Regressar também é uma forma de amor
Há viagens que nos levam para longe e, sem darmos conta, nos devolvem ao lugar certo.
Londres foi extraordinária. Cinco dias cheios. Cinco dias de ruas, passos, mapas, mercados, museus, teatros, musicais, luzes, conversas, gargalhadas, cansaço bom e aquela sensação rara de se estar exatamente onde se devia estar.
Londres no seu melhor: imensa, viva, antiga e moderna ao mesmo tempo, sempre com pressa, sempre com charme, sempre a dizer-nos que o mundo é muito maior do que a nossa rotina.
Foram dias de vida londrina. De andar sem parar. De entrar no metro e sair noutra cidade dentro da mesma cidade. De atravessar ruas com nomes que parecem saídos de livros. De olhar montras, fachadas, jardins, mercados, pontes, teatros e perceber que há lugares que nos acordam por dentro.
Londres tem essa capacidade: faz-nos sentir pequenas diante da sua grandeza, mas também nos empresta uma espécie de coragem elegante, como se nos dissesse: vai, vê, experimenta, vive.
E vivi. Vivemos.
Porque esta viagem foi também — talvez sobretudo — uma celebração da amizade. Depois de tantos anos, voltámos ao que sempre fomos: unidas, cúmplices, inseparáveis.
Há amizades que não precisam de se provar, mas às vezes é bonito vê-las confirmadas em ruas estrangeiras. É bonito perceber que continuamos a ter assunto, a rir das mesmas coisas, a reconhecer-nos nos silêncios, a cuidar uma da outra sem pedir licença. É bonito descobrir que, mesmo depois de tanto caminho, ainda há primeiras vezes para viver juntas.
Fomos Londres e fomos nós.
Fomos Camden, Portobello, Notting Hill, museus, mercados, Chinatown, teatro, musicais, ruas coloridas, jardins escondidos, jantares demorados e caminhadas que pareciam não acabar.
Mas fomos também a amizade antiga a ganhar novos cenários. Fomos duas miúdas de há muitos anos dentro de duas mulheres que já viveram muito. Fomos memória e presente. Fomos riso e ternura. Fomos casa uma para a outra longe de casa.
Mas há uma verdade simples que as viagens também ensinam: se sabe bem ir, também sabe muito bem regressar.
E eu contei as horas para voltar.
Não porque quisesse que Londres acabasse depressa, mas porque dentro de mim havia sempre esse fio invisível a puxar-me para os meus. Para as minhas coisas. Para o meu lugar. Para os braços onde não preciso de explicar quem sou.
Viajar é abrir janelas, mas regressar é reconhecer a porta. E há portas que sabem sempre o nosso nome.
Voltei com Londres nos olhos e casa no peito.
Voltei com histórias, fotografias, memórias, compras, passos acumulados no corpo e uma gratidão enorme por tudo o que vivi. Mas voltei também com aquela urgência doce de abraçar os meus. De sentir o cheiro da minha casa. De pousar a mala e saber que ali posso finalmente deixar cair o mundo dos ombros.
Voltei à minha vida não como quem volta ao mesmo, mas como quem volta mais inteira.
Fui recebida com flores e com um jantar espetacular.
Há gestos que falam mais do que discursos. As flores diziam: que bom que voltaste. O jantar dizia: fizeste falta. A mesa posta dizia: a casa estava à tua espera. E os abraços, esses, disseram tudo o resto.
Há regressos que são cerimónias silenciosas de amor.
Ninguém toca sinos, ninguém faz discursos, ninguém escreve cartazes enormes. Mas há flores em cima da mesa, há comida feita com cuidado, há olhos que brilham um bocadinho mais, há braços que apertam como quem fecha finalmente um parêntesis.
E nós percebemos que pertencemos. Que somos esperadas. Que a nossa ausência teve forma. Que a nossa chegada devolve qualquer coisa ao lugar.
Talvez seja isso a família: o lugar onde a nossa falta se nota.
Londres ensinou-me muitas coisas nestes dias. Ensinou-me que a amizade verdadeira atravessa anos como quem atravessa pontes. Que há cidades que nos dão mundo. Que caminhar também pode ser uma forma de pensar. Que os musicais, os museus e as ruas iluminadas alimentam uma parte de nós que às vezes fica esquecida no meio das responsabilidades.
Ensinou-me que precisamos de sair, às vezes, para respirar outro ar e lembrar que ainda há muito para viver.
Mas o regresso ensinou-me outra coisa, talvez ainda mais profunda: a felicidade completa precisa de ida e volta.
Precisa do aeroporto da partida e da porta de casa. Precisa das luzes de Piccadilly e da luz acesa à nossa espera. Precisa do teatro londrino e da mesa familiar. Precisa do mundo lá fora e dos braços cá dentro. Precisa da aventura e do abrigo.
E eu tive os dois.
Tive Londres no seu melhor e em boa companhia. Tive cinco dias extraordinários. Tive amizade celebrada, ruas novas, risos antigos, reencontros felizes, teatros, música, museus e vida.
E depois tive o regresso. O abraço quente dos meus. As flores. O jantar. A ternura concreta de quem ama sem grande espetáculo, mas com todos os detalhes.
Voltei.
E voltar, quando há amor à espera, é uma das formas mais bonitas de chegar.
Porque viajar alarga-nos os horizontes.
Mas regressar aos braços de quem nos ama lembra-nos onde estamos verdadeiramente inteiras.
Comentários
Enviar um comentário