Londres, nós e trinta e cinco anos de conversa

Há viagens que começam muito antes do aeroporto.

Esta começou há trinta e cinco anos, talvez no primeiro minuto em que nos reconhecemos. Não sei se há amizades que nascem devagar. A nossa não. A nossa entrou pela vida dentro como quem já vinha atrasada para ficar. Desde o primeiro instante houve qualquer coisa de casa, de riso fácil, de cumplicidade sem esforço. Uma daquelas certezas raras: esta pessoa é minha. Não no sentido da posse, mas no sentido do abrigo.

Hoje vamos para Londres.

E escrevo isto com a alegria simples das primeiras vezes. Porque, apesar de tudo o que já vivemos juntas, esta será a nossa primeira viagem só nossa. A primeira vez que fazemos mala, aeroporto, ruas desconhecidas, mapas, cafés, mercados, fotografias e passos dados lado a lado noutra cidade. A primeira vez que levamos a nossa amizade para fora do país como quem leva uma coisa preciosa no bolso do casaco.

Há qualquer coisa de bonito nisto: depois de tantos anos, ainda haver primeiras vezes.

Vamos a Londres, mas talvez Londres ainda não saiba bem quem vai receber. Duas amigas desde sempre. Duas companheiras de vida. Duas mulheres que já se viram rir até doer a barriga, chorar até faltar o ar, sobreviver a dias difíceis, celebrar vitórias, guardar segredos, inventar planos, mudar de vida, cair, levantar e continuar. Duas pessoas que têm sempre assunto — e quando o assunto acaba, inventam outro. E quando não inventam, basta estarem juntas.

Somos assim: uma conversa que nunca ficou concluída.

No primeiro dia, Camden. Porque há cidades que também precisam de começar pelo lado mais livre, mais colorido, mais barulhento, mais improvável. Quero perder-me ali contigo entre bancas, sons, cheiros, fachadas extravagantes e aquela sensação boa de que o mundo é maior do que a rotina.

Depois Portobello, Notting Hill, essa geografia íntima de um dos filmes da minha vida. Há lugares que visitamos porque existem no mapa; outros porque já existiam dentro de nós.

Notting Hill é um desses.

E talvez, em algum momento, eu ouça dentro da cabeça a minha música favorita, She, como se Londres a colocasse baixinho só para mim. Há músicas que não são apenas músicas. São uma forma de memória. São uma casa invisível. São aquilo que sentimos quando as palavras normais ficam pequenas.

Depois Portobello Road Market, com a sua mistura de antiguidades, cores, objetos com passado, gente a passar, histórias em cima de mesas. Gosto da ideia de irmos ali, nós que também somos feitas de memórias, a caminhar entre coisas que tiveram outras vidas. Talvez seja isso a amizade longa: uma espécie de mercado bonito onde se guardam pedaços de tudo o que fomos. Há risos antigos, dores antigas, fotografias que já amareleceram por dentro, frases que só nós entendemos, episódios que continuam a fazer-nos rir anos depois.

E, mais tarde, Holland Park. Um lugar para respirar. Para abrandar. Para deixar que Londres nos aconteça sem pressa. Porque viajar contigo é também isso: não é só ver lugares, é habitá-los por instantes com a certeza de que estamos acompanhadas por alguém que nos conhece por dentro.

A nossa amizade tem esta coisa rara: não precisa de explicações longas. Há olhares que chegam. Há silêncios que não pesam. Há frases começadas por uma e terminadas pela outra. Há um entendimento que não se improvisa, porque foi sendo construído dia após dia, ano após ano, vida após vida dentro desta vida.

És a minha irmã.

Não a irmã que nasceu comigo, mas a que a vida teve a delicadeza de me entregar. A irmã escolhida, encontrada, reconhecida. A irmã das gargalhadas, das mensagens a qualquer hora, dos conselhos sinceros, das preocupações, das celebrações, das memórias que ninguém nos tira. A irmã que ficou. E ficar, hoje em dia, talvez seja uma das formas mais bonitas de amor.

Hoje vamos para Londres.

E eu vou feliz. Feliz por ir. Feliz por irmos juntas. Feliz por ainda haver mundo para ver contigo. Feliz por termos chegado aqui com tanto caminho atrás e tanto caminho pela frente. Feliz porque a amizade, quando é verdadeira, também viaja: leva-nos mais longe, mas lembra-nos sempre quem somos.

Algumas viagens são lugares. Outras são pessoas.

Esta viagem és tu.

E eu. E esta amizade que começou no primeiro minuto e continua, trinta e cinco anos depois, com a mesma certeza de sempre: temos mundo pela frente e assunto para a vida inteira.

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