Ensino Matemática com rigor, mas não ensino números a cadeiras vazias....Ensino pessoas.
Ensino Matemática há 35 anos.
Escrever esta frase obriga-me a parar um pouco. Trinta e cinco anos são muitos cadernos abertos, muitos quadros escritos e apagados, muitas funções desenhadas, muitas equações resolvidas, muitas dúvidas repetidas, muitos exames preparados, muitos estudantes que chegaram assustados e saíram um pouco mais confiantes. São muitas horas de explicação, de insistência, de silêncio, de gargalhadas, de ansiedade, de vitórias pequenas e de algumas lágrimas também.
Ensinar Matemática durante tanto tempo ensinou-me uma coisa que talvez não venha escrita nos programas: ninguém aprende só com a cabeça.
Aprende-se com a cabeça, sim. Com raciocínio, método, memória, treino, atenção, disciplina e persistência. Mas aprende-se também com o coração. Aprende-se quando há confiança. Quando há vínculo. Quando o estudante sente que pode errar sem ser humilhado. Quando percebe que a pergunta dele não é ridícula. Quando sabe que há alguém ali, do outro lado, que não vai desistir dele antes de ele próprio ter tempo de acreditar que consegue.
Durante muitos anos, a Matemática foi vista como uma espécie de território frio. Um lugar de números, fórmulas, símbolos, regras e resultados certos ou errados. Mas quem ensina Matemática todos os dias sabe que ela nunca é apenas isso. A Matemática é também medo. É frustração. É vergonha. É orgulho. É ansiedade. É coragem. É alívio. É aquele brilho nos olhos quando, de repente, tudo encaixa. É a mão que treme antes de começar um exercício. É o “não consigo” dito tantas vezes antes do primeiro “afinal consegui”.
Por isso, ensinar Matemática é muito mais do que explicar Matemática.
É explicar, claro. É exigir. É corrigir. É treinar. É voltar atrás. É insistir no rigor, na linguagem, no raciocínio, na clareza dos passos. É dizer que não basta chegar ao resultado, é preciso justificar o caminho. É mostrar que um problema não se resolve aos saltos, como também a vida raramente se resolve aos saltos.
Mas ensinar Matemática é também ensinar a respirar diante da dificuldade.
É ensinar que errar não é uma sentença.
É ensinar que uma dúvida não é uma vergonha.
É ensinar que a ansiedade não pode sentar-se no lugar do pensamento.
É ensinar que a pressa atrapalha.
É ensinar que há problemas que precisam de tempo, de estratégia e de paciência.
É ensinar que desistir ao primeiro obstáculo é perder a oportunidade de descobrir uma força que ainda não sabíamos ter.
Ao longo destes 35 anos, aprendi que muitos estudantes não chegam até mim a precisar apenas de uma explicação sobre derivadas, equações, funções, probabilidades ou geometria. Chegam a precisar de alguém que lhes devolva alguma confiança. Chegam cansados de ouvir que “não dão para isto”, que “a Matemática não é para todos”, que “nunca vão conseguir”. Chegam, tantas vezes, com uma história de medo colada à disciplina.
E talvez uma das tarefas mais bonitas de quem ensina seja precisamente esta: separar o estudante do medo que ele tem de aprender.
A Matemática exige trabalho. Muito trabalho. Não acredito numa Matemática feita de facilidades ou ilusões. Não acredito em prometer resultados sem esforço. Não acredito em atalhos milagrosos. Mas acredito numa exigência que levanta em vez de esmagar. Acredito numa disciplina que organiza sem ferir. Acredito numa autoridade que orienta sem humilhar. Acredito numa proximidade que não dispensa rigor. Acredito que cuidar também é exigir, quando a exigência nasce do compromisso com o crescimento do outro.
Há quem diga que falar de emoções na educação é desviar a escola da sua função. Eu penso exatamente o contrário. As emoções estão sempre presentes, mesmo quando fingimos que não estão. Estão presentes no estudante que bloqueia num teste apesar de saber a matéria. No que se cala porque tem medo de parecer fraco. No que faz uma piada para esconder que não percebeu. No que se irrita porque se sente incapaz. No que desiste antes de tentar porque já falhou demasiadas vezes.
A sala de aula nunca foi apenas um espaço cognitivo. É um espaço humano.
E se é humano, é também emocional, social e relacional.
Nos últimos tempos, tenho lido vários textos sobre aprendizagem socioemocional. Muitos deles dizem, com linguagem científica e fundamentada, aquilo que a prática me ensinou antes de eu ter nomes para lhe dar: que aprender depende também da capacidade de gerir emoções, estabelecer objetivos, persistir, cooperar, tomar decisões, pedir ajuda, lidar com conflitos e construir relações positivas.
A investigação chama-lhe aprendizagem socioemocional. Eu, durante muitos anos, chamei-lhe simplesmente ensinar com atenção à pessoa inteira.
Hoje sei que uma educação completa precisa de cabeça, coração e mão. A cabeça para pensar, compreender, relacionar ideias e resolver problemas. O coração para sentir, regular, empatizar, confiar e encontrar sentido. A mão para agir, fazer, construir, transformar, participar. Uma escola que educa apenas a cabeça pode formar pessoas competentes, mas incompletas. Uma escola que esquece o coração corre o risco de produzir sucesso sem humanidade.
E a Matemática, curiosamente, pode ser um lugar extraordinário para educar estas três dimensões.
A cabeça pensa o problema.
O coração suporta a frustração.
A mão escreve, tenta, apaga, recomeça.
Talvez seja por isso que continuo a gostar tanto de ensinar Matemática. Porque ela é uma metáfora perfeita da vida. Há enunciados que não percebemos à primeira. Há caminhos que parecem fechados. Há dados que nos confundem. Há escolhas a fazer. Há erros que nos obrigam a voltar atrás. Há momentos em que precisamos de mudar de estratégia. Há soluções que só aparecem depois de muita tentativa. E há uma alegria imensa quando finalmente percebemos.
Mas, para que tudo isto aconteça, o estudante precisa de sentir que está num lugar seguro para tentar.
Não seguro no sentido de fácil. Seguro no sentido de justo. Um lugar onde o erro é analisado, não ridicularizado. Onde a dificuldade é trabalhada, não usada como rótulo. Onde a pergunta é acolhida, não diminuída. Onde o professor não faz pelo estudante, mas fica por perto enquanto ele aprende a fazer.
Ao longo destes 35 anos, vi muitos estudantes crescerem diante de mim. Alguns chegaram pequenos, inseguros, a achar que nunca seriam capazes. Outros chegaram revoltados, desconfiados, cansados da escola. Outros chegaram excelentes, mas presos à obrigação de nunca falhar. Uns precisavam de método. Outros precisavam de calma. Outros precisavam de limites. Outros precisavam de colo, mesmo sem pedir. Outros precisavam apenas de uma frase: “confia no teu trabalho”.
E eu fui aprendendo com todos.
Aprendi que há estudantes que precisam de mais tempo.
Aprendi que há estudantes que escondem insegurança atrás de arrogância.
Aprendi que há estudantes que não estudam porque não sabem por onde começar.
Aprendi que há estudantes que têm medo de dececionar.
Aprendi que há estudantes que vivem tanta coisa fora da escola que chegar à aula já é, por si só, um ato de coragem.
Aprendi também que uma boa explicação pode mudar uma nota, mas uma boa relação pode mudar um percurso.
Não falo de uma relação sem regras, sem trabalho ou sem exigência. Falo daquela relação pedagógica onde o estudante percebe que há alguém que o vê. E ser visto, na educação, é uma forma profunda de cuidado. Muitas vezes, antes de aprender uma matéria, o estudante precisa de se sentir reconhecido como alguém capaz de aprender.
Há frases que ficam connosco.
“Confio em si, stora.”
Esta frase continua a comover-me e a assustar-me. Porque a confiança é bonita, mas pesa. Quando um estudante confia em nós, entrega-nos mais do que uma dúvida. Entrega-nos uma parte do seu medo, da sua esperança, do seu futuro. E nós não podemos tratar isso como coisa pequena.
Talvez por isso eu sinta, ainda hoje, a responsabilidade quase física de ensinar. Não são apenas conteúdos. São vidas em construção. São jovens que se preparam para exames, sim, mas também para escolhas, perdas, recomeços, frustrações, universidades, profissões, relações, mundo. A Matemática passa por ali como disciplina, mas a vida passa também.
E quando chega a época dos exames, tudo isto se torna mais evidente.
Há dias longos, horas seguidas de trabalho, revisões, simulados, dúvidas, bloqueios, cafés, águas, pausas obrigatórias, nervos à flor da pele. Há medo. Há riso. Há pressão. Há abraços. Há lágrimas. Há estudantes que dizem que não sabem nada e, afinal, sabem muito mais do que imaginam. Há outros que sabem, mas precisam de aprender a não deixar o medo comandar a prova.
Nessas alturas, percebo ainda melhor que ensinar Matemática é também ensinar autorregulação. É ajudar a organizar o estudo. É dizer que a pausa não é preguiça, é método. É lembrar que beber água importa, que dormir importa, que o corpo também pensa. É explicar que estudar seis horas seguidas sem respirar não é dedicação, é desgaste. É ensinar que o cérebro aprende melhor quando não está em guerra consigo próprio.
A educação socioemocional não vive apenas em programas. Vive nestes gestos concretos. Vive quando ensinamos um estudante a planear. Quando o ajudamos a reconhecer a ansiedade. Quando lhe mostramos que pode começar pelo que sabe. Quando lhe dizemos para não ficar preso numa pergunta. Quando o ajudamos a transformar o erro numa pista. Quando lhe damos ferramentas para continuar.
Durante 35 anos, vi que o sucesso académico raramente nasce apenas da inteligência. Nasce da persistência, da confiança, do método, da curiosidade, da relação, da capacidade de lidar com a frustração. Nasce também do ambiente. Da família, da escola, da turma, dos professores, dos amigos, das expectativas, das palavras que se ouvem e das que nunca se ouviram.
É por isso que acredito numa educação sistémica. Não basta pedir ao estudante que seja resiliente, autónomo, responsável e motivado, se o sistema à sua volta não o ajuda a desenvolver essas competências. A aprendizagem socioemocional não pode ser uma responsabilidade individual atirada para cima dos estudantes. Tem de estar na cultura da escola, nas práticas dos professores, na relação com as famílias, na forma como se avalia, se corrige, se acolhe e se acompanha.
Também os professores precisam de cuidado.
Durante anos, falou-se muito do que os estudantes precisam. E precisam de muito. Mas quem ensina também chega à escola com vida dentro. Com cansaço, preocupações, perdas, pressões, exigências, burocracias, excesso de trabalho e, ainda assim, a responsabilidade de estar inteiro diante dos outros. Não se pode pedir a professores emocionalmente esmagados que sejam permanentemente porto seguro sem lhes dar também algum chão.
Ensinar é uma profissão de presença. E a presença exige alma.
Talvez seja por isso que, apesar do cansaço, continuo a acreditar profundamente neste ofício. Porque há momentos que pagam tudo. O momento em que um estudante percebe. O momento em que volta depois de anos e conta que conseguiu. O momento em que já adulto nos trata como parte do caminho. O momento em que um antigo estudante se torna engenheiro, professor, médico, investigador, trabalhador, pai, mãe, cidadão, pessoa inteira. O momento em que percebemos que a Matemática foi só uma das linguagens usadas para o acompanhar.
Tenho estudantes que voltaram como amigos. Outros que voltaram quase como colegas. Alguns seguiram áreas onde a Matemática continuou presente. Outros fugiram dela o mais que puderam, e está tudo bem. O que eu sempre desejei foi que fossem felizes, competentes, íntegros, reconhecidos pelo seu valor. Que soubessem pensar. Que soubessem escolher. Que não tivessem medo de aprender. Que não usassem o conhecimento para diminuir ninguém. Que levassem consigo alguma humanidade.
Porque, no fim, é isso que fica.
Não ficam todos os exercícios. Não ficam todas as fórmulas. Não ficam todos os testes. Mas fica a experiência de ter sido acompanhado. Fica a memória de alguém que insistiu. Fica a frase dita no momento certo. Fica a confiança emprestada até que se torne própria. Fica a ideia de que aprender pode ser difícil sem ser cruel.
Se tivesse de resumir a minha forma de ensinar depois de 35 anos, talvez dissesse isto:
ensino Matemática com rigor, mas não ensino números a cadeiras vazias.
Ensino pessoas.
Pessoas que chegam com histórias, medos, talentos, resistências, pressas, sonhos e fragilidades. Pessoas que precisam de aprender conteúdos, mas também de aprender a lidar consigo próprias enquanto aprendem. Pessoas que precisam de saber resolver uma equação, mas também de saber que um erro não lhes rouba valor. Pessoas que precisam de preparar exames, mas também de preparar a vida.
Porque ensinar durante 35 anos não me fez saber tudo. Fez-me perceber melhor o quanto há sempre para aprender sobre os estudantes, sobre a escola, sobre a vida e sobre mim.
A Matemática ensinou-me que há problemas com muitas formas de resolução.
A educação ensinou-me que cada estudante também.
E talvez seja esse o grande segredo: não desistir de procurar o caminho.
Mesmo quando parece difícil.
Mesmo quando demora.
Mesmo quando é preciso apagar tudo e começar outra vez.
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