Amigos
Tenho um bom leque de amigos.
Digo isto assim, com a serenidade de quem já percebeu que há coisas que não precisam de inventário. Não me interessa muito saber se são muitos ou poucos. Nunca fui boa a contar pessoas como quem conta moedas dentro de uma caixa. Interessa-me mais saber se são bons. Se são inteiros. Se estão. Se me acrescentam mundo. E, felizmente, os meus são bons. E são suficientes.
Há amizades que vêm de longe, de tão longe que já não sei bem onde acabam as memórias e começam as pessoas. Amigos de há mais de trinta anos, que me conhecem antes de eu saber explicar-me. Que já me viram em versões antigas, em rascunhos, em dias sem legenda. Amigos que ficaram, não porque a vida tenha sido sempre fácil, mas porque algumas raízes têm a teimosia bonita das árvores antigas: dobram-se ao vento, mas não desistem da terra.
Depois há os outros. Os que chegaram mais tarde. Amigos de meia dúzia de anos, de alguns meses, ou até aqueles que ainda estão a chegar, devagarinho, como quem bate à porta sem fazer barulho. Pessoas que a vida me trouxe quando eu já achava que o meu mapa afetivo estava quase completo. E, no entanto, de vez em quando, a vida surpreende-me com esta espécie de milagre discreto: põe-me à frente alguém que não é apenas colega, não é apenas companhia, não é apenas presença de circunstância. É amigo. Mesmo.
São pessoas que vibram num comprimento de onda parecido com o meu. Não necessariamente igual, porque a igualdade absoluta deve ser uma coisa aborrecidíssima. Mas parecido. O suficiente para haver entendimento. O suficiente para uma conversa começar num café e, de repente, já estarmos a falar da vida, das ideias, dos medos, dos projetos, das pequenas loucuras que nos mantêm vivos. Pessoas que me fazem questionar coisas, que me oferecem ângulos novos para olhar o mundo, que me acrescentam valor sem me diminuírem, que me trazem ideias novas e, ao mesmo tempo, confirmam os valores antigos que eu não quero perder.
Tenho amigos da minha idade. Amigos uma década mais novos. Amigos uma década mais velhos. E tenho também amigos muito mais novos, alguns que começaram por ser alunos e que, algures no caminho, deixaram de caber nessa palavra. A Matemática acabou entre nós, como acabam os programas, os testes, os cadernos, os horários. Mas a convivência diária, essa forma paciente de estar perto, soube construir outra coisa. Uma coisa mais funda. Mais duradoura. Mais improvável talvez, mas também mais bonita.
E é curioso como a idade, às vezes, é apenas uma porta que inventámos para separar salas que afinal comunicam. Há anos entre nós, sim. Muitos, por vezes. Mas há também uma linguagem comum, uma espécie de ponte feita de confiança, admiração, respeito e apoio mútuo. Eu torço por eles com a alegria quase maternal de quem vê alguém levantar voo. E eles vibram com as minhas conquistas, apoiam as minhas ideias, escutam as minhas inquietações e, coisa rara e preciosa, nunca acham que sou demasiado louca.
Ou talvez achem, mas não se assustam.
E isso é maravilhoso.
Porque eu sei que sou um bocadinho estranha para os comuns mortais. Tenho demasiadas perguntas, demasiadas ideias ao mesmo tempo, demasiados caminhos abertos na cabeça. Às vezes avanço antes de saber exatamente para onde vou. Às vezes entusiasmo-me com coisas que parecem absurdas até começarem a fazer sentido. Mas há pessoas que não me pedem para ser menos. Não me põem travões na alma. Não me dizem para baixar o volume da existência. Pelo contrário: riem-se comigo, acreditam comigo, entram um pouco na dança e, quando é preciso, seguram-me pela mão.
Durante muito tempo, pensei que os amigos novos fossem uma improbabilidade. Não por falta de pessoas boas no mundo, mas por uma reserva minha. Sou introspetiva. Às vezes introvertida. Deixo as pessoas chegar, é verdade, mas raramente as deixo ficar. Há em mim uma porta simpática, educada, até luminosa, mas com uma fechadura antiga. Quem passa por ela não entra logo em casa. Fica no jardim, talvez. Conversa-se. Sorri-se. Mas a casa, essa, fica guardada.
Ultimamente, porém, dou por mim diferente.
Como se tivesse aberto as janelas por dentro.
Como se, sem dar por isso, tivesse criado em mim uma disponibilidade nova para acolher. Não uma disponibilidade qualquer, dessas que se oferecem por distração ou delicadeza. Uma disponibilidade verdadeira. Uma vontade de reconhecer pessoas especiais quando elas aparecem. De lhes dar tempo. De lhes dar escuta. De lhes dar amizade sem fazer demasiadas contas ao risco.
Há uns anos, ninguém me veria fazer amigas novas com esta facilidade serena. Beber café com alguém que não fosse dos de casa, ou talvez algum aluno, já seria muito. Almoçar com pessoas acabadas de chegar à minha vida parecer-me-ia quase uma extravagância emocional. Eu, que sempre tive pouco tempo e ainda menos espaço interior para relações de ocasião, dou agora por mim a escolher estar. A escolher beber café. A escolher almoçar. A escolher partilhar o meu escasso tempo com pessoas que considero novos amigos.
E talvez seja isto a maturidade: perceber que o tempo é pouco e, precisamente por isso, deve ser dado a quem o merece.
Não é abrir a porta a toda a gente. Nunca fui assim. Não sei ser assim. Mas é deixar de confundir proteção com clausura. É perceber que há pessoas que chegam sem invadir. Que entram sem ocupar demais. Que se sentam connosco à mesa da vida e trazem pão, perguntas, riso, silêncio, cuidado. Pessoas que não exigem explicações permanentes, porque nos leem nas entrelinhas. Pessoas que chegam depois de muitos capítulos escritos e, ainda assim, encontram forma de pertencer à história.
Gosto dos meus amigos antigos porque guardam partes de mim que eu própria já não sei onde deixei.
Gosto dos meus amigos novos porque me mostram partes de mim que ainda estão a nascer.
Uns são raiz. Outros são janela. Alguns são espelho. Outros são estrada. Há amigos que me lembram quem fui, amigos que me ajudam a ser quem sou, e amigos que, sem saberem, me empurram delicadamente para quem ainda posso vir a ser.
E talvez por isso eu já não queira saber se são muitos ou poucos. A amizade verdadeira nunca foi uma questão de quantidade. É mais parecida com aquelas luzes pequenas que se acendem numa cidade vista de longe. Cada uma ilumina pouco, talvez, mas juntas impedem que a noite seja absoluta.
Tenho amigos de uma vida inteira. Tenho amigos recentes. Tenho amigos a começar. E gosto desta ideia de que ainda há pessoas por conhecer que, um dia, talvez venham a saber o lugar exato onde guardo as minhas loucuras, as minhas dúvidas, os meus cafés, os meus silêncios e as minhas alegrias.
A vida, que às vezes me fechou portas, parece agora ensinar-me outra coisa: que também há encontros que são uma forma de casa.
E eu, que durante tanto tempo deixei pouca gente ficar, dou por mim a abrir os braços.
Não a todos. Mas aos certos.
E isso, na estranha matemática dos afetos, é mais do que suficiente.
PB
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