?”
Sou apegada às minhas amigas porque não quero olhar para trás e pensar que poderia ter estado mais perto. Que poderia ter escutado melhor. Que poderia ter aparecido naquele dia em que talvez precisassem de mim, mesmo sem terem pedido.
Não quero dizer um dia:
“Eu podia ter estado mais lá.”
A vida já me ensinou, de maneiras demasiado duras, que não devemos adiar o amor. Não devemos guardar o abraço para outra ocasião, a visita para quando houver mais tempo, o telefonema para uma semana menos ocupada ou a ternura para um momento mais conveniente.
O tempo conveniente pode nunca chegar.
Somos passageiros nesta vida. Entramos na viagem sem conhecer a duração do percurso e vamos deixando bagagens, memórias e pedaços de nós em cada pessoa que amamos. Tudo é muito breve, mesmo aquilo que julgávamos eterno.
Por isso, talvez administrar sabiamente a tristeza não seja escondê-la nem entregarmo-nos completamente a ela. Talvez seja reparti-la pelos dias, permitindo que nos ensine sem deixar que nos destrua. É transformá-la em cuidado, presença, delicadeza e coragem para amar enquanto ainda há tempo.
A tristeza ensinou-me que perder alguém é também perder uma parte daquilo que éramos junto dessa pessoa. Mas ensinou-me igualmente que amar é a única forma de tornar a brevidade suportável.
Talvez eu me apegue demasiado. Talvez tente segurar as pessoas como quem segura água entre as mãos, sabendo que, por mais cuidado que tenha, alguma acabará sempre por escapar.
Mas enquanto estão aqui, quero que saibam que saibam que gosto delas. Que são importantes. Que a minha vida é melhor porque existem nela. Quero estar, mesmo quando não tenho as palavras certas e quero aparecer, mesmo quando a minha presença é tudo o que consigo oferecer.
Porque a vida passa.
Porque as pessoas partem.
E porque o amor que adiamos pode transformar-se, demasiado depressa, numa saudade sem remédio.
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