julho, ou a minha forma de nascer outra vez, mais um ano

Nasci em julho.

Gosto de dizer isto como quem diz que nasceu com o sol do lado de dentro. Talvez seja exagero, mas eu tenho uma certa ternura pelos meus exageros. Nasci no meu mês preferido, na minha estação preferida, debaixo de uma luz que me parece sempre mais minha do que as outras. Há pessoas que pertencem à chuva, outras ao nevoeiro, outras aos dias curtos de inverno. Eu pertenço ao calor, às tardes demoradas, às cigarras, às noites claras, às janelas abertas e àquele cansaço doce de quem viveu o dia até ao fim.

Sou de julho. Do mês sete. Logo eu, que adoro números pares.

Mas há aqui uma pequena ironia cósmica que me diverte. O mês que me recebeu é ímpar, mas o dia em que nasci é par, como se o universo tivesse querido fazer uma espécie de negociação comigo: dou-te um mês solar, intenso, luminoso, mas deixo-te nascer num número certo, redondo, equilibrado, daqueles que se dividem melhor no meu coração matemático. Toda a gente sabe que gosto de números pares. Gosto da ideia de equilíbrio, de simetria, de coisas que se podem partir em duas sem ficarem incompletas. Talvez por isso me agrade ter nascido num dia par: há qualquer coisa de secreto e ordeiro nesse detalhe, como se, no meio do fogo de julho, houvesse também uma pequena geometria a tomar conta de mim.

Também gosto de junho, já que, para mim, ele significa o mês do balanço. Não porque o calendário o mande, mas porque a minha vida se organizou assim. Junho fecha o ano letivo, fecha ciclos, encerra turmas, corrige trabalhos, despede-se de alunos, arruma papéis, devolve-me ao silêncio depois do ruído. Junho é o mês em que olho para trás. Faço contas ao que correu bem, ao que ficou por fazer, ao que me cansou, ao que me salvou, ao que aprendi sem ter pedido. Junho é uma espécie de dezembro interior. O fim de um ano que não coincide com o fim do ano dos outros.

Depois vem julho. E julho não me pede balanços. Julho pede-me planos. Pede cadernos novos, pede listas, ideias, projetos ainda sem forma, sementes pequenas guardadas no bolso. Julho é o mês em que começo a imaginar o que quero colher em setembro, em outubro, quando a vida voltar a acelerar e a terra pedir frutos. Há em mim uma agricultura invisível. Planto intenções. Lanço ao chão projetos, palavras, possibilidades. Algumas sementes nem sei bem o que serão. Outras conheço-lhes já o nome. Mas todas precisam deste tempo solar para começar.

Gosto das tradições antigas ligadas à natureza, daquela forma de escutar a Terra e observar as estações, tal como o meu avô me ensinou e que sempre me pareceu a gramática mais bonita para escrever o mundo. Há nessas tradições uma atenção profunda aos ciclos: semear, esperar, cuidar, colher, agradecer, deixar morrer, voltar a nascer. A vida não é uma linha reta. É uma roda. Uma sucessão de estações, de rituais, de regressos. Tudo tem o seu tempo: o fogo, a água, a semente, a colheita, a sombra, o repouso. E eu reconheço-me tanto nesse modo de existir.

A minha vida também se organiza por estações. Não apenas as do calendário, mas as interiores. Há tempos de lançar raízes e tempos de cortar ramos secos. Há tempos de recolhimento e tempos de expansão. Há tempos em que a alma precisa de ficar de pousio, quieta, aparentemente improdutiva, mas cheia de trabalho subterrâneo. E há tempos, como julho, em que tudo em mim parece pedir sol.

Na roda antiga do ano, o final de julho aproxima-se desse tempo de primeiras colheitas, de gratidão pelo que começou a amadurecer, de reconhecimento pelo esforço da terra. Eu gosto dessa imagem. Gosto de pensar que nada nasce inteiro de repente. Tudo precisa de preparação, de paciência, de cuidado. Mesmo aquilo que parece espontâneo traz por trás meses de silêncio. Uma ideia que floresce agora talvez tenha sido semeada há anos. Uma coragem que se mostra hoje talvez tenha sido regada por muitas lágrimas antigas. Uma mudança que parece súbita talvez tenha passado muito tempo debaixo da terra, à espera da sua estação.

Julho lembra-me isso. Lembra-me que há uma sabedoria no tempo. Que não se colhe no dia em que se planta. Que não se exige fruto a uma semente acabada de cair. Que a vida tem ritmos próprios e que, por mais apressada que eu seja, há coisas que só amadurecem quando podem.

E talvez fazer anos seja também isto: aceitar que somos uma terra em transformação.

Todos os anos, em julho, volto a mim com outra idade. Não necessariamente mais sábia, embora eu gostasse de acreditar nisso. Talvez apenas mais consciente. Mais atenta às minhas estações. Mais capaz de perceber o que já não precisa de ficar, o que ainda merece cuidado, o que devo semear de novo. Fazer anos não é apenas somar um número. É olhar para a própria vida e perguntar: o que é que cresceu em mim? O que é que secou? O que é que ainda pode florir?

Há qualquer coisa de bonito em nascer no verão. Como se o mundo nos recebesse sem casaco. Como se a vida dissesse: entra, a luz está acesa. Julho tem essa generosidade quente dos dias grandes. Mesmo quando é excessivo, mesmo quando cansa, mesmo quando queima, há nele uma vitalidade que me chama. Talvez eu seja assim também: um pouco solar, um pouco excessiva, cheia de estações por dentro, com sementes nos bolsos e ideias a nascer onde às vezes só devia haver descanso.

Gosto do mês sete. Apesar de ímpar.

Talvez porque também eu sou feita de contradições. Gosto dos números pares, mas nasci no mês sete. Gosto de ordem, mas vivo cheia de pensamentos desalinhados. Gosto de controlar, mas a vida insiste em ensinar-me ciclos. Gosto de respostas, mas passo os dias a cultivar perguntas. Talvez seja isso que julho me dá: a possibilidade de aceitar as minhas próprias irregularidades com mais ternura.

Em junho, conto o que fui. Em julho, imagino o que posso ser.

E, algures entre o sol, os anos, os números pares, as antigas rodas das colheitas e esta minha mania de transformar tudo em metáfora, vou percebendo que a vida é como a terra. Às vezes fértil, às vezes seca, às vezes revolvida por dentro. Uma terra que pede cuidado. Que pede escuta. Que pede paciência.

Este mês é o meu tempo de plantar. Plantar ideias. Plantar coragem. Plantar descanso. Plantar a mulher que quero ser quando setembro chegar.

Depois, mais tarde, virá o tempo da colheita. Talvez em setembro. Talvez em outubro. Talvez num ano qualquer que ainda não aprendi a nomear. Mas hoje não preciso de colher tudo. Hoje basta-me este gesto antigo e íntimo de confiar na semente.

Nasci em julho. No mês sete. Num dia par: hoje. Na estação do sol.

E talvez isso explique muita coisa: esta minha forma de viver entre a ordem e o excesso, entre a matemática e a magia, entre o balanço e o recomeço, entre a terra que fui e a terra que ainda estou a aprender a cultivar.

PB

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