Londres, entre ruínas, jardins suspensos e saudades de casa
Há dias de viagem que parecem feitos de contrastes.
Começámos por St Dunstan-in-the-East, esse lugar improvável onde Londres parece parar para respirar. Uma igreja em ruínas transformada em jardim. Pedras antigas, janelas abertas para o céu, plantas a crescerem por entre aquilo que ficou de pé.
Gosto destes lugares que não escondem as marcas do tempo. Pelo contrário: fazem delas beleza. Como se dissessem que nem tudo o que se parte desaparece. Às vezes, transforma-se. Às vezes, floresce de outra maneira.
Depois subimos ao Garden at 120, e Londres apareceu-nos de cima, mais larga, mais luminosa, mais cidade. Há qualquer coisa de especial em ver uma cidade do alto. As ruas por onde andámos tornam-se linhas, os prédios tornam-se peças de um tabuleiro, e nós percebemos que somos pequenas dentro daquele movimento todo. Pequenas, mas inteiras. Pequenas, mas ali. A viver.
E vivemos muito. Caminhámos. Muito. Muito mesmo. Londres é também isto: pés cansados, mapas abertos, estações de metro, ruas que se atravessam quase sem dar conta, esquinas que nos chamam, lojas que nos puxam, sacos que começam leves e acabam com personalidade própria.
Passámos por Oxford Street, claro. A grande avenida das tentações, das luzes, das montras, das pessoas apressadas e das compras que começam por “é só ver” e acabam em “pronto, já que cá estamos…”. Há sítios onde uma pessoa entra apenas para espreitar e sai com mais uma história dentro de um saco.
Depois Carnaby Street, com aquele ar criativo, colorido, quase insolente, como se a cidade ali se lembrasse de que também sabe brincar. E Piccadilly Circus, sempre elétrico, sempre cheio, sempre um bocadinho teatral.
Há lugares que não precisam de silêncio para nos impressionar. Piccadilly impressiona pelo excesso: luzes, movimento, gente, ecrãs, vozes, pressa, cidade em estado puro.
E, ao fim do dia, voltámos a Chinatown. Sim, outra vez.
Porque eu sou viciada. Assumo sem resistência. Há vícios bem mais graves do que querer voltar a uma rua cheia de luzes, aromas, lanternas, restaurantes, movimento e comida que nos consola depois de muitos quilómetros nos pés.
Chinatown tem qualquer coisa de festa e abrigo ao mesmo tempo. Talvez seja isso. Talvez eu goste de acabar o dia num lugar onde tudo parece vivo, quente e cheio de histórias.
Pelo meio, houve compras, conversas, gargalhadas, fotografias, decisões tomadas à porta das lojas, indecisões demoradas, passos a mais, fome, cansaço e aquela alegria simples de andar numa cidade estrangeira com alguém que é casa.
Mas também há saudades. Saudades de casa. Dos meus. Das minhas pessoas. Da minha rotina, mesmo quando a rotina me engole. Saudades daquele lugar onde pertenço sem precisar de pensar. Há uma parte de mim que viaja feliz e outra que fica sempre com um pé na vida que deixou por uns dias. Talvez seja assim quando se ama muito o que se tem: a distância não pesa, mas acompanha.
Ainda assim, sinto que precisava destes dias.
Depois de um ano letivo tão intenso, tão cheio, tão exigente, eu precisava de me afastar um pouco para voltar a mim. Precisava de caminhar sem estar sempre a correr por dentro. Precisava de ver outras ruas, ouvir outras línguas, perder-me em lojas, rir com a minha melhor amiga, sentar-me à mesa sem pressa, olhar para uma cidade imensa e lembrar-me de que a vida também é isto: pausa, descoberta, amizade, espanto.
Às vezes, descansar não é parar. Às vezes, descansar é mudar de cenário. É deixar que outra cidade nos empreste luz. É caminhar até os pés doerem e, mesmo assim, sentir que a alma ficou mais leve.
Brevemente volto para eles. Volto para casa. Volto para os meus. Volto para a vida de todos os dias, para os abraços conhecidos, para os sons familiares, para aquilo que me segura. E sei que, quando voltar, volto melhor.
Volto com Londres nos olhos, com histórias para contar, com fotografias no telemóvel, com sacos a mais na mala e com o coração mais inteiro.
Porque a casa chama sempre. E eu volto sempre.
Mas estes dias também eram precisos. Precisava de me lembrar de que, antes de cuidar, ensinar, resolver, organizar, corrigir, acompanhar e estar disponível para todos, também preciso de me levar a passear pela vida.
E hoje, entre St Dunstan-in-the-East, o Garden at 120, Oxford Street, Carnaby Street e Piccadilly Circus senti isso com muita clareza:
tenho saudades de casa, sim. Mas também tinha saudades de mim.
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