A difícil arte de abrir as asas

A minha filha vai partir durante um mês.

Dito assim, parece pouco. Um mês cabe numa página do calendário, em quatro domingos, numa conta simples de trinta dias. Mas o tempo tem medidas diferentes quando é contado por uma mãe. Há meses que passam depressa e há meses que ocupam uma casa inteira.

Vai para a Roménia fazer um estágio em neurocirurgia. Escrevo isto e sinto dentro de mim duas mulheres que não chegam a acordo.

Uma delas está profundamente orgulhosa. Olha para a filha e vê uma jovem corajosa, determinada, a atravessar fronteiras para aprender aquilo de que gosta. Imagina-a a entrar num hospital desconhecido, a ouvir outras línguas, a conhecer novas formas de trabalhar, novas cidades, outras culturas e pessoas que, até agora, ainda não existem na sua história.

Essa mulher quer empurrá-la suavemente para o mundo e dizer-lhe:

— Vai. Aprende tudo. Vê tudo. Vive tudo.

A outra mulher preferia esconder-lhe o passaporte.

É esta a contradição de ser mãe: passamos anos a ensinar os filhos a caminhar e, quando finalmente caminham para longe, temos vontade de lhes pedir que se sentem mais um bocadinho ao nosso lado.

Queremos que sejam independentes, mas não demasiado longe. Que descubram o mundo, desde que regressem a casa para jantar. Que tenham asas, evidentemente, mas que voem apenas até onde os nossos olhos conseguem alcançar.

Ela é a minha filha mais nova. A minha menina. A minha azulinha.

Não sei explicar inteiramente esta palavra, porque os nomes do amor raramente precisam de explicação. Azulinha é uma cor, um diminutivo e um lugar secreto. É a forma como a reconheço no meio de todas as pessoas do mundo. Há nomes que nos dão quando nascemos e há nomes que o amor inventa para nos distinguir da multidão.

É a minha azulinha que vai para a Roménia. E eu já sinto saudades antes de ela partir.

A saudade antecipada é uma coisa estranha. É sofrer a ausência enquanto a pessoa ainda está diante de nós. Começamos a guardar os gestos mais pequenos: a voz noutro quarto, os passos no corredor, a chávena deixada em cima da mesa, as perguntas feitas à pressa, até as pequenas desarrumações que, de repente, adquirem a dignidade das coisas preciosas. Aquilo que todos os dias nos parece banal começa a tornar-se memória antes mesmo de desaparecer.

Também tenho medo.

Não um medo concreto, com nome e morada, mas o medo vasto das mães. Aquele que sabe inventar perigos em todos os aeroportos, estradas, hospitais e esquinas desconhecidas. Uma mãe consegue imaginar, em poucos segundos, tudo o que pode correr mal em qualquer lugar do planeta. É uma espécie de superpoder terrível e absolutamente inútil.

Se pudesse, colocava o mundo inteiro à prova de acidentes antes de a deixar sair de casa. Verificava cada avião, cada rua, cada pessoa com quem se cruzasse. Punha almofadas nas esquinas dos países e luzes acesas em todos os caminhos.

Mas amar não é impedir que alguma coisa aconteça.

Amar é saber que não conseguimos impedir tudo e, mesmo assim, abrir a porta.

Talvez ser mãe seja precisamente isto: construir um lugar seguro para que os filhos tenham coragem de o abandonar. Não porque não gostem da casa, mas porque levam dentro deles a certeza de que existe um caminho de regresso.

Durante muito tempo, pensei que a minha função seria mantê-los debaixo da minha asa. Hoje percebo que a asa não serve apenas para cobrir. Também serve para ensinar a voar. E chega um momento em que proteger demasiado seria apenas outra maneira de prender.

Por isso, deixo-a ir.

Não com a tranquilidade perfeita das mães dos livros, que sorriem à porta e dizem que tudo correrá bem. Deixo-a ir com orgulho e medo, alegria e saudade, confiança e um aperto no peito. Porque a maturidade não consiste em deixar de sentir emoções contraditórias. Consiste em perceber que todas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Posso querer que fique e desejar profundamente que vá.

Posso ter medo e confiar nela.

Posso sentir a falta que ainda não começou e alegrar-me por tudo o que ela vai viver.

Na Roménia, estudará o cérebro humano, essa extraordinária matéria onde cabem a memória, o pensamento, a linguagem, os sonhos e tudo aquilo que a ciência ainda não consegue explicar. Talvez aprenda coisas muito difíceis sobre neurónios, cirurgias e caminhos invisíveis dentro da cabeça.

Eu ficarei por aqui, a estudar outro mistério igualmente complexo: o coração de uma mãe quando precisa de deixar partir uma filha.

Sei que se vai divertir. Que vai aprender muito. Que regressará com histórias, fotografias, nomes novos e uma versão um pouco diferente de si própria. Talvez seja isso que mais nos assusta quando os filhos viajam: não apenas a distância, mas a possibilidade de regressarem maiores do que quando partiram.

E ainda bem.

Quero que volte diferente. Mais segura, mais livre, mais cheia de mundo. Quero ouvi-la contar tudo, até aquilo que não compreenderei inteiramente. Quero reconhecer nela a minha menina e, ao mesmo tempo, descobrir a mulher em que se está a transformar.

Um mês acabará por passar. Os calendários sabem fazer aquilo que os corações julgam impossível.

Até lá, levarei comigo esta desordem de sentimentos. Não tentarei escolher apenas um, como se o orgulho anulasse o medo ou a alegria tivesse de expulsar a saudade. O amor verdadeiro não é uma emoção simples. É uma casa com muitas divisões acesas ao mesmo tempo.

A minha azulinha vai para longe.

E eu ficarei a vê-la partir com o coração apertado, mas a porta aberta.

Porque ser mãe não é segurá-los para sempre.

É conseguir dizer «vai», quando tudo dentro de nós ainda sussurra «fica».

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