S. João

Hoje é dia de exame de Matemática.

Acordei cedo, como se o meu corpo já soubesse antes de mim que não era uma manhã qualquer. Há dias que não começam quando abrimos os olhos. Começam antes. Na véspera. Nas mensagens que ficam por escrever. Nos conselhos que ainda queremos repetir. Nas dúvidas que imaginamos do outro lado. No coração que, mesmo sem caneta nem calculadora, também entra em exame.

De manhã, há mensagens para mandar.

Aquelas mensagens de última hora, feitas de coisas simples e enormes: respira, lê tudo com calma, começa pelo que sabes, não desistas à primeira dificuldade, confia no que trabalhaste. No fundo, são sempre os mesmos conselhos, mas há frases que precisam de ser repetidas porque, em certos dias, funcionam como amuletos.

Depois há o último abraço virtual.

Aquele antes de eles desaparecerem durante três horas.

Três horas é o tempo oficial do exame. Mas para quem fica cá fora, a três metros de distância ou a muitos quilómetros, três horas têm outra medida. São elásticas. Crescem. Multiplicam-se. Têm minutos que parecem páginas em branco, silêncios que fazem barulho e uma ansiedade que sobe, sobe, sobe, até chegar aos píncaros.

Eles estão lá dentro, diante da folha.

Eu estou cá fora, diante da minha inquietação.

A vida continua, claro. Os carros passam. As pessoas tomam café. O mundo segue com a sua indiferença costumeira. Mas eu fico naquele lugar estranho onde ficam os professores em dia de exame: sem poder fazer nada e, ainda assim, profundamente presente. Já não ensino, já não explico, já não corrijo. Só espero.

E esperar também cansa.

Porque cada aluno leva um pedaço dos meus dias. Leva as horas de trabalho, as gargalhadas, os ralhetes, os “faz outra vez”, os “tu sabes isto”, os “lê o enunciado”, os “não compliques o que é simples”. Leva também a minha teimosia, essa mania antiga de acreditar neles mesmo quando eles se esquecem de acreditar em si.

Mas hoje, depois do exame, o dia muda de roupa.

No fim, recolho a minha sobrinha de coração, que também faz exame hoje, e seguimos rumo ao Porto.

E há qualquer coisa de bonito nisto: sair de uma manhã séria, cheia de nervos, contas e futuro, e entrar numa cidade que sabe celebrar como se tivesse inventado a alegria. O Porto, em dia de São João, não é apenas uma cidade. É uma espécie de coração aceso à beira do Douro.

Vamos para o Porto como quem vai respirar depois de prender a respiração durante demasiado tempo.

É dia de São João.

Dia de martelinhos, de manjericos, de ruas cheias, de risos soltos, de gente que se cruza sem se conhecer e, mesmo assim, se reconhece na festa. Dia em que o Porto fica mais bonito, mais barulhento, mais antigo e mais menino. Dia em que a cidade parece sair à rua de camisa aberta, alma lavada e vontade de abraçar toda a gente com uma martelada de plástico na cabeça.

Há santos populares que são isto: uma autorização coletiva para sermos felizes sem grandes explicações.

Vamos lançar desejos ao céu, ver balões subir, dar marteladas com os típicos martelinhos de São João e fazer um piquenique nas margens do Douro, aos pés da Serra do Pilar. E só de escrever isto já sinto que o dia começa a tornar-se mais leve.

O Douro terá aquela serenidade de quem já viu passar impérios, amores, barcos, despedidas e promessas. A Serra do Pilar ficará lá em cima, como uma sentinela antiga, guardando a cidade e os nossos pequenos milagres. E nós, cá em baixo, talvez sentadas numa manta, talvez com comida simples, talvez cansadas, talvez felizes, vamos deixar que a noite faça o que a noite de São João sabe fazer: transformar o peso em luz.

Hoje será um dia só para mim.

Ou quase.

Porque uma professora nunca deixa completamente de ser professora. Mesmo longe da sala, há sempre uma parte de mim que fica à escuta. A pensar neles. A imaginar como correu. A esperar que tenham conseguido. A desejar que a prova tenha sido justa, que a cabeça não os tenha traído, que o medo tenha ficado pequeno, que o trabalho tenha aparecido no momento certo.

Mas hoje também quero lembrar-me de mim.

Da mulher que existe para além das fichas, das mensagens, dos horários, das explicações, das metas dos outros. Da mulher que também precisa de rio, de festa, de riso, de noite, de amizade, de família escolhida, de uma sobrinha que é quase filha do coração, de uma cidade bonita a dizer-me: descansa, por umas horas.

E talvez seja isso que o São João tem de mais bonito: lembra-nos que, depois dos dias sérios, também há festa. Depois das contas, também há música. Depois dos exames, também há rio. Depois da ansiedade, também há um céu onde cabem desejos.

A manhã pertenceu à Matemática.

A tarde e a noite pertencem ao Porto.

E eu vou tentar pertencer um bocadinho a mim.

Vou levar comigo a minha sobrinha, a minha melhor amiga, o cansaço, a ternura, os nervos que ainda não passaram completamente e uma vontade enorme de celebrar. Celebrar o fim de uma etapa. Celebrar o esforço. Celebrar os alunos que foram corajosos. Celebrar os sonhos que continuam a caminho. Celebrar esta vida que, às vezes, amanhece pesada, mas anoitece bonita.

Hoje, o exame abriu o dia com seriedade.

Mas o São João há de fechá-lo com luz.

E, quando estiver nas margens do Douro, aos pés da Serra do Pilar, talvez olhe para o céu e peça baixinho aquilo que peço tantas vezes, por mim e por eles:

que a vida seja generosa.

Que os sonhos encontrem estrada.

Que os resultados tragam justiça.

Que os meus alunos e os meus filhos sejam sempre felizes.

Que a minha sobrinha leve no coração a certeza de que é amada, e que eu nunca me esqueça disto: também é preciso parar para que a alegria nos encontre.

PB

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