Dia da Criança
Hoje é Dia da Criança.
Das crianças que criei e que hoje já são crescidas — embora, aos meus olhos, continuem a ter qualquer coisa de pequenos. Há uma parte de nós que nunca atualiza completamente a idade dos filhos. Crescem, estudam, trabalham, amam, escolhem caminhos, constroem vida. Mas dentro de uma mãe há sempre uma memória teimosa: a mão pequena dentro da nossa, o sono no colo, a primeira palavra, o primeiro medo, a primeira febre, a primeira vez em que percebemos que amar alguém é viver com o coração fora do corpo.
Hoje é também o dia das crianças que ajudei a criar. Algumas já são adultas. Algumas já têm filhos. E há nisto uma ternura imensa: ver aqueles que um dia precisaram de nós a tornarem-se colo para outros. A vida tem destas voltas bonitas. Um dia seguramos uma criança pela mão; anos depois, essa criança segura outra. E percebemos que educar nunca acaba no momento em que alguém cresce. Fica. Passa de uns para os outros como uma espécie de herança invisível.
Hoje é o dia das crianças da minha academia de estudos. Das que entram com pressa, mochila pesada, perguntas desarrumadas, cansaços que às vezes parecem grandes demais para corpos tão pequenos. Das que dizem “não consigo” antes de tentarem. Das que se iluminam quando percebem. Das que nos testam a paciência e, sem saberem, nos ensinam a ternura. Todos os dias me lembram que aprender não é só decorar, repetir ou acertar. Aprender é ganhar confiança. É descobrir que o erro não é uma vergonha. É perceber que alguém acredita em nós antes de nós próprios conseguirmos acreditar.
As crianças ensinam-nos uma coisa que os adultos desaprendem depressa: a verdade simples das emoções. Uma criança ri quando está feliz, chora quando dói, pergunta quando não entende, abraça quando confia, cala-se quando precisa de ser escutada sem pressa. Talvez crescer seja, muitas vezes, aprender a esconder demasiado. E talvez educar seja o contrário: criar um lugar onde uma criança não tenha medo de ser inteira.
Hoje é Dia da Criança. Mas talvez também seja o dia de nos lembrarmos da criança que fomos.
Daquela que correu, caiu, teve medo, inventou mundos, acreditou em impossíveis, fez perguntas difíceis e achou que o céu era muito maior do que aquilo que lhe diziam. Essa criança não desapareceu. Está apenas mais silenciosa. Vive em nós quando nos comovemos com uma música, quando rimos sem razão, quando temos vontade de ir ver o mar, quando sentimos saudades de uma casa antiga, quando ainda precisamos de colo, mesmo sem o pedir.
A criança que fomos continua a pedir-nos cuidado.
Pede-nos que não endureçamos demasiado. Que não confundamos maturidade com frieza. Que não façamos da vida apenas horários, tarefas, contas, metas e obrigações. Pede-nos que continuemos capazes de brincar, de nos espantar, de perguntar, de recomeçar. Pede-nos que não deixemos morrer a parte de nós que ainda sabe olhar para uma coisa pequena como se fosse um milagre.
Talvez seja isso que as crianças vêm fazer ao mundo: recordar-nos que a vida não nasceu para ser apenas produtiva. Nasceu também para ser descoberta.

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