A liberdade de andar
Quando me perguntam do que mais gostei no Caminho de Santiago, nunca sei responder como quem escolhe uma fotografia dentro de um álbum. Já o fiz três vezes e, ainda assim, a resposta continua a escapar-me das mãos, como água de rio. Talvez porque o Caminho não se deixe resumir. Talvez porque aquilo de que mais gostei não foi uma igreja, uma paisagem, uma cidade, uma chegada. Foi uma sensação. Uma espécie de liberdade antiga, quase primitiva, que talvez todos tenhamos dentro de nós e que só despertamos quando começamos a andar.
Gostei da liberdade de andar e parar onde queria. De não ter de obedecer a relógios, agendas, campainhas, horários, compromissos, tarefas, notificações, vozes a chamar por mim. Gostei de poder chegar à hora que chegasse, parar onde me apetecesse, dormir onde houvesse cama, sombra, descanso ou simplesmente vontade. Gostei dessa possibilidade rara de caminhar sem destino, mesmo sabendo que Santiago estava lá, algures, como uma promessa. O destino existia, claro. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não mandava em mim.
Eu caminhava de mochila às costas, como os caracóis, levando comigo a casa possível. E essa casa era quase nada. Uma muda de roupa, o básico, o indispensável, uma caneta, um lápis e um caderno. Pouco mais. O suficiente para sobreviver. O suficiente para escrever. O suficiente para perceber que, afinal, eu precisava de muito menos do que julgava.
Talvez tenha sido essa uma das maiores revelações do Caminho: descobrir que se pode viver dias inteiros com pouco. Muito pouco. Menos roupa, menos conforto, menos certezas, menos ruído, menos espelhos, menos explicações. E, no entanto, sentir-me mais inteira. Havia qualquer coisa de libertador naquele despojamento. Como se, a cada quilómetro, eu deixasse cair uma camada. Primeiro o excesso. Depois a pressa. Depois a necessidade de controlar tudo. Depois aquela rigidez interior com que tantas vezes atravessamos a vida, convencidos de que somos nós que seguramos o mundo, quando às vezes é o mundo que nos está a pedir para largar.
No início, caminhava tensa. Caminhava rígida. Caminhava como faço tantas vezes na vida: com pressa de chegar, com a cabeça à frente do corpo, com os pensamentos a empurrarem-me pelas costas. Queria terminar a etapa, cumprir o percurso, vencer os quilómetros. Talvez achasse que o Caminho era mais uma coisa para fazer bem. Mais uma meta para alcançar. Mais uma prova de resistência.
Depois, sem eu dar por isso, o Caminho começou a educar-me.
Ensinou-me a abrandar. A olhar em volta. A escutar os meus passos. A perceber que havia rios a acompanhar-me, pássaros a atravessar o silêncio, árvores a oferecer sombra, pedras antigas a contar histórias sem palavras. Ensinou-me que o corpo sabe coisas que a cabeça desconhece. Que há pensamentos que só se organizam depois de muitos quilómetros. Que há dores que não desaparecem quando paramos, mas se tornam suportáveis quando aceitamos caminhar com elas.
No Caminho Português, senti muitas vezes a doçura da proximidade. As aldeias, as vozes, as pessoas à porta, os cafés onde se entrava com os pés cansados e se saía com mais um bocadinho de coragem. No Caminho Primitivo, senti a dureza mais crua da montanha, as etapas exigentes, os desníveis, o corpo a protestar, a respiração curta, a mochila a pesar como se transportasse nela todas as minhas vidas anteriores. Houve dias em que cada subida parecia uma pergunta difícil. Houve dias em que o corpo dizia “não posso” e alguma coisa dentro de mim respondia “podes mais um bocadinho”.
E podia.
Ao fim do dia, quando chegava, havia uma alegria quase infantil. A alegria de ter conseguido. De tirar as botas. De pousar a mochila. De tomar banho como quem recebe uma bênção. Nunca um banho me pareceu tão glorioso como no Caminho. A água a cair sobre os ombros cansados, o pó a desaparecer, os músculos a descontrair, o corpo a agradecer em silêncio. Há luxos que só reconhecemos quando deixamos de os ter garantidos. No Caminho, um banho quente podia ser felicidade pura. Uma cama simples podia ser palácio. Uma sopa podia ser banquete. Um chocolate oferecido podia ser milagre.
Lembro-me de um dia em que estava visivelmente cansada. Daqueles cansaços que não se escondem, porque o corpo inteiro passa a falar por nós. Alguém parou, abriu a mochila, sorriu-me e ofereceu-me um chocolate. Disse apenas: “Para dar fuerza para el camino.” E naquele gesto havia mais humanidade do que em muitos discursos sobre humanidade. Era só um chocolate, sim. Mas às vezes a generosidade cabe inteira numa coisa pequena. Às vezes alguém nos salva o dia com açúcar, ternura e um sorriso.
O Caminho está cheio destas pequenas aparições.
Pessoas que surgem e desaparecem. Peregrinos que caminham connosco durante uma hora e, nesse tempo breve, nos contam uma parte da vida que talvez nunca tenham contado a ninguém. Outros com quem falamos durante dias, depois perdemos de vista, e mais à frente voltamos a encontrar como se o Caminho tivesse brincado connosco às escondidas. Há reencontros que parecem festas. “Olha, estás aqui!” E de repente abraçamos alguém que, há três dias, era apenas uma cara desconhecida com botas sujas e mochila às costas.
No Caminho fala-se de tudo. Da vida, da morte, dos filhos, dos amores, das perdas, dos trabalhos, dos medos, dos sonhos adiados, das dores nos joelhos, das bolhas nos pés, da próxima etapa, da próxima fonte, do próximo café. Mas há também uma espécie de pacto silencioso: fala-se de tudo, sim, mas protegendo a intimidade de cada um. Ninguém exige mais do que o outro quer dar. Ninguém força portas. Talvez porque todos percebemos que uma pessoa em caminho está sempre um pouco despida. Não precisa que a desvistam mais.
Havia dias de silêncio absoluto. Horas inteiras sem falar com ninguém, caminhando ao ritmo dos meus pensamentos. E os meus pensamentos, como se sabe, nem sempre sabem andar devagar. Às vezes correm, saltam, tropeçam, voltam atrás, abrem gavetas, acendem luzes em divisões antigas. Mas no Caminho, estranhamente, até eles aprendiam uma certa disciplina. O passo tornava-se metrónomo. O bastão de madeira batia no chão como quem marca o compasso de uma música interior. E eu seguia.
Outras vezes havia conversa, música, gargalhadas noite fora. Havia albergues transformados em pequenas assembleias do mundo. Gente de países diferentes, línguas diferentes, idades diferentes, vidas diferentes, todos reduzidos à mesma condição essencial: pés cansados, roupa lavada à mão, fome, histórias e vontade de chegar. Havia qualquer coisa de profundamente igualitário nisso. No Caminho, somos todos um pouco menos o que temos e um pouco mais o que somos quando já não temos tanta coisa a mostrar.
Talvez por isso eu tenha sido tão feliz.
Porque no Caminho não precisava de representar papéis. Não precisava de ser sempre forte, sempre certa, sempre professora, sempre mãe, sempre organizada, sempre disponível, sempre luminosa. Podia apenas ser uma mulher a caminhar. Uma mulher com uma mochila às costas, um bastão de madeira na mão, um caderno guardado para o caso de alguma frase me apanhar distraída. Podia estar cansada. Podia estar calada. Podia rir alto. Podia chorar por dentro. Podia parar. Podia continuar.
Há poucas liberdades maiores do que esta.
A liberdade de obedecer ao corpo. De beber água quando se tem sede. De comer quando a fome chega. De dormir quando o cansaço vence. De conversar quando apetece. De ficar em silêncio quando a alma pede. De não explicar tudo. De não justificar tudo. De não carregar tudo.
O Caminho ensinou-me que eu carregava demasiado.
Não apenas na mochila. Na vida. Carregava expectativas, memórias, medos, urgências, culpas, responsabilidades, antecipações, ruídos, afetos mal resolvidos, projetos, papéis, vontades alheias. E, no entanto, ali, com meia dúzia de coisas às costas, eu continuava viva. Mais do que viva: inteira. Serena. Atenta. Como se a vida, ao ficar mais simples, se tornasse também mais verdadeira.
Comecei então a não querer que terminasse.
É curioso: no início queria chegar. Depois queria apenas continuar. Queria que o Caminho se prolongasse mais um dia, mais uma curva, mais uma aldeia, mais uma conversa, mais um “¡Hola!”, mais um “¡Buen camino!”, mais uma manhã a sair cedo com o frio ainda pousado nas pedras. Queria continuar naquele estado de presença rara, em que os sentidos acordam todos ao mesmo tempo. O cheiro da terra. O som da água. A luz nas folhas. A textura da madeira do bastão. O peso da mochila. O alívio de a pousar. A alegria absurda de encontrar uma sombra no momento certo.
Talvez o Caminho de Santiago seja isto: uma escola sem paredes onde se aprende caminhando.
Aprende-se que a pressa rouba paisagem. Que o cansaço também pode ser mestre. Que a superação não tem sempre aplausos; às vezes é apenas chegar ao fim do dia, tirar as botas e sorrir em silêncio. Aprende-se que os desconhecidos podem ser abrigo. Que a intimidade não precisa de invasão. Que a amizade pode nascer entre duas etapas e durar anos. Que há encontros que parecem casuais, mas ficam dentro de nós como sinais.
Aprende-se, sobretudo, que o destino é apenas uma desculpa para nos pôr a andar.
Santiago é importante, claro. A chegada comove. A praça, os abraços, as lágrimas, o corpo dorido, a sensação de ter atravessado qualquer coisa que não era apenas geográfica. Mas, quando penso nos meus Caminhos, não é a chegada que me visita primeiro. São os passos. As manhãs. Os rios. Os pássaros. As gargalhadas. O silêncio. O chocolate oferecido. Os rostos reencontrados. A mochila. O caderno. A caneta. A mulher que saiu de casa com demasiadas coisas por dentro e que, quilómetro após quilómetro, foi aprendendo a pousar algumas.
Talvez seja por isso que volto sempre ao Caminho, mesmo quando não estou lá.
Porque há uma parte de mim que continua peregrina. Uma parte que desconfia das vidas demasiado cheias. Uma parte que sabe que a liberdade pode caber numa mochila pequena. Uma parte que ainda ouve, em dias difíceis, uma voz qualquer a dizer: “Para dar fuerza para el camino.”
E eu sigo.
Nem sempre com a leveza que gostaria. Nem sempre com a serenidade que aprendi. Às vezes volto a caminhar pela vida tensa, rígida, apressada, esquecida de olhar em volta. Mas depois lembro-me. Lembro-me das estradas, das setas amarelas, da poeira, da água, dos albergues, dos desconhecidos que se tornaram meus, da alegria de chegar sem ter deixado de ver o percurso.
E então tento outra vez.
Mais devagar. Com menos peso. Com os sentidos despertos. Porque talvez a vida, como o Caminho, não nos peça que cheguemos depressa.
Talvez nos peça apenas que caminhemos inteiros.
E que, de vez em quando, saibamos parar para agradecer a paisagem.
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