Quem sou eu quando o dia termina e o quadro se apaga?
Quando o dia termina, o quadro apaga-se. E há qualquer coisa de estranho num quadro apagado depois de doze horas a ensinar Matemática. Parece limpo, parece vazio, parece que nada aconteceu. Mas aconteceu tudo.
Aconteceram números. Aconteceram dúvidas. Aconteceram erros, tentativas, silêncios, gargalhadas, chamadas de atenção, pequenas vitórias.
Aconteceram alunos.
As cadeiras voltam ao lugar, as mesas alinham-se, os papéis desaparecem, a sala ganha outra respiração. Fica quieta, como se também ela precisasse de descansar do futuro que passou ali o dia inteiro sentado.
E eu fico. Fico uns minutos sozinha, em silêncio, e pergunto-me, sem grande cerimónia:
quem sou eu quando o quadro se apaga?
Sou a professora que passou doze horas a traçar caminhos por entre os números. A que procura pontes onde eles só veem muros. A que transforma uma equação num mapa, uma função numa estrada, uma derivada numa forma de perceber o movimento das coisas. A que insiste que a Matemática não é um castigo antigo, mas uma língua difícil que também pode aprender-se com paciência.
Sou a que chega todos os dias com um sorriso, mil ideias, mil planos e uma espécie de fé teimosa no poder de recomeçar.
Chego cansada, muitas vezes. Mas feliz.
E termino cansada também. Mas feliz.
Há cansaços que pesam. E há cansaços que têm dentro uma luz. O meu, no fim destes dias longos, é quase sempre dos dois. Pesa-me no corpo, nas pernas, na voz, nos olhos. Mas traz uma luz pequena, feita de todos os momentos em que alguém percebeu alguma coisa que antes parecia impossível.
Quem sou eu quando um aluno me diz “não sou capaz”?
Sou a que não acredita logo.
Não porque desrespeite o medo, mas porque conheço demasiado bem os disfarces do medo. Às vezes, “não sou capaz” quer dizer “não tentei o suficiente”. Outras vezes quer dizer “já falhei antes”. Outras quer dizer “tenho medo que descubram que não sei”. E, muitas vezes, quer apenas dizer: “fica aqui comigo até isto fazer sentido”.
E eu fico.
Fico no exercício.
Fico no erro.
Fico no recomeço.
Fico no “vamos outra vez”.
Fico nesse lugar entre a desistência e a coragem, onde tantas vezes a educação começa de verdade.
Quem sou eu quando me dizem “não entendi”?
Sou a que apaga o caminho e desenha outro.
Porque ensinar talvez seja isto: aceitar que a mesma explicação não serve para todos. Há estudantes que precisam de uma reta. Outros precisam de uma curva. Outros precisam de uma imagem, de uma história, de uma pergunta, de silêncio, de tempo. Há quem chegue ao conhecimento pela porta da lógica. Há quem entre pela janela da metáfora.
E eu aprendi que uma sala de Matemática também é um lugar de invenção.
Inventam-se modos de chegar.
Inventam-se palavras para o medo.
Inventam-se degraus onde antes havia abismos.
Quem sou eu quando alguém me diz “tenho medo”?
Sou a que abranda.
Porque o medo não se resolve aos gritos. O medo não desaparece porque alguém diz “isso é fácil”. O medo precisa que lhe façam companhia até ficar mais pequeno. Precisa de método. Precisa de presença. Precisa de alguém que diga: “olha para isto por partes; não precisas de vencer o mundo inteiro de uma vez.”
Mas também sou a que não deixa o medo mandar em tudo.
Porque há medos que, se forem tratados como reis, ocupam a casa inteira.
Então eu acolho, mas puxo.
Compreendo, mas exijo.
Dou colo, mas não deixo adormecer no colo.
Quem sou eu quando a voz se eleva e me zango?
Sou ainda a mesma.
Talvez mais áspera por fora, mas não menos cuidadosa por dentro.
Zango-me quando alguém preguiça diante do próprio sonho. Quando desiste antes de tentar. Quando se abandona a si mesmo como se isso fosse uma coisa pequena. E não é. Desistir de si é sempre uma tragédia silenciosa.
Por isso, às vezes, a minha voz sobe de tom.
Sobe como quem acende uma luz numa sala escura. Sobe para dizer: “acorda”. Sobe porque há futuros em construção e eu não sei assistir calmamente a alguém deitar fora as próprias possibilidades.
Há amor na firmeza.
Nem toda a ternura é macia. Há ternuras que têm coluna vertebral. Há ternuras que dizem “não chega”. Há ternuras que não passam a mão pela cabeça quando o que falta é trabalho. Há ternuras que seguram nos ombros e dizem: “tu podes mais, e eu não te vou deixar fingir que não.”
Quem sou eu, então?
Sou talvez uma mulher que ensina Matemática para falar de vida.
Porque nos números há mais mundo do que parece. Há limites que se aproximam sem nunca tocar. Há funções que sobem e descem como os dias. Há infinitos que nos lembram que nem tudo cabe na nossa medida. Há problemas que parecem impossíveis até alguém nos ensinar a vê-los de outro ângulo.
E talvez seja isso que faço, dia após dia: ajudo-os a mudar de ângulo.
A olharem para um exercício e não verem apenas dificuldade.
A olharem para um erro e não verem fracasso.
A olharem para si próprios e não verem apenas medo.
Quando o dia termina e o quadro se apaga, fica uma sala vazia. Mas eu sei que o vazio é mentira. Há salas que ficam cheias mesmo depois de todos saírem.
Ficam cheias de vozes.
De perguntas.
De risos.
De “já percebi”.
De “não consigo”.
De “afinal era só isto?”.
De sonhos que ainda não sabem o caminho, mas já começaram a andar.
E eu fico ali, cansada e feliz, a arrumar as cadeiras como quem arruma pequenas constelações depois de uma noite inteira a ensinar estrelas a reconhecerem a própria luz.
Quem sou eu quando todos se vão embora?
Sou a Paula.
A que chega cedo e sai tarde.
A que se cansa e continua.
A que sorri mesmo com sono.
A que tem mil planos e ainda inventa mais um.
A que se zanga porque se importa.
A que abraça porque entende.
A que exige porque acredita.
A que ensina porque ainda acha que a educação pode mudar o tamanho do mundo.
Sou a mulher que fica quando o quadro se apaga.
E que, mesmo depois de apagar o quadro, continua por dentro a escrever uma frase simples, talvez a única que importa:
ainda há caminho.
E amanhã voltaremos juntos a traçá-lo.
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