Arrumar o caos

É nas pequenas tarefas de todos os dias que encontro espaço para pensar nas minhas grandes questões.

Não é nos momentos solenes, nem nas grandes pausas, nem sequer nos silêncios cuidadosamente escolhidos. É enquanto arrumo roupa, enquanto faço a cama, enquanto lavo a loiça ou deixo a cozinha novamente habitável. As mãos ocupam-se do óbvio e a cabeça, talvez por se sentir menos vigiada, começa a andar por lugares onde eu nem sempre a quero levar.

Revejo conversas. Analiso sentimentos. Imagino respostas que devia ter dado e que só me ocorreram depois, como acontece quase sempre com as respostas importantes. Há frases que ficam dentro de nós muito depois de a conversa ter acabado. Frases por explicar, por engolir, por devolver. Pequenas peças fora do lugar.

Não há muita poesia no ato de lavar a loiça. Há pratos, copos, talheres, restos do dia. Mas talvez exista ali uma espécie de verdade humilde. A forma como arrumo a cozinha diz, muitas vezes, mais sobre mim do que eu gostaria. Há dias em que tudo fica alinhado, quase com rigor. Outros em que ponho as coisas onde calha, sem paciência, como se a desordem interior tivesse aprendido a mexer nas minhas mãos.

Seria fácil se conseguíssemos arrumar sentimentos como se arruma a loiça.

A mágoa num canto. A saudade noutro. A culpa separada do amor, para não contaminar tudo. A raiva inclinada, para escorrer melhor. Fechávamos a porta, escolhíamos o programa certo e, passado algum tempo, tudo sairia limpo, aceitável, pronto a guardar.

Mas os sentimentos não obedecem a esse método.

Alguns ficam agarrados. Outros resistem. Outros parecem limpos até os olharmos contra a luz. Há dores que não desaparecem por insistência, nem por esfregarmos mais. Há coisas que precisam de tempo, de distância, de silêncio. E há outras que talvez nunca fiquem completamente limpas, apenas menos cortantes.

Talvez seja por isso que arrumar a casa me acalma. Não porque resolva a vida, mas porque me dá a ilusão necessária de que alguma coisa ainda pode voltar ao lugar. A bancada limpa, a cama feita, a roupa dobrada, a cozinha em silêncio. Pequenas provas de que, mesmo quando dentro de mim tudo está em desalinho, ainda consigo cuidar de um pedaço do mundo.

A organização exterior não apaga o caos interior, mas às vezes desenha-lhe margens. E eu preciso dessas margens. Preciso de gestos simples que me lembrem que nem tudo tem de ser compreendido de uma vez. Que há dias em que basta lavar um copo, dobrar uma camisola, abrir uma janela, respirar fundo. A vida não se arruma toda numa tarde e nós também não.

Talvez, na verdade, eu não esteja apenas a arrumar a casa. Talvez eu esteja apenas a arrumar por fora aquilo que ainda não sei arrumar por dentro.

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