Vivemos numa época de contradições
Vivemos numa época de contradições.
Dizemos que queremos jovens livres, autónomos, curiosos, capazes de pensar pela própria cabeça. Queremos que não vivam demasiado dependentes das tecnologias, mas, muitas vezes, não lhes damos em casa exemplos de leitura. Há ecrãs ligados, telemóveis sempre à mão, notificações a interromper conversas, mas poucos momentos em que uma criança veja um adulto sentado, tranquilamente, a ler.
Depois estranhamos que não leiam.
Estranhamos que não tenham paciência para livros, que fujam de textos longos, que prefiram vídeos curtos, respostas rápidas, estímulos imediatos. Mas quando fazem anos, ou chega o Natal, contam-se pelos dedos das mãos os que recebem um livro. Oferecemos tecnologia, roupa, dinheiro, acessórios, experiências, mas raramente oferecemos esse objeto simples e revolucionário que ensina uma das coisas mais difíceis: estar quieto por dentro.
Também dizemos que os jovens vivem ocupados, cansados, ansiosos, sem tempo para si. E vivem. Mas, ao mesmo tempo, entopimo-los de atividades como se a infância e a adolescência fossem currículos a preencher. Futebol, vólei, andebol, natação, ginástica, inglês, explicações. E o problema não está em terem atividades. O problema está no excesso. Está na exigência. Está na forma como quase tudo deixou de ser experiência e passou a ser performance.
O desporto, por exemplo, pode ser maravilhoso. Ensina disciplina, cooperação, resistência, humildade, espírito de equipa, relação com o corpo e com os outros. Não sou contra o desporto. Nunca fui. Sempre fiz desporto. Os meus filhos também fizeram. O que me inquieta é outra coisa: é quando uma atividade que devia ser prazer, saúde e convívio se transforma demasiado cedo numa máquina de rendimento.
Há crianças e adolescentes com três treinos por semana, mais o jogo ao fim de semana. Há horários tardios, exigências físicas intensas, pressão para melhorar, para ganhar, para ser titular, para não falhar, para aguentar. Há corpos ainda em crescimento tratados como se fossem corpos adultos. Há músculos, ossos, articulações e cabeças a serem puxados para uma lógica de competição que, muitas vezes, não respeita a idade, o descanso, o sono nem o direito ao cansaço.
E isto não é apenas uma impressão de quem olha para os jovens com preocupação. A Academia Americana de Pediatria alerta que os desequilíbrios entre carga de treino e recuperação podem ter consequências negativas, e que as lesões por sobrecarga resultam de stress repetitivo sem recuperação suficiente, causando dano musculoesquelético acumulado. A literatura sobre especialização desportiva precoce também associa o treino intenso e a concentração num só desporto a maior risco de lesões por sobrecarga e burnout, reforçando a importância da diversidade de atividades, do descanso e da adequação da exigência à idade.
Ou seja: mexer o corpo faz bem. Brincar, correr, nadar, jogar, aprender uma modalidade, pertencer a uma equipa — tudo isso pode ser profundamente saudável. Mas uma coisa é promover atividade física, prazer, saúde e socialização. Outra coisa é transformar crianças e adolescentes em pequenos atletas de alto rendimento, com agendas de adultos e corpos que ainda estão a crescer.
E tudo isto em nome de quê?
De uma promessa vaga de sucesso? De uma ideia de futuro? De uma medalha? De uma fotografia nas redes sociais? De uma competição onde todos têm de ser os melhores, os maiores, os mais esforçados, os mais resistentes?
A verdade é que estamos a transformar demasiadas infâncias em agendas. E demasiadas adolescências em provas de resistência.
Depois chegam a casa tarde. Jantam tarde. Estudam tarde. Fazem trabalhos nas horas em que deviam descansar. Tentam memorizar matéria com o corpo esgotado e a cabeça já sem luz. E no dia seguinte pedimos-lhes concentração, boas notas, equilíbrio emocional, capacidade de organização, motivação e alegria. Como se o sono fosse opcional. Como se o descanso fosse perda de tempo. Como se crescer não exigisse pausas.
Há aqui uma contradição difícil de ignorar. Dizemos a um estudante que ele não é a nota que tira. Dizemos que é mais do que a média, mais do que o exame, mais do que um número. E é verdade. Um jovem é infinitamente mais do que a sua classificação. Mas depois construímos um sistema em que, para seguir determinados sonhos, precisa precisamente dessa média. Para entrar no curso que deseja, precisa daquele número. Para abrir uma porta, precisa daquela nota. Então dizemos uma coisa bonita, mas a realidade responde com uma pauta.
Já lhes basta essa pressão.
Já lhes basta um sistema que os mede, compara e seleciona. Já lhes basta a ansiedade dos testes, dos exames, das médias, das vagas, das escolhas demasiado cedo. Talvez não precisássemos de transformar também o lazer em competição, o corpo em projeto de rendimento e o tempo livre em mais uma obrigação.
Não se trata de defender jovens parados, desligados, sem regras ou sem compromisso. Trata-se de recuperar algum bom senso. Uma criança precisa de movimento, sim. Precisa de brincar, correr, cair, experimentar, perder, ganhar, aprender a lidar com o corpo e com os outros. Um adolescente precisa de desafios, de pertença, de atividades que o ajudem a crescer. Mas também precisa de tempo livre. Precisa de tédio. Precisa de silêncio. Precisa de tardes sem objetivo. Precisa de dormir. Precisa de ler sem ser para avaliação. Precisa de estar com amigos sem competição. Precisa de existir sem estar sempre a provar alguma coisa.
O tempo vazio não é inútil. É nele que a imaginação respira. É nele que o pensamento se organiza. É nele que a ansiedade baixa o volume. É nele que se descobre quem se é quando ninguém está a avaliar.
Talvez o grande problema da nossa época seja este: queremos jovens felizes, mas organizamos-lhes vidas exaustivas. Queremos que sejam livres, mas enchemos-lhes os dias de obrigações. Queremos que sejam leitores, mas não lhes damos livros nem exemplo. Queremos que sejam saudáveis, mas confundimos saúde com rendimento. Queremos que tenham autoestima, mas colocamo-los permanentemente em comparação.
Tudo tem de ser útil. Tudo tem de render. Tudo tem de contar para alguma coisa.
Mas há coisas essenciais que não contam para currículo nenhum.
Uma conversa calma. Uma noite bem dormida. Um livro oferecido sem obrigação.
Um passeio sem pressa. Um treino feito por prazer.
Uma derrota sem drama. Uma infância que não precise de provar que vale a pena.
Talvez educar também seja saber parar. Saber dizer: hoje não. Hoje descansas. Hoje não tens de ser o melhor. Hoje basta seres tu.
Porque não é possível pedir equilíbrio a jovens que vivem desequilibrados pelos adultos. Não é justo exigir-lhes serenidade quando lhes damos pressa. Não é honesto criticar a dependência dos ecrãs quando tantas vezes lhes tiramos as alternativas lentas, humanas e silenciosas: a leitura, a conversa, o descanso, o brincar, o nada.
Precisamos de devolver tempo aos nossos jovens.
Tempo para estudar com cabeça. Tempo para dormir com corpo inteiro. Tempo para ler sem pressa. Tempo para praticar desporto sem se sentirem atletas profissionais aos doze anos.
Tempo para falhar sem plateia. Tempo para crescer sem estarem sempre em prova.
Porque uma criança não é um projeto de alta performance.
Um adolescente não é uma agenda ambulante.
E educar não pode ser apenas preparar para vencer.
Às vezes, educar é proteger do excesso.
É lembrar que a vida não se constrói só com metas, treinos, notas, exames e certificados. Constrói-se também com descanso, presença, livros, afeto, liberdade e tempo.
Sobretudo tempo.
Esse lugar raro onde os jovens deixam de estar a correr para algum lado e começam, finalmente, a encontrar-se.
NOTA: A parte científica integrada neste texto está alinhada com o relatório clínico da Academia Americana de Pediatria sobre lesões por sobrecarga, sobretreino e burnout em jovens atletas, que refere os riscos de desequilíbrio entre treino e recuperação, e com revisões sobre especialização desportiva precoce, que associam maior especialização a maior risco de lesões por sobrecarga.https://publications.aap.org/pediatrics/article/153/2/e2023065129/196435/Overuse-Injuries-Overtraining-and-Burnout-in-Young?utm_source=chatgpt.com?autologincheck=redirected
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