Começa o verão
Hoje começa o verão e há qualquer coisa de mágico nisso.
Talvez seja a luz. Talvez seja esta forma estranha que junho tem de parecer uma porta entreaberta. Talvez seja o cansaço bom de quem atravessou muitos dias de chuva, muitos dias de quadro cheio, muitas horas de contas, vozes, perguntas, explicações, dúvidas, gargalhadas, chamadas de atenção, cafés bebidos depressa e sonhos empurrados com as duas mãos para a frente.
Para muita gente, o ano acaba em dezembro. Para mim, não.
Para mim, o verdadeiro fim do ano chega agora, quando o verão começa e o ano letivo se despede. O meu calendário interior nunca obedeceu muito aos calendários oficiais. Janeiro pode ter fogos de artifício, passas, champanhe e promessas escritas em guardanapos, mas é junho que me pede contas. É junho que se senta à minha frente, como quem sabe tudo, e me pergunta: então, o que fizeste da tua vida nestes seis meses?
E eu respondo-lhe devagar.
Fiz o que pude. Às vezes mais do que podia.
Ensinei. Corrigi. Expliquei. Repeti. Voltei a explicar. Dei listas, exercícios, métodos, ralhetes, abraços, esperança. Vi estudantes chegarem inseguros e saírem um pouco mais inteiros. Vi olhos cansados a acenderem-se quando, finalmente, uma função fazia sentido. Vi miúdos a crescerem sem darem por isso. Vi a Matemática transformar-se, em alguns dias, numa espécie de linguagem secreta entre mim e eles. E, no fim, como acontece todos os anos, lá estava o exame de Matemática, esse grande portão simbólico, a fechar o meu ano escolar.
Depois do exame há sempre um silêncio diferente.
Não é vazio. É suspensão.
É como quando uma casa fica arrumada depois de uma festa. Ainda há copos fora do sítio, papéis esquecidos, cadeiras puxadas, migalhas no chão. Mas no ar fica qualquer coisa. Uma alegria cansada. Um eco. A prova de que houve vida ali.
É nesta altura que faço o meu balanço. Não com folhas Excel, nem com gráficos, nem com colunas de ganhos e perdas. Faço-o de outro modo. Conto pessoas. Conto aprendizagens. Conto sobrevivências. Conto os dias em que quase desisti e não desisti. Conto os dias em que fui forte sem me apetecer. Conto as vezes em que a vida me deu trabalho e eu, ainda assim, lhe respondi com trabalho, com ternura, com teimosia.
Há quem me pergunte se não estou cansada.
Não estou.
Porque há cansaços que são só peso e há cansaços que são colheita. O meu, nesta altura, é dos segundos. É uma colheita feita de nomes, de histórias, de rostos, de caminhos. Uma colheita que não me diminui, mas me confirma. Como se cada ano letivo deixasse em mim mais uma camada de mundo.
E depois, quando finalmente paro uns dias, descubro que não sei parar muito tempo. Descanso, sim. Mas logo a seguir começo a imaginar. A cabeça acende-se. O coração começa a fazer projetos. Há sempre uma ideia nova à espera de nascer, uma surpresa guardada numa gaveta, uma coisa qualquer a pedir forma. Talvez eu seja feita desta matéria inquieta: fecho ciclos com uma mão e, com a outra, já estou a desenhar o próximo mapa.
Para o ano haverá uma grande surpresa.
Ainda não digo. Há coisas que precisam de ficar algum tempo em segredo, como sementes debaixo da terra. Quem olha de fora pensa que nada está a acontecer. Mas lá dentro tudo se prepara: a raiz, o caule, o impulso de subir até à luz.
Pelo caminho, haverá jantares com amigos, lanches e cafés com amigas, conversas demoradas, gargalhadas sem relógio, o meu aniversário, um concerto, talvez alguns finais de tarde em que me permito simplesmente existir. E, claro, haverá o doutoramento. E um congresso internacional. Porque uma vida minha sem estudar também não tinha muita piada.
Há quem sonhe com férias sem fazer nada. Eu também sonho, às vezes. Mas depois lembro-me de que sou feliz neste movimento. Nesta mistura improvável entre descanso e projeto, afeto e ambição, festa e trabalho, colo e futuro. A minha vida raramente cabe numa só palavra. Talvez por isso eu goste tanto de escrever: porque a escrita permite guardar as contradições sem as obrigar a lutar entre si.
Hoje começa o verão.
E eu gosto desta ideia de que o verão chega não apenas para aquecer os dias, mas para iluminar aquilo que fomos fazendo no escuro. Gosto de pensar que há uma estação dentro de nós que só começa quando temos coragem de olhar para trás sem culpa e para a frente sem medo.
O balanço de vida não serve para nos acusar. Serve para nos devolver a nós mesmos.
Serve para percebermos onde nos perdemos, onde nos encontrámos, quem caminhou connosco, quem ficou, quem partiu, quem nos trouxe luz, quem nos ensinou limites. Serve para agradecer. Para limpar. Para escolher. Para dizer: daqui para diante levo isto, deixo aquilo, perdoo-me por não ter conseguido tudo, celebro-me por ter conseguido tanto.
Talvez crescer seja isto: aprender a fazer contas à vida sem transformar a vida numa conta.
Nem tudo tem resultado imediato. Nem tudo se mede. Nem tudo se explica. Há coisas que só se percebem muito depois, quando olhamos para trás e descobrimos que aquele dia difícil também nos construiu. Que aquela perda nos abriu outra forma de amar. Que aquele cansaço nos ensinou a escolher melhor. Que aquelas pessoas que passaram por nós deixaram pequenas moradas no nosso peito.
Hoje começa o verão e eu chego aqui com o coração cheio.
Cheio dos meus estudantes. Cheio da minha Academia. Cheio dos que entram todos os anos e, sem saberem, ficam. Cheio dos amigos que são casa. Cheio dos projetos que me desafiam. Cheio dos sonhos que ainda não aprendi a abandonar. Cheio de futuro, apesar de tudo.
E talvez seja isso a magia deste dia: o verão começa fora, mas também começa dentro.
Começa quando aceitamos que fizemos caminho. Que não foi perfeito, mas foi inteiro. Que houve esforço. Que houve amor. Que houve entrega. Que houve vida.
E agora, por uns dias, deixo o mundo respirar comigo.
Depois volto.
Com ideias novas, planos novos, coragem renovada e esta mania antiga de acreditar que ainda há muito por fazer.
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