Londres, domingo — três amigas e uma cidade a dançar
Há domingos que parecem feitos para caminhar devagar, mesmo quando os pés já dizem o contrário.
Este domingo começou em Brick Lane, essa rua onde Londres parece misturar tudo sem pedir licença: cheiros, línguas, cores, arte nas paredes, bancas, lojas improváveis, gente de todos os lados, vidas a cruzarem-se sem saberem que fazem parte da mesma fotografia.
Gosto destes lugares que não se arrumam demasiado. Lugares com alma desalinhada, onde a cidade se mostra menos polida e mais verdadeira.
Depois, Old Spitalfields Market. Mercados têm sempre qualquer coisa de promessa. Nunca sabemos exatamente o que vamos encontrar: uma peça bonita, uma comida nova, uma conversa inesperada, uma memória que acorda diante de um objeto qualquer.
Caminhámos entre bancas, luz, movimento e aquela alegria simples de quem está longe de casa, mas acompanhada por pessoas que sabem fazer casa em qualquer lugar.
E hoje éramos três. Eu, a minha irmã de vida, e a Ana.
A Ana que nos acolheu. Que nos deu casa. Que cuidou de nós com essa generosidade bonita de quem abre a porta e, sem grande cerimónia, nos faz sentir pertencentes.
Não nos víamos há anos. E há qualquer coisa de quase milagroso em reencontrar alguém depois de tanto tempo e perceber que, afinal, há laços que não envelhecem. Ficam apenas em pausa, à espera do abraço certo para voltarem ao lugar.
Tem sido muito, muito bom.
Bom no sentido simples e inteiro da palavra. Bom como uma mesa partilhada. Bom como uma conversa que recomeça sem pedir autorização ao tempo. Bom como rir de coisas antigas e descobrir coisas novas. Bom como sentir que a distância não apagou a ternura, nem o cuidado, nem esta forma bonita de nos reconhecermos.
Pelo meio, caminhámos. Muito. Londres continua a exigir-nos pernas, atenção e alguma fé nos mapas. Mas há caminhadas que valem pelo que se vê e outras pelo que se conversa enquanto se caminha.
As nossas têm sido das duas espécies. Vemos ruas, mercados, fachadas, esquinas e gente. Mas também vamos vendo umas às outras, entre confidências, memórias, gargalhadas e aquele conforto raro de se estar com pessoas que não exigem explicações para tudo.
E depois veio o ABBA Voyage.
Há experiências difíceis de explicar a quem não esteve lá. O corpo percebe antes das palavras. As luzes, a música, a energia, a sensação de estarmos dentro de uma memória coletiva e, ao mesmo tempo, dentro de uma festa futurista.
ABBA é isso: canções que atravessam gerações e nos fazem acreditar, por instantes, que a vida pode ser mais leve, mais brilhante, mais dançável.
E ali estávamos nós, duas amigas, a deixar que a música nos levasse para um lugar onde a idade, o cansaço e as preocupações ficam temporariamente à porta.
Ao fim do dia, jantar num sítio fancy. Porque também merecemos. Porque há dias que pedem uma mesa bonita, comida boa, copos levantados e tempo sem pressa.
Sentámo-nos ali como quem celebra mais do que uma viagem. Celebrámos a amizade. A presença. O reencontro. A sorte de ainda podermos viver estes momentos.
Hoje Londres foi cenário, mas a história fomos nós.
Três amigas juntas. Uma viagem. Muitos passos. Um concerto que nos pôs a dançar por dentro. Um jantar bonito. E esta sensação profunda de gratidão por quem nos acolhe, por quem fica, por quem regressa, por quem cuida.
Amanhã talvez haja mais ruas, mais mapas, mais cafés, mais fotografias.
Mas hoje fica isto: Brick Lane, Old Spitalfields Market, ABBA Voyage, um jantar fancy e três mulheres felizes por estarem juntas.
E há dias em que isso basta. Aliás, há dias em que isso é tudo.
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