Quantas horas tem o seu dia??
Hoje uma mãe perguntou-me:
“Quantas horas tem o seu dia, professora?”
Sorri. Porque há perguntas que parecem simples, mas trazem dentro uma vida inteira.
A verdade é que o meu dia tem as mesmas horas que o de toda a gente. Vinte e quatro. Nem mais uma. Nem menos um minuto. A matemática, nesse aspeto, é implacável. O tempo distribui-se por todos com a mesma medida. Não há privilégios no relógio. Não há dias com elástico, nem semanas com gavetas escondidas onde se guardam horas suplentes.
Mas há uma diferença entre ter tempo e fazer tempo.
E, ao ouvir aquela pergunta, lembrei-me do Miguel, o meu filho, ainda pequeno, talvez com oito anos. Um dia, na escola, perante uma tarefa que precisava de ser dividida pelos pais, virou-se prontamente para a professora de matemática e disse, com aquela segurança absoluta que só as crianças têm:
“A minha mãe faz isso… ela tem sempre tempo para tudo!”
Na altura, talvez eu tenha sorrido com ternura. Hoje, penso muitas vezes nessa frase.
Porque não, eu não tenho sempre tempo para tudo. Ninguém tem. Mas talvez tenha aprendido, com os anos, a ter tempo para aquilo que importa. E isso é muito diferente.
A vida não é uma equação simples. Não se resolve isolando uma incógnita, como se bastasse passar termos de um lado para o outro até tudo ficar arrumado. A vida é mais parecida com um sistema complexo, cheio de variáveis, imprevistos, dependências, afetos, urgências, cansaços, sonhos, contas por pagar, filhos a crescer, estudantes a precisar, família a chamar, trabalho a acumular e coração a tentar não ficar para trás.
Morin fala-nos da complexidade como essa impossibilidade de separar tudo em partes limpas, como se a vida coubesse em caixinhas independentes. E talvez seja mesmo isso: viver é gerir o que se mistura. O que é urgente com o que é importante. O que nos pedem com o que nos faz sentido. O dever com o amor. O cansaço com a vontade. O possível com o necessário.
Há dias em que tudo parece uma matriz enorme, cheia de linhas e colunas, onde tentamos encontrar alguma ordem. Há dias em que somamos tarefas, subtraímos descanso, multiplicamos preocupações e dividimos a nossa atenção por demasiados lugares. E, ainda assim, no meio dessa aritmética imperfeita, tentamos que o resultado final tenha humanidade.
Não faço tudo. Não consigo tudo. Não chego a tudo.
Mas tento chegar aos meus.
Tento chegar aos que amo. Aos que precisam de mim: à família, aos amigos, aos meus estudantes, àqueles que confiam em mim. Tento chegar, sobretudo, ao essencial.
E o essencial nem sempre faz barulho.
Às vezes é uma mensagem respondida tarde da noite. Uma dúvida esclarecida num domingo. Uma fotocópia preparada sem ninguém pedir. Um café tomado com alguém que precisava de falar. Uma boleia. Um abraço. Um “eu trato disso”. Um “vai correr bem”. Um “estou aqui”.
Talvez seja por isso que algumas pessoas acham que tenho muitas horas no dia. Mas não são horas a mais. São prioridades alinhadas com amor.
Porque quando fazemos as coisas só por obrigação, o tempo pesa. Mas quando fazemos por amor, o tempo também cansa, claro que cansa, mas ganha sentido. E o sentido não elimina o cansaço, mas dá-lhe uma espécie de luz.
Aprendi que não se pode dar tempo a todos da mesma forma. Mas podemos dar verdade ao tempo que damos.
Podemos estar dez minutos com alguém e esses dez minutos valerem mais do que uma tarde inteira distraída. Podemos fazer uma tarefa pequena com tanta atenção que ela deixa de ser pequena. A matemática ensina-nos que o tempo se mede. A vida ensina-nos que o tempo se oferece.
E talvez o segredo esteja aí: não em ter mais horas, mas em saber a quem, ao quê e porquê entregamos as horas que temos.
O Miguel, aos oito anos, achava que eu tinha sempre tempo para tudo. Hoje sei que ele via, talvez sem saber explicar, aquilo que as crianças veem tão bem: o esforço invisível de quem ama. Ele não via a agenda cheia, as noites curtas, as tarefas acumuladas, o cansaço escondido. Via apenas que, quando era preciso, a mãe aparecia.
E talvez seja isso que ainda tento fazer.
Aparecer.
Mesmo sem ter tempo para tudo. Mesmo quando o dia é pequeno. Mesmo quando a vida se torna complexa demais para caber numa equação. Mesmo quando me falta descanso, silêncio ou margem.
Porque há pessoas que são prioridade para mim antes de qualquer lista.
E se me perguntarem quantas horas tem o meu dia, talvez eu responda: tem vinte e quatro, como todos os outros. Mas algumas horas, quando são dadas com amor, parecem verdadeiramente maiores por dentro.
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