O princípio do voo
Ontem foi a festa de final de ano do Colégio de São Miguel.
Havia música, cor, palavras bonitas ditas com a voz um pouco tremida, sorrisos que tentavam ser inteiros e lágrimas que chegavam antes de serem chamadas. Havia aquela luz própria dos dias importantes: uma luz que não vem das lâmpadas, nem dos holofotes, nem sequer do palco. Vem dos olhos. Dos olhos de quem cresceu. Dos olhos de quem viu crescer.
E eu vi-os ali. Alguns dos meus finalistas.
Os meus meninos grandes.
Aqueles que, durante anos, foram entrando pela porta com mochilas, dúvidas, pressas, medos, contas por resolver, fórmulas por decorar, testes à espreita e sonhos ainda meio escondidos dentro dos bolsos. Semana após semana, estivemos juntos na luta pela nota, pelo exame, pela média, pelo curso, pelo futuro. Mas, sem darmos por isso, estivemos também noutra luta maior: a de crescer.
Eles cresceram. E eu, de alguma forma, também.
Porque ensinar nunca é apenas explicar matéria. É aprender a ler silêncios. É perceber quando um “não estudei” quer dizer cansaço, quando um “não consigo” quer dizer medo, quando um sorriso distraído esconde uma tempestade inteira. Ensinar é insistir sem esmagar. É acreditar antes deles. É segurar o fio quando eles acham que já perderam o novelo.
E depois chega este tempo estranho do ano.
O tempo em que as férias começam a aparecer ao fundo como uma promessa boa. O tempo em que todos estamos cansados e precisamos de descanso. O tempo em que apetece fechar livros, arrumar folhas, desligar despertadores e respirar. Mas é também o tempo das despedidas. E as despedidas, mesmo quando são bonitas, doem sempre um bocadinho.
Talvez porque despedir-nos de um estudante seja despedirmo-nos também de uma versão nossa. Da professora que fomos para aquele grupo. Das tardes repetidas. Das piadas internas. Das pequenas vitórias. Da primeira vez em que perceberam aquilo que parecia impossível. Da nota que subiu. Do medo que diminuiu. Da confiança que nasceu devagarinho, como nascem as coisas importantes: sem fazer barulho.
Ainda os vou ter comigo mais alguns dias. Ainda serão meus estudantes por mais algum tempo. Ainda haverá perguntas, revisões, conselhos, talvez algum stress de última hora, porque os finais também gostam de chegar com pressa. Mas hoje, no meio daquela festa linda, percebi que o adeus já começou a sentar-se ao meu lado.
E eu não gosto muito dele.
Nunca gostei.
Há quem pense que os professores se habituam. Que, depois de tantos anos, as despedidas se tornam rotina. Não se tornam. Podemos aprender a sorrir melhor. Podemos disfarçar com mais elegância. Podemos dizer “vai correr tudo bem” com a voz firme. Mas por dentro há sempre uma gaveta que fica entreaberta.
Porque alguns estudantes não passam apenas pelas nossas salas. Passam por nós.
Ficam numa frase, numa gargalhada, numa conquista, num “consegui”, num “obrigado”, num olhar mais seguro do que aquele que tinham quando chegaram. E, quando partem, levam consigo uma parte do caminho que fizemos juntos. Levam as explicações, sim. Levam os apontamentos, talvez. Mas eu espero que levem também uma coisa maior: a certeza de que alguém acreditou neles.
Hoje vi-os quase prontos para voar.
E é isso que torna tudo tão bonito e tão difícil. Porque educar é, no fundo, isto: cuidar de asas que não nos pertencem. Ajudar a fortalecê-las. Ensinar-lhes o vento, a queda, a coragem. E depois ficar no chão, com o coração apertado, a vê-los partir noutra direção.
Com orgulho. Com saudade antecipada.
Com uma lágrima teimosa no canto do olho.
Eles vão. E ainda bem que vão. O mundo precisa deles. Dos seus talentos, das suas dúvidas, da sua alegria, da sua inquietação, daquilo que ainda nem sabem que são capazes de ser.
Eu fico mais um pouco.
Fico no mesmo lugar de sempre, entre livros, contas, palavras, recomeços e outros estudantes que hão de chegar. Mas estes, os que agora partem, ficam também. Porque há pessoas que saem da nossa rotina, mas não saem da nossa história.
E talvez seja essa a forma mais bonita de ser professora: saber que todos os anos há partidas, mas saber também que isso significa apenas um "Até já".
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