A Sertã escreve-nos por dentro

Há lugares que nos recebem como quem abre uma porta antiga e diz: entra, já te esperávamos.

A Sertã é, para mim, um desses lugares.

Talvez seja a luz das Beiras, essa luz dura e bonita que cai sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as ruas antigas, sobre os corpos cansados de tanto calor. Talvez seja o modo como a natureza ali parece aproximar-se das pessoas, como se a paisagem também viesse assistir às conversas, aos livros, aos concertos, às leituras, às palavras que se soltam devagar entre escritores, leitores, músicos, atores, curiosos, sonhadores e gente que ainda acredita que a cultura pode mudar a temperatura de um dia.

Mesmo quando estão quarenta graus.

E estavam. Quarenta graus daqueles que nos entram pela pele, que nos fazem procurar sombra, água, silêncio, uma cadeira fresca, uma piscina, uma praia fluvial, uma pausa. Mas há calores que cansam e há calores que ficam guardados como memória. O calor da Sertã foi dos dois: fez-nos abrandar o corpo, mas aqueceu-nos qualquer coisa por dentro.

Durante estes dias, a Sertã tornou-se outra vez um lugar de encontro. Um festival literário, sim, mas também muito mais do que isso. Um lugar onde os livros saem das estantes e se sentam connosco. Onde os escritores deixam de ser apenas nomes nas capas e passam a ter voz, gestos, pausas, hesitações, riso, pensamento vivo. Onde a música chega ao fim do dia como um descanso para aquilo que as palavras abriram. Onde há concertos, teatro, oficinas de escrita, conversas improváveis, aprendizagens inesperadas e aquela sensação rara de termos tempo.

Tempo para ler.
Tempo para ouvir.
Tempo para escrever.
Tempo para existir sem tanta pressa.

E talvez seja isso que mais procuro quando volto à Sertã: esse tempo recuperado. Um tempo que, durante o resto do ano, anda quase sempre dividido entre obrigações, horários, urgências, tarefas, responsabilidades. Ali, durante aqueles dias, o tempo ganha outra respiração. Pode-se estar numa conversa com um escritor de manhã, ouvir música à noite, descobrir um livro novo à tarde, escrever uma frase num caderno, mergulhar na piscina, atravessar a vila devagar, comer um petisco, reencontrar uma amiga, ouvir uma história, pensar na vida.

E tudo parece fazer parte da mesma frase.

O Convento da Sertã é uma dessas frases. Um hotel lindíssimo, que nos recebe a cada ano melhor. Acolhedor e moderno, mas cheio de história. Um lugar onde o passado não pesa: acompanha. Está ali, nas paredes, na zona antiga, na memória do edifício, na serenidade dos corredores, na forma como a pedra conversa com o conforto. Há hotéis que são apenas lugares onde se dorme. O Convento não. O Convento é parte da experiência. É casa temporária, refúgio, intervalo, abrigo fresco depois do calor, promessa de descanso depois de dias cheios.

E depois há o pequeno-almoço.

O melhor pequeno-almoço de todos.

Há qualquer coisa de profundamente feliz num bom pequeno-almoço de hotel, sobretudo quando os dias começam com vagar. A mesa posta, o cheiro do café, o pão, a fruta, os pequenos detalhes, aquela abundância tranquila que nos faz acreditar que o dia pode começar bem. No Convento, o pequeno-almoço parece sempre dizer-nos: antes de ires para os livros, para as conversas, para o calor e para o mundo, fica só mais um bocadinho.

E nós ficamos.

Ficamos porque estes dias também são feitos de reencontros. Com lugares e com pessoas. Com a Teresa e a Filipa, amigas que a Sertã nos deu e que já fazem parte desta geografia afetiva. Há amizades que nascem assim, sem grande cerimónia, no meio de festivais, conversas, mesas, livros, gargalhadas e cumplicidades que se reconhecem antes mesmo de se explicarem. A cada ano, reencontrá-las é perceber que a Sertã já não é apenas um destino no mapa. É também um lugar habitado por rostos queridos.

E há a Vera, com a sua arte e delicadeza. Há pessoas que trazem consigo uma forma bonita de estar. A Vera tem essa delicadeza rara de quem cria sem ruído, de quem põe beleza nas coisas, de quem nos lembra que a arte não precisa de gritar para tocar. Nestes dias, a cultura não está apenas nos palcos, nas mesas-redondas ou nos livros. Está também nas mãos de quem faz, no olhar de quem cuida, na forma como cada pessoa acrescenta qualquer coisa ao lugar.

E depois há a comida das Beiras.

Porque nenhum festival é apenas feito de palavras. Também se lê um lugar pelo que se come. Pelos sabores, pelos cheiros, pelas mesas, pelos petiscos, pelas conversas que se prolongam enquanto alguém serve mais qualquer coisa. A Mercearia do Largo, com os petiscos da Fernanda, é uma dessas paragens que ficam no corpo e na memória. Há comida que alimenta. E há comida que acolhe. A da Fernanda faz as duas coisas. Tem esse sabor de terra, de casa, de generosidade beirã, de quem sabe que pôr comida numa mesa é também uma forma de dizer: gosto que estejam aqui.

A Sertã, nestes dias, é isso: uma mesa grande.

Nela cabem escritores, leitores, músicos, atores, oficinas, concertos, teatro, amigos antigos e amigos novos, risos, cansaço, calor, mergulhos, conversas longas, noites quentes, livros comprados, livros assinados, livros desejados. Cabem os meus escritores favoritos e cabem também os que descubro pela primeira vez. Cabe Afonso Cruz, com aquela maneira de nos desarrumar o pensamento e de nos lembrar que a imaginação é uma forma muito séria de verdade. Cabe Tânia Ganho, com a força das palavras e das mulheres que escrevem a partir de dentro. Cabe Pedro Freitas, o Poeta da Cidade, com a poesia a chegar perto, sem pedir licença, como chegam as coisas que reconhecemos antes de compreender.

E cabem tantos outros.

Um sem-número de vozes novas, de autores descobertos, de livros que talvez ainda não sabíamos que precisávamos de ler. Essa é uma das maiores riquezas de um festival literário: vamos por uns nomes e regressamos com muitos mais. Vamos pelos nossos escritores de sempre e voltamos com cadernos mais cheios, listas maiores, curiosidade renovada. Descobrimos que a literatura é uma casa com muitas portas, e que há sempre mais uma para abrir.

As oficinas de escrita têm também esse poder. Sentamo-nos com uma folha, uma caneta, uma hesitação, talvez uma insegurança. E, de repente, percebemos que escrever não é apenas saber. É escutar. É procurar. É falhar uma frase até ela encontrar o seu caminho. É aceitar que há palavras que chegam primeiro tortas e só depois se endireitam. Escrever é, muitas vezes, abrir uma janela num quarto que ainda estava escuro.

Nestes dias, entre a literatura e a música, entre o teatro e as conversas, entre a piscina do hotel e a praia fluvial, entre o calor intenso e a paz das Beiras, houve uma espécie de equilíbrio perfeito. O corpo descansava enquanto a cabeça acordava. A água refrescava a pele, os livros refrescavam o pensamento. A natureza dava-nos silêncio, a cultura devolvia-nos perguntas. E talvez os melhores dias sejam assim: dias em que aprendemos sem peso, em que descansamos sem culpa, em que convivemos sem pressa.

Dias fabulosos.

De reencontros e aprendizagem. De amizade e descoberta. De cultura e descanso. De calor e sombra. De palavras e água.
De livros e mesas. De música e silêncio. De escrita e escuta.

Volto sempre da Sertã com a sensação de trazer mais do que levei. Trago nomes, frases, imagens, livros, conversas, ideias, afetos. Trago o calor ainda guardado na pele. Trago o Convento como casa provisória. Trago o pequeno-almoço como ritual feliz. Trago a Mercearia do Largo e os petiscos da Fernanda. Trago a Teresa, a Filipa, a Vera. Trago os escritores que já amava e os que passei a querer conhecer melhor. Trago a natureza das Beiras, essa natureza que parece dizer-nos que a vida também precisa de vagar.

E trago, sobretudo, esta certeza: há lugares que não visitamos apenas. Há lugares que nos escrevem por dentro.

A Sertã é um deles.

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