A delicada distância dos ouriços

Há uma velha metáfora que diz que os ouriços, quando têm frio, se aproximam uns dos outros para se aquecerem. Mas, ao chegarem demasiado perto, ferem-se com os espinhos. Então afastam-se. Depois sentem frio outra vez. Voltam a aproximar-se. Voltam a magoar-se. Até descobrirem, com a sabedoria humilde dos animais pequenos, a distância certa: suficientemente perto para não morrerem de frio, suficientemente longe para não se ferirem.

Penso muitas vezes nisto.

Talvez porque passei grande parte da vida a tentar perceber a distância justa entre mim e os outros. Não a distância fria de quem não ama, nem a distância soberba de quem se julga autossuficiente. Antes aquela distância difícil, quase artesanal, que se vai aprendendo depois de muitos abraços bons, algumas ausências inesperadas, certas desilusões e uma ou outra ferida que ficou a arder mais tempo do que devia.

Eu sou, provavelmente, uma espécie de ouriço sentimental.

Tenho dentro de mim uma vontade imensa de chegar perto. Gosto de pessoas. Gosto muito de pessoas. Gosto das suas histórias, das suas contradições, das suas pequenas tragédias domésticas, da forma como dizem “está tudo bem” quando claramente não está, da maneira como se sentam à mesa, como seguram uma chávena de café, como se calam antes de chorar. Gosto de perceber os outros. Talvez demasiado. Talvez seja esse o meu primeiro espinho: sentir demais.

Mas também aprendi a proteger-me.

Aprendi que nem toda a proximidade aquece. Há proximidades que invadem. Há afetos que pedem mais do que dão. Há pessoas que entram na nossa vida sem limpar os pés à porta. Há quem confunda intimidade com direito de mexer nas nossas gavetas interiores. Há quem queira o calor da nossa casa, mas não saiba respeitar as paredes que a sustentam.

Por isso, muitas vezes, afasto-me.

Não por falta de amor. Às vezes é precisamente por excesso dele. Afasto-me porque preciso de respirar, porque o mundo me chega demasiado alto, porque as vozes todas juntas me cansam, porque há dias em que a minha alma tem separadores a mais abertos e eu preciso de fechar alguns antes que o sistema bloqueie. Afasto-me porque sou casa, mas também sou concha. Sou abraço, mas também sou porta entreaberta. Sou presença, mas também sou silêncio.

Durante anos achei que isto era defeito.

Achava que gostar das pessoas devia significar querer estar sempre com elas. Que amizade devia ser disponibilidade permanente. Que amor devia ser ausência de fronteiras. Que família devia ser uma espécie de fusão sem intervalos. Mas a vida, que é mais sábia do que as frases feitas, ensinou-me outra coisa: nenhuma relação sobrevive sem uma certa respiração. Até os abraços precisam de ar.

Os ouriços sabem isso.

Aproximam-se para não congelar, afastam-se para não sangrar. E talvez a maturidade afetiva seja apenas isto: deixar de exigir aos outros uma proximidade que nos fere, e deixar de oferecer aos outros uma distância que nos mata de frio.

Na minha vida, esta aprendizagem tem sido longa.

A metáfora dos ouriços não fala apenas de defesa. Fala de ternura. Porque, no fundo, eles continuam a tentar. Mesmo feridos, procuram calor. Mesmo com espinhos, querem proximidade. Mesmo sabendo que o outro pode magoar, aproximam-se. Isto comove-me. Esta insistência pequena, quase ridícula, em não desistir do calor.

Talvez eu também seja assim.

Apesar das conchas, dos silêncios, dos portões interiores, das fugas estratégicas a multidões e da minha arte antiga de inventar distâncias, continuo a querer o calor. Continuo a acreditar nos amigos bons. Nas mesas partilhadas. Nos abraços que não perguntam demais. Nas famílias que se acrescentam à nossa sem pedir licença. Nos alunos que deixam de ser apenas alunos. Nas pessoas que chegam devagar e não forçam a entrada. Nas que ficam do lado de fora da porta, com paciência, até que a casa se sinta segura para abrir.

Hoje talvez eu já saiba melhor o que procuro.

Não quero relações sem espinhos, porque isso não existe. Todos trazemos os nossos. Quero relações onde os espinhos sejam conhecidos, respeitados, contornados com delicadeza. Quero gente que perceba que a distância não é abandono e que a proximidade não é posse. Quero quem saiba aquecer sem queimar. Quem saiba chegar sem invadir. Quem saiba ficar sem prender, porque no fundo, todos somos ouriços num inverno qualquer.

Andamos pela vida a procurar a temperatura certa. Aproximamo-nos, magoamo-nos, afastamo-nos, temos saudades, voltamos, aprendemos. Alguns ficam demasiado longe e chamam a isso liberdade. Outros ficam demasiado perto e chamam a isso amor. Mas talvez o amor verdadeiro, a amizade verdadeira, a família possível, estejam nesse espaço delicado entre o frio e a ferida, num suave equilíbrio entre a proximidade e o afastamento.

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