Dez de Junho, Camões e as contas que ainda faltam fazer
Hoje é Dez de Junho.
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Dia de hastear a bandeira, de lembrar a língua, o mar, os versos, as partidas, os regressos e essa estranha capacidade portuguesa de atravessar tempestades com uma mão no leme e a outra a dizer: “isto amanhã resolve-se”.
É feriado.
Portanto, naturalmente, estou a trabalhar.
Porque há patriotismos muito bonitos, com cravos, hinos e discursos solenes, e depois há o patriotismo silencioso de quem abre o computador num feriado, corrige exercícios, prepara exames, responde a mensagens e tenta convencer adolescentes de que uma função afim não é uma entidade maligna enviada para lhes destruir a juventude.
Camões escreveu sobre mares nunca dantes navegados.
Eu, hoje, navego em mares nunca dantes simplificados: equações, derivadas, probabilidades, limites, gráficos, dúvidas de última hora e alunos que, dois dias antes do exame, descobrem subitamente que a Matemática existe.
Camões tinha Adamastor.
Nós temos o exame nacional.
E, sejamos honestos, o Adamastor ainda avisava ao que vinha. Já o exame aparece com ar muito institucional, folha branca, enunciado limpo, e depois atira uma pergunta de geometria analítica que faz tremer até quem já sobreviveu a três reuniões de avaliação.
Mas há qualquer coisa de profundamente portuguesa nesta época de exames.
Há o drama.
Há a esperança.
Há mães a acender velas.
Há pais a dizer “no meu tempo era mais difícil”.
Há alunos a prometer que, se isto correr bem, nunca mais deixam tudo para a última semana — promessa tão antiga e comovente como as naus a sair do Restelo.
E há professores e explicadores, a remar contra o vento, a fazer contas ao tempo, a transformar ansiedade em método e pânico em exercícios resolvidos.
Portugal também se fez disto: de gente que não desistiu à primeira vaga.
Camões perdeu um olho, escreveu uma epopeia e ainda encontrou maneira de nos deixar versos suficientes para atravessar séculos. Nós, por cá, perdemos horas de sono, paciência e algumas canetas, mas continuamos a acreditar que uma boa explicação, um caderno organizado e um bocadinho de coragem podem mudar o rumo de uma nota.
A Matemática, afinal, também tem muito de epopeia.
Cada problema é uma viagem.
Cada incógnita é uma ilha por descobrir.
Cada erro é um naufrágio pequeno, daqueles que ensinam mais do que humilham.
Cada aluno que finalmente percebe é uma espécie de chegada à Índia — sem especiarias, é certo, mas com aquele brilho nos olhos que vale quase o mesmo.
Neste Dez de Junho, celebro Portugal assim: não com bandeiras à janela, mas com lápis na mão. Celebro a língua em que ensinamos, ralhamos, explicamos, brincamos e dizemos “vá, tenta outra vez”. Celebro os alunos que têm medo, mas aparecem. Os que tropeçam, mas insistem. Os que acham que não conseguem, até ao dia em que conseguem.
E celebro também Camões, claro.
Esse homem que nos ensinou que uma pátria também se escreve com palavras.
Eu acrescentaria: e com contas.
Porque entre um verso e uma equação talvez haja mais semelhanças do que parece. Ambos pedem rigor. Ambos precisam de beleza. Ambos nos obrigam a olhar para o mundo de outra maneira. E ambos, quando finalmente fazem sentido, têm qualquer coisa de milagre.
Hoje é feriado.
Portugal descansa.
Eu trabalho.
Mas trabalho com aquele orgulho meio cansado, meio teimoso, muito nosso, de quem sabe que ensinar também é servir o país. Sem espada, sem nau, sem trombeta épica — apenas com fichas, cafés, mensagens, explicações e a esperança de que, no dia do exame, cada aluno leve consigo um bocadinho mais de confiança.
Camões que me perdoe a ousadia, mas hoje os meus Lusíadas são estes: os alunos, os exames, as dúvidas, os nervos, os sonhos e esta vontade antiga de ajudar alguém a chegar mais longe.
E se isto não é também amar Portugal, então não sei o que será...
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