Os vossos sonhos são os meus

Às 8h20 chego ao café da minha rua.

O café vem primeiro. Combustível. Pequeno ritual de sobrevivência antes de começar o dia. Há quem precise de silêncio, há quem precise de meditação, há quem precise de correr dez quilómetros. Eu preciso daquele café, naquele balcão, àquela hora, antes de entrar na minha sala e começar mais uma travessia.

Às 8h30 entro.

A sala ainda está quase intacta. As mesas alinhadas, os cadernos à espera, o quadro limpo, como se o dia ainda não tivesse decidido que forma vai ter. Mas eu sei. Vai ter a forma deles.

Encontro o primeiro grupo.

Chegam com sono, com pressa, com dúvidas, com mochilas pesadas e aquela expressão de quem traz dentro da cabeça uma guerra silenciosa entre o medo e a esperança. Começam as primeiras perguntas, os primeiros enganos, os primeiros acertos. E, felizmente, as primeiras gargalhadas. Porque uma sala onde se aprende sem rir é uma sala onde qualquer coisa ficou por ensinar.

Depois vêm outros.

Um grupo a seguir ao outro. As dúvidas sucedem-se, às vezes as mesmas dúvidas, nos mesmos exercícios, nas mesmas páginas, com os mesmos tropeções. E, ainda assim, nunca me aborreço de repetir. Nunca me canso de refazer. Nunca me pesa explicar outra vez.

Talvez porque nunca é exatamente a mesma explicação.

O exercício pode ser igual, mas o aluno não é. A dúvida pode parecer repetida, mas o medo por trás dela é sempre de alguém concreto. Cada um precisa de uma palavra diferente, de um ritmo diferente, de um modo diferente de chegar ao mesmo lugar.

E é isso que fazemos, hora após hora: procuramos caminhos.

O dia avança. As dúvidas também. E, pelo meio, o conhecimento vai ganhando forma. Primeiro é uma coisa vaga, quase nevoeiro. Depois começa a ter contornos. Uma fórmula deixa de ser um bicho estranho. Um gráfico começa a falar. Uma equação, que parecia fechada como uma porta antiga, abre-se de repente.

E há aquele momento.

O momento em que eles percebem.

Não há troféu maior.

Somos unidos. Há entre nós uma força que não se vê, mas que se sente. Uma força que não falha facilmente. Que nos segura quando o cansaço aparece. Que nos impede de desistir quando o exercício não sai, quando a nota assusta, quando o exame parece maior do que a coragem.

Essa força chama-se confiança.

Confiança construída devagar. Exercício a exercício. Erro a erro. Dia a dia. Não nasce de discursos bonitos, nem de promessas fáceis. Nasce da presença. De estarmos ali. De sabermos que, se for preciso, voltamos ao início. De sabermos que ninguém fica para trás por estar a demorar mais tempo.

Há ligações que se criam assim, nesta base sólida e invisível. Entre contas, esquemas, chamadas de atenção, gargalhadas e silêncios concentrados. Há uma espécie de matemática secreta naquilo que nos une: somamos esforço, subtraímos medo, multiplicamos confiança e dividimos o peso dos dias difíceis.

E, às vezes, falamos de infinitos como metáforas de vida.

Porque há infinitos na Matemática e há infinitos nos sonhos. Há infinitos no que ainda não sabemos. Há infinitos no que podemos vir a ser. Há infinitos pequenos escondidos no instante em que um aluno percebe que afinal consegue.

O dia avança.

Doze horas quase sem parar.

Sempre animada, mesmo quando o corpo já pede tréguas. Sempre exigente, porque acredito neles. Sempre firme, porque sei o que podem alcançar. Mas tentando não perder a calma, mesmo quando tenho de chamar a atenção com firmeza.

E há amor nessa firmeza.

Há amor quando digo “faz outra vez”. Há amor quando insisto. Há amor quando não aceito o “não consigo” à primeira. Há amor quando peço mais, não porque o que fizeram não chega para mim, mas porque sei que eles podem chegar mais longe.

Há amor nas horas de trabalho árduo.

Nas minhas e nas deles.

Todos temos um sonho.

O meu é o deles.

Pode parecer exagero, mas não é. Quando um aluno sonha entrar num curso, melhorar uma nota, vencer o medo da Matemática, provar a si mesmo que consegue, esse sonho entra também na minha sala. Senta-se connosco à mesa. Fica escrito no quadro. Acompanha-nos nos exercícios. Mora nos cafés, nas mensagens, nos planos, nos cadernos, nos dias longos.

Trabalhamos desde o instante zero para fazer acontecer.

Sem magia. Sem atalhos. Sem prometer facilidades.

Com método. Com disciplina. Com confiança. Com afeto. Com aquela teimosia bonita de quem sabe que os sonhos não se cumprem apenas porque os desejamos muito. Cumprem-se porque lhes damos horas, atenção, coragem e trabalho.

O dia termina comigo a limpar a sala.

Há qualquer coisa de quase sagrado nesse momento. Depois de tanta gente, tantas vozes, tantas dúvidas, tantas contas, fica o silêncio. Arrumo as cadeiras, apago vestígios do quadro, recolho papéis, endireito o que ficou fora do sítio.

Dou comida à Emília.

E deixo tudo alinhado para que, daqui a umas horas, tudo volte ao lugar certo e ao início.

Porque amanhã serão mais doze horas.

Talvez com as mesmas dúvidas. Talvez com os mesmos exercícios. Talvez com os mesmos medos. Mas também com novas pequenas vitórias, novas gargalhadas, novos instantes em que alguém vai descobrir que sabe mais do que pensava.

Sem pausas e sem pressa.

No ritmo deles.

Na vida organizada de todos os dias em torno de um objetivo comum:

os vossos sonhos são os meus.

E talvez seja por isso que continuo.

Porque ensinar não é apenas explicar matéria. É estar presente no caminho de alguém. É acreditar antes, durante e depois. É ser exigente sem deixar de ser humana. É saber que uma nota não define uma vida, mas também saber que pode abrir uma porta. É ajudar a construir essa porta, mesmo que seja preciso aparafusar cada dobradiça com paciência.

No fim, peço apenas isto: que a vida lhes seja leve, generosa e abençoada.

Que os sonhos se cumpram.

Que a vida aconteça.

Feliz.

E que, um dia, quando olharem para trás, se lembrem desta sala não apenas como o lugar onde fizeram exercícios, mas como o lugar onde alguém lhes disse, muitas vezes e de muitas formas:

eu acredito em ti.

Agora vamos trabalhar.

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