Sobre duas rosas
A Rosa de Jericó e a aluna que viu uma metáfora
Tenho uma Rosa de Jericó.
Foi-me oferecida por uma amiga, dessas pessoas que nos deixam nas mãos pequenos objetos e, sem saberem, entregam também uma história. Há presentes assim: parecem coisas, mas são perguntas. Uma planta dentro de uma taça, uma água que começa a ficar verde, uma raiz antiga à espera de ser compreendida.
A Rosa de Jericó não é bem uma rosa.
Talvez por isso seja tão verdadeira.
Há seres que não precisam de corresponder ao nome para cumprirem o seu destino. Esta chama-se rosa sem o ser, vive sem parecer viva, seca sem morrer, fecha-se sem desistir. Fica cinzenta, encolhida, quase mineral, como se tivesse decidido transformar-se em pedra para sobreviver ao excesso de mundo.
Depois, basta água.
Não muita. Não milagrosa. Não solene. Apenas água.
E ela começa a abrir-se devagar, como quem regressa de muito longe. Primeiro, uma hesitação. Depois, uma dobra. Depois, uma folha que se lembra de que já foi verde. A ressurreição, quando é verdadeira, nunca tem pressa. Talvez porque tudo o que volta de um deserto traz ainda areia nos gestos.
Hoje, a Diana olhou para a minha Rosa de Jericó e disse:
— Professora, pode ser uma boa metáfora.
E eu sorri.
Há frases que valem uma aula inteira.
A Diana podia ter visto apenas uma planta estranha dentro de uma água meio esverdeada, com ar de experiência científica que ficou tempo demais em cima da mesa. Podia ter perguntado se aquilo estava vivo, morto ou apenas à espera que alguém mudasse a água. Podia ter feito o que fazemos tantas vezes: olhar e seguir caminho.
Mas não.
A Diana viu uma metáfora.
E há qualquer coisa de extraordinário quando uma aluna, em época de exames, ainda consegue ver metáforas. Quando, no meio das funções, dos limites, das derivadas, das probabilidades, das fórmulas e dos gráficos que parecem querer fugir da folha, alguém olha para uma planta e percebe que ela está a falar de nós.
Porque a época de exames também é um deserto.
Um deserto com horário, matriz, critérios de correção e calculadora gráfica. Um deserto onde os dias começam a parecer todos iguais e as noites ficam povoadas por exercícios que regressam em sonhos, como animais persistentes. Há alunos que entram neste tempo com o peito cheio de medo e a cabeça cheia de frases terríveis:
“Não sei nada.”
“Já não vou a tempo.”
“Vai correr mal.”
“Sou péssima a Matemática.”
A Matemática tem esta fama injusta de ser uma espécie de muralha antiga, guardada por monstros de régua e compasso. Mas, na verdade, a Matemática é mais parecida com a Rosa de Jericó do que parece. Fecha-se quando nos aproximamos com medo. Parece seca quando a olhamos sem paciência. Fica cinzenta quando desistimos demasiado cedo.
Mas, se lhe dermos água, abre.
A água da Matemática chama-se método.
Chama-se tentar outra vez.
Chama-se ler o enunciado com calma, sublinhar os dados, organizar o pensamento, aceitar o erro sem fazer dele uma tragédia nacional. Chama-se repetir até deixar de doer. Chama-se perguntar sem vergonha. Chama-se perceber que uma dúvida não é uma falha de inteligência, é apenas uma porta que ainda não encontrámos maneira de abrir.
E eu, enquanto professora, talvez seja apenas isto: alguém que põe água.
Não faço milagres. Os milagres, em Matemática, costumam dar muito trabalho e vêm disfarçados de fichas resolvidas. Não entro no exame por ninguém. Não empresto a minha cabeça no dia da prova, embora alguns alunos, se pudessem, a requisitassem por noventa minutos, com devolução no fim e sem danos aparentes.
Não posso viver o lugar deles.
Mas posso ficar ao lado.
Posso dizer:
— Respira.
— Vamos por partes.
— Lê outra vez.
— O problema não é seres incapaz; é estares assustada.
— Não desistas antes de começares.
— Tu sabes mais do que o medo te deixa lembrar.
Ser professora é, muitas vezes, acreditar antes do aluno. É guardar uma versão verde dele quando ele só consegue ver-se cinzento. É olhar para a secura e não confundir pausa com fim. É saber que há inteligências que não florescem à primeira chuva, que há confianças que precisam de tempo, que há estudantes que se fecham não porque não tenham vida, mas porque aprenderam a proteger-se.
A Diana viu isso numa planta.
Talvez sem saber, viu-se também.
Viu esta época em que se estudam matérias como quem atravessa dunas. Viu as contas que às vezes correm mal, os exercícios que parecem escritos numa língua antiga, a angústia de querer conseguir e o medo de não chegar. Viu que há coisas que parecem mortas apenas porque estão à espera de água.
E talvez tenha visto em mim uma espécie de jardineira improvável.
Uma professora de Matemática com uma Rosa de Jericó em água verde. Alguém que ensina equações, mas também insiste na esperança. Alguém que exige, porque acredita. Alguém que ralha um bocadinho, porque se importa muito. Alguém que sabe que uma nota não define uma pessoa, mas também sabe que uma nota pode abrir uma porta. E, por isso, segura a exigência com uma mão e o afeto com a outra, tentando não deixar cair nenhuma das duas.
A nossa relação, a de professora e aluna, talvez seja feita desse equilíbrio delicado.
Eu ensino-lhe funções, derivadas, probabilidades, limites. Ensino-lhe que os gráficos têm comportamento, que as equações têm estrutura, que os problemas têm pistas, mesmo quando fingem não ter. Ensino-lhe que a Matemática não é uma floresta escura, embora às vezes tenha ramos muito baixos e raízes onde se tropeça.
Mas ela também me ensina.
Ensina-me que os alunos não são apenas cabeças a preparar exames. São mundos inteiros sentados diante de nós. Trazem medos que não cabem no caderno, esperanças que não aparecem na pauta, cansaços que nenhuma matriz avalia. Trazem a infância ainda agarrada a uma manga e o futuro a puxar pela outra.
E, no meio disso tudo, ainda conseguem dizer:
— Professora, pode ser uma boa metáfora.
Pode, Diana.
Pode ser uma metáfora para ti, para mim, para todos os alunos que nesta altura se sentem um pouco secos por dentro. Pode ser uma metáfora para os dias em que achamos que já não temos cor. Para as tardes em que a cabeça não abre. Para as noites em que a ansiedade nos enrola como a planta se enrola sobre si mesma.
Pode ser uma metáfora para a escola.
A escola também tem dias de deserto. Também tem águas paradas. Também tem folhas que não sabemos se voltam a abrir. Mas continua a ser um dos poucos lugares onde alguém pode olhar para outro alguém e dizer: ainda há verde aí dentro. Vamos tentar outra vez.
A Rosa de Jericó não é bonita da maneira fácil.
Não é uma rosa de jarra, vaidosa, pronta para a fotografia. Não tem a beleza imediata das coisas que querem agradar. A sua beleza é mais funda: é a beleza de sobreviver. É a beleza de voltar. É a beleza de guardar vida mesmo quando tudo parece seco.
Talvez seja essa a beleza dos alunos em tempo de exames.
Chegam cansados, às vezes inseguros, às vezes dramáticos como se uma derivada mal calculada fosse o princípio do fim da civilização ocidental. Mas depois, aos poucos, com trabalho, com insistência, com água, começam a abrir. Um exercício que antes parecia impossível fica apenas difícil. Uma matéria que parecia estrangeira começa a falar português. Um olhar que vinha apagado ganha uma luz pequena.
E essa luz pequena vale muito.
Vale mais do que parece.
Um dia, a Diana talvez não se lembre de todos os exercícios que fizemos. Talvez não recorde a fórmula exata, nem o gráfico, nem aquele problema que repetimos até ele perder a arrogância. Mas talvez se lembre da Rosa de Jericó. Talvez se lembre de ter visto uma metáfora num dia qualquer, em época de exames. Talvez se lembre de que houve uma professora que acreditou que ela podia voltar a abrir.
E eu lembrar-me-ei dela assim: a aluna que, no meio da Matemática, viu uma planta e percebeu que a vida estava a explicar-se.
A educação é isso, talvez.
Não é apenas transmitir conteúdos. É criar encontros. É estar diante de alguém e ajudá-lo a ver-se com menos medo. É ensinar que um erro não é uma sentença, que uma dificuldade não é uma identidade, que uma fase cinzenta não anula a possibilidade do verde.
A Rosa de Jericó continuará na sua taça.
A água talvez continue verde, porque até a água, quando vive connosco, ganha personalidade. A planta continuará a abrir e a fechar, a secar e a regressar, a lembrar-me que a vida tem uma paciência antiga.
Hoje, a Diana viu uma planta e encontrou uma metáfora.Eu vi uma aluna em época de exames e encontrei uma rosa.
E talvez a educação seja exatamente isto: duas pessoas diante da mesma coisa, uma a ensinar a outra a ver melhor.
Mesmo quando a água está verde.
Mesmo quando a Matemática parece árida.
Mesmo quando o deserto parece maior do que nós.
Há sempre uma parte que pode voltar a abrir.
Há sempre uma folha que ainda sabe o caminho da luz.
PB
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