A geometria dos afetos

Durante muito tempo pensei que a vida fosse uma linha reta.

Talvez por deformação matemática, talvez por ingenuidade, imaginei que avançávamos de ponto em ponto, sempre em frente, como quem segue uma sequência lógica: infância, juventude, amor, filhos, trabalho, conquistas, perdas, recomeços. Um eixo bem definido, com origem algures no primeiro choro e destino num lugar que ninguém sabe nomear.

Mas a vida, descobri mais tarde, não é uma reta.

É uma geometria inteira.

Feita de linhas que se cruzam, de pontos que nos fixam, de distâncias que nos doem, de paralelas que caminham lado a lado sem nunca se tocarem, de tangentes que nos roçam apenas por um instante e, ainda assim, mudam a nossa direção.

Há pessoas que são pontos.

Chegam e ficam. Marcam uma coordenada exata dentro de nós. Mesmo que o tempo passe, mesmo que os mapas se rasguem, sabemos sempre onde estão. Há amigos assim. Amores assim. Alunos assim. Pessoas que, um dia, entraram numa aula, numa casa, numa conversa ou num café e passaram a fazer parte da nossa representação do mundo.

Há outras que são retas. Atravessam-nos. Algumas com delicadeza, outras com a violência de quem não pediu licença. Trazem-nos movimento, obrigam-nos a sair do lugar, mostram-nos que a vida não se resolve ficando sempre no mesmo ponto. Nem todas permanecem, é verdade. Mas nem tudo o que nos transforma tem de ficar para sempre.

E há pessoas que são tangentes. Tocam-nos só uma vez, como num encontro breve, numa frase inesperada, num gesto que parecia pequeno. Depois seguem o seu caminho e nós seguimos o nosso. Mas aquele toque fica. Como se algumas almas tivessem a estranha capacidade de nos alterar sem nos ocuparem.

Talvez os afetos sejam isto: uma matéria invisível desenhada em nós por quem chega, por quem parte, por quem fica, por quem nos acompanha a uma distância segura.

Também eu sou muitas linhas.

Fui a menina que talvez ainda não soubesse o nome das perdas, mas já pressentia que o mundo podia mudar de forma de um dia para o outro. Fui a jovem que perdeu o pai cedo demais e aprendeu, sem querer, que há ausências que se tornam coordenadas centrais. A partir dali, tudo passou a medir-se também por esse ponto: antes e depois.

Sou a explicadora que começou cedo, talvez cedo demais, a explicar aos outros aquilo que a própria vida ainda não lhe tinha explicado. Fui aprendendo que ensinar não é apenas transmitir matéria. É estar diante de alguém e perceber que, por trás de uma dúvida, pode haver medo, cansaço, insegurança, falta de colo, falta de fé em si próprio. Às vezes, explicamos equações. Outras vezes, ajudamos alguém a acreditar que ainda consegue resolver-se.

Sou mãe. E ser mãe talvez seja a forma mais complexa de geometria. De repente, deixamos de ser apenas ponto: passamos a ser abrigo, eixo, circunferência, fronteira e infinito. O nosso coração ganha uma extensão que não cabe em nenhum desenho. Aprende-se a viver fora de si. A medir a felicidade pela respiração de outro corpo. A carregar preocupações que não têm solução algébrica.

Sou professora. E talvez essa seja uma das minhas formas de ser mais intensas. Habito salas, quadros, fórmulas, palavras, perguntas. Gosto daquela estranha alquimia que acontece quando alguém compreende finalmente uma coisa que antes parecia impossível. Há um brilho nos olhos de um aluno que percebe. Um brilho pequeno, mas suficiente para justificar muitos dias difíceis.

Fui e sou estudante: doutoranda. Uma palavra longa, quase pesada, cheia de noites, leituras, dúvidas, versões, revisões e cafés. Há qualquer coisa de profundamente solitário em investigar. Procuramos respostas, mas encontramos sobretudo perguntas melhores. E talvez seja esse o verdadeiro trabalho: aprender a desenhar mapas em territórios que ainda não estavam bem iluminados.

E sou, ainda, a mulher que se procura.

E talvez esta seja a versão mais trabalhosa de todas.

Porque, apesar de tudo o que fui, de tudo o que construí, de todos os nomes que me deram — filha, mãe, professora, amiga, companheira, investigadora — há em mim uma parte que continua sem legenda. Uma parte que caminha devagar, com as mãos nos bolsos da alma, tentando perceber onde começa, onde acaba, que forma tem.

Durante anos, achei que precisava de me definir. Hoje acho que talvez não.

Talvez sejamos figuras em construção. Polígonos imperfeitos. Linhas interrompidas. Curvas inesperadas. Talvez não exista uma única Paula, mas várias, todas desenhadas sobre o mesmo papel vegetal. A menina não desapareceu. A jovem que perdeu o pai também não. A explicadora continua ali, de marcador na mão. A mãe observa tudo com o coração fora do peito. A professora tenta organizar o mundo em esquemas compreensíveis. A doutoranda sublinha frases e persegue ideias. A mulher que se procura olha para todas elas e tenta, com ternura, não deixar nenhuma para trás.

Há dias em que estas versões se cruzam.

Outros em que parecem paralelas, cada uma a seguir o seu caminho, sem se tocar. Há dias em que a mãe não entende a investigadora. Em que a professora se sobrepõe à mulher cansada. Em que a menina antiga reaparece sem avisar, assustada com uma palavra, uma ausência, uma memória. Há dias em que sou uma interseção de mim mesma.

Na Matemática, a distância mede-se. Na vida, nem sempre. Há pessoas perto que vivem a quilómetros de nós por dentro. E há pessoas longe que continuam a sentar-se à nossa mesa invisível todos os dias. A geometria dos afetos tem leis próprias. Desafia réguas, mapas, calendários e bom senso.

A vida não é uma linha reta. Ainda bem. Se fosse, não teria espanto. Não teria desvios. Não teria encontros inesperados nem regressos improváveis. Não teria os pontos luminosos das pessoas que ficam. Não teria as tangentes breves que nos alteram. Não teria as curvas onde, tantas vezes, encontramos aquilo que não sabíamos procurar.

Talvez eu seja isto: uma figura inacabada. Com vértices antigos, lados frágeis, linhas por fechar, ângulos que ainda me surpreendem. Uma mulher feita de muitas mulheres. Uma professora feita de muitas aulas. Uma mãe feita de muitos medos. Uma filha feita de uma ausência. Uma amiga feita de presenças escolhidas. Uma doutoranda feita de perguntas. Uma pessoa feita de tentativas.

E, no centro de tudo, talvez exista apenas isto: a vontade de continuar a desenhar-me: Sem régua, sem compasso e sem a obrigação de ser uma figura perfeita.

Porque talvez a beleza esteja precisamente aí: nesta geometria imperfeita dos afetos, onde cada pessoa que amámos, cada perda que sobrevivemos, cada aluno que nos marcou e cada versão de nós que resistiu acrescenta uma linha ao desenho.

E eu, que tantas vezes me procurei como quem resolve um problema difícil, começo a aceitar que talvez não haja uma solução final. Talvez haja apenas construção diária, evolução e caminho.

PB

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